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Orgânico deixa de ser nicho e ganha escala

OESP, Projetos Especiais, p. 10-11
28 de Ago de 2015

Orgânico deixa de ser nicho e ganha escala
Setor conquista produtores como a Fazenda da Toca, com mais de 2 mil hectares, que investe e difunde pesquisas

Desde 2009, o segmento de orgânicos vem surpreendendo com uma taxa de crescimento de 25% ao ano. Em 2014, o setor faturou US$ 1,5 bilhão. O ano de 2015 vai ser melhor ainda, e o setor deve fechar com US$ 2,5 bilhões. Os Estados Unidos avançam 11% ao ano e detêm quase a metade do comércio internacional, avaliado em US$ 72 bilhões. "O mercado americano já chegou à estabilidade, enquanto o Brasil está começando a decolar", diz Ming Lui, coordenador da Organics Brasil.
O aumento da oferta é visível. Houve um tempo em que o consumidor brasileiro precisava pesquisar para achar um endereço que oferecesse alimento (industrializado ou in natura) orgânico - ou seja, produzido a partir de uma semente não modificada geneticamente, que tenha se desenvolvido longe de qualquer contato com defensivos agrícolas sinté- ticos ou adubos químicos.
Hoje, grandes redes de supermercados, como Pão de Açúcar, Mambo e St Marche, possuem setores especiais. Nas prateleiras, encontra-se todo tipo de produto orgânico - hortaliças, frutas, lácteos, carnes, sucos, ração para cachorro, xampu, maquiagem, entre tantos outros itens industrializados. Há ainda as lojas especializadas. A Mundo Verde tem 280 unidades espalhadas pelo Brasil. A Korin Agropecuária, produtora de ovos e frango orgânicos, lançou este ano produtos como hambúrgueres e almôndegas, feitos com frango criados livres de antibióticos e soltos na granja. Em 2015, a empresa deve faturar R$ 115 milhões.
"Esse setor deixou de ser um nicho do mercado e está ganhando escala", diz Valeska de Oliveira, gerente de negócios da Bio Brazil Fair, maior feira de orgânicos do País. O setor tem no DNA a agricultura familiar. "Em geral, são pequenos e médios produtores, que se organizam em cooperativas", diz Valeska. No Estado de São Paulo a taxa de produtores que ingressam no segmento de orgânico é de 50% ao ano. "Antes eu conhecia cada um deles por nome, hoje já não sei quem é quem", diz o engenheiro Marcelo Laurino, secretário-executivo da Comissão da Produção Orgânica de São Paulo, referindo-se aos produtores que vão à sede da entidade, em Piracicaba, para se cadastrar. "Mesmo com o aumento de fornecedores, o setor está pressionado por uma demanda alta. Precisa equacionar questões como distribuição e escala, para baixar o preço das mercadorias." PROFISSIONALIZAÇÃO. O Brasil está dez anos atrás dos Estados Unidos quando o assunto é a cultura de orgânico. O mercado americano foi regulamentado em 2001, o brasileiro, em 2011. Foi só a partir daí que os produtores começaram a se profissionalizar.
Os bons resultados estão atraindo investidores de fôlego, caso do ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Paulo Diniz, que hoje está à frente da Fazenda da Toca, 100% orgânica, em Itirapina, a 200 km de São Paulo. Considerada propriedade modelo, produz frutas, leite e ovos. Um total de 2.300 hectares de terra, dos quais 1.483 são certificados. Herdeiro de uma das maiores fortunas do Brasil, ele deixou de lado a badalação e saiu da mira dos holofotes para se dedicar à administração da propriedade da família, que a partir de 2009 passou a ser orgânica.
"Conseguimos fazer essa transição sem perder produtividade", diz João Carvalho, gerente de produto da Fazenda da Toca, que tem 140 funcionários. "Começamos pelo pomar de laranja. Depois aumentamos a área plantada com outros tipos de frutas." O crescimento da produtividade é administrado de forma lenta e sustentável. "No início, a fazenda vendia laranjas para supermercados, mas isso dava prejuízo. Os pedidos não são constantes. Quando um varejista diz que não quer o produto, você não tem o que fazer com a fruta, que é muito perecível. Por isso optamos por produzir sucos." Mais da metade da produção é exportada para a Europa. Não tem açúcar, nem conservante. "Para conseguir um bom suco, sem aditivos, tivemos que investir muito na qualidade da fruta", explica Carvalho.
Mais tarde a fazenda passou a criar aves com o objetivo de aproveitar o esterco para adubo. Hoje 25 mil galinhas ciscam soltas pela propriedade e botam Suco de laranja orgânico da Fazenda da Toca: alternativa ao produto in natura 20 mil ovos/dia. A Toca é o maior produtor de ovos orgânicos do Brasil. Ali também funciona uma fábrica de queijos e iogurtes, elaborados a partir dos 5 mil litros de leite tirados das vacas da fazenda. "Optamos pelos derivados porque a distribuição do leite tem de ser diária, enquanto os derivados podem ser entregues uma ou duas vezes por semana", diz Carvalho. A fábrica de queijo e iogurte, que funciona na fazenda, surgiu como uma forma de agregar valor ao produto, facilitar e baratear a distribuição.
A Fazenda da Toca e a Embrapa São Carlos são parceiros em pesquisas de técnicas de fomento da produtividade. Há ainda uma equipe de engenheiros que trabalha no desenvolvimento de novos maquinários para o manejo da produção em matas nativas. "Existem no mercado colheitadeiras para milho e soja, mas para locais com práticas agroflorestais a lida fica muito braçal e queremos facilitar o processo", diz Carvalho. "Há quem imagine que o orgânico seja a agropecuária do passado, mas investimos em pesquisa e novas tecnologias. Tenho registrado no computador o histórico de todas as vacas da propriedade desde o dia do nascimento. É a rastreabilidade completa", afirma.
A fazenda ainda abriga o Instituto Toca, que atua nas áreas de Educação, Saúde Integral, Cultura e Meio Ambiente. Promove palestras e cursos técnicos para difundir a filosofia da vida orgânica, onde o homem surge como parte da natureza e vive de forma harmoniosa e colaborativa com o meio ambiente.

OESP, 28/08/2015, Projetos Especiais, p. 10-11

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