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Orquídeas em meio a bananais

OESP, Agrícola, p. G6-G7
06 de dez de 2006

Orquídeas em meio a bananais
No Vale do Ribeira, maior produtor nacional da fruta, as belas flores começam a se tornar opção

José Maria Tomazela

Encarado até agora como um hobby, o cultivo de orquídeas começa a assumir feições de um bom negócio no Vale do Ribeira, sul de São Paulo. A atividade se expandiu principalmente entre os produtores de banana - a região, uma das mais pobres do Estado, é a maior produtora nacional da fruta.

Conforme o presidente da Sociedade dos Orquidófilos do Vale do Ribeira, o médico José Luiz Martins André, a região é perfeita para o cultivo da flor. 'O vale é quase todo coberto pela mata atlântica, hábitat natural de muitas espécies de orquídeas brasileiras', diz. 'Além disso, tem água pura, com pH adequado, e clima úmido, como a maioria das plantas gosta. É como uma estufa natural.' As condições favoráveis propiciaram um grande crescimento da atividade. Entre os 50 membros da sociedade, fundada há seis anos, estão vários campeões nacionais, em diversas modalidades.

MERCADO EXTERNO

'Chegou a hora de começarmos a pensar no vasto mercado da flor, não só no Brasil, mas no exterior.' Segundo André, alguns produtores, incluindo ele, já estão vendendo o excedente da produção nos eventos e exposições na capital e no interior.

Mas a meta é ter plantas de alta qualidade e valor agregado para abastecer o mercado nacional mais exigente e o exterior. 'Eles se interessam muito pelas nossas plantas. É um mercado de alto valor.' Nesse mercado, as orquídeas não são vendidas por planta, mas por bulbo, ou seja, a parte da flor usada na formação de um novo vaso.

Uma planta média pode ter de cinco a dez bulbos. 'Um bulbo de qualidade custa entre R$ 100 e R$ 300', diz. O Brasil, segundo André, tem potencial para ser um grande exportador tanto de vasos comerciais quanto de plantas para colecionadores. 'Se aumentarmos 20 vezes o que exportamos ainda é pouco.' Ele está reunindo informações sobre o mercado para dar suporte aos associados.

A orquídea, diz o presidente da sociedade, é exigente em clima e cuidados. A maioria das espécies não suporta nada em excesso, nem água, nem luz, nem variações de temperatura. O cultivo é feito em estufas cobertas com tela do tipo sombrite.

A Chácara das Orquídeas, onde fica o viveiro de André, em Juquiá, funciona como uma empresa. Na sala de recepção e no amplo escritório estão expostos os mais belos exemplares floridos, como uma Catleya forbesi, da mata atlântica, uma Laelia purpurata, um Dedrobium asiático, algumas plantas da África e da Ilha de Madagascar e vários prêmios e troféus. As 3 mil plantas foram cadastradas, fotografadas e catalogadas em DVD.

Os negócios são fechados via internet. Ainda não se fala em números. 'Nossa estrutura é cara. Quando a fizemos não tínhamos interesse comercial', diz. Os viveiros são amplos e modernos. A água captada numa mina da encosta flui por gravidade e abastece um fosso de água corrente que cerca a instalação. Além de garantir boa umidade, não deixa passar formigas e insetos rasteiros. As plantas são separadas por grupos, um deles de microrquídeas. Muitas são exóticas e foram adquiridas por meio de troca entre os colecionadores. Há espécies de terra, plantadas ao redor da estufa. A mata próxima está repleta de orquídeas, muitas com flores, como a popular chuva-de-ouro.

De hobby a atividade lucrativa
Produtores começam a dedicar mais tempo ao cultivo de flores

O agricultor Izidoro Nakazawa é um dos maiores produtores de banana do Vale do Ribeira, mas sempre gostou de orquídeas. 'Fui juntando por gosto, até formar uma boa coleção', diz o agricultor. Com o tempo escasso por causa da atividade principal, acabou relegando, porém, o viveiro a um segundo plano.

'Estava praticamente parado quando o André me convidou a fazer parte da associação.' A idéia de participar de exposições e sair para o mercado o atraiu. Para dedicar-se mais às plantas, instalou luminárias no viveiro e assim trabalha durante a noite. As plantas foram separadas por grupos e ganharam plaquetas de identificação. 'Minha família também gosta e ajuda bastante.'

A dedicação foi premiada: uma Coleogini stricta do seu cultivo foi campeã na exposição de Botucatu (SP) este ano. Ele havia vencido também a exposição de São Paulo, organizada pela colônia japonesa, concorrendo com os principais orquidófilos brasileiros. O engenheiro agrônomo Luiz Antonio de Campos Penteado é produtor e um dos maiores especialistas em bananas do País. Quando as atividades de bananicultor e de técnico da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado permitem, ele se dedica às orquídeas. São 2.500 vasos em estufas que praticamente isolam sua casa. 'Quase não sobrou espaço para o carro.'

SOMBRITE AZUL

Numa das estufas, ele faz testes com uma cobertura de sombrite azul. 'Já deu para observar que a cor azul tem um efeito melhorador da fotossíntese. É uma experiência que podemos empregar na banana.' Como pesquisador, Penteado também testa materiais baratos que podem ser usados nos viveiros. 'Já percebi que as bancadas de madeira não funcionam, pois as raízes grudam nelas.'

Ele transformou, então, gaiolas de coelhos em suporte para os vasos e aproveitou um portão velho para acomodar as plantas. A estrutura de uma das estufas é de PVC, material mais barato. 'O que tenho procurado demonstrar é que a atividade não precisa de uma estrutura cara. É, aliás, uma boa oportunidade para a reciclagem de materiais.'

É por isso, diz Penteado, que os membros da sociedade de orquidófilos formam um grupo bem heterogêneo, com médicos, produtores rurais, professores, pedreiros e aposentados. Penteado dá palestras sobre o cultivo de orquídeas avançado ou para iniciantes.

(SERVIÇO)
SAIBA MAIS
Sociedade Orquidófila do Vale do Ribeira, tel. (0--13) 3821-1464

Sociedade quer repovoar mata com a flor
Orquidófilos buscam parceria com Secretaria do Meio Ambiente paulista

Os orquidófilos do Vale do Ribeira querem firmar uma parceria com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado e o Ibama para repovoar com orquídeas as matas da região. O projeto envolve o lançamento de um livro sobre as plantas típicas do Vale. 'São centenas de espécies, muitas delas correndo risco, pois ainda há quem retire plantas da mata para vender', conta o orquidófilo André.

Por meio da parceria, a sociedade pretende lançar uma campanha em defesa das orquídeas. 'Nem sempre as plantas retiradas da mata sobrevivem nos lugares para onde são levadas. Via de regra, tornam-se plantas feias, sem atrativo e com baixíssimo valor comercial', diz André. Os membros da associação têm se dedicado a melhorar essas plantas em estufas, por meio de um processo de seleção ou cruzamentos.

'Escolhemos os bulbos mais vigorosos e, cercando-os de todos os cuidados, obtemos plantas mais bonitas e floridas.' Eles recorrem também a um laboratório de São Lourenço da Serra (SP) para trabalhos de reprodução mais complexos.

O livro será também como um portfólio do Vale do Ribeira no circuito de exposições do qual a sociedade participa. São cerca de 15 mostras em São Paulo e em outros Estados, como Paraná, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. No mundo, são conhecidas cerca de 20 mil espécies de orquídeas. Destas, 8 mil estão na América Tropical, onde o Brasil aparece com cerca de 2.300 espécies.

OESP, 06/12/2006, Agrícola, p. G6-G7

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