Folha, Poder, p. A8
27 de Fev de 2016
Operação aponta propina a chefe da Valec
Segundo ação ramificada da Lava Jato, presidente da estatal até 2011 foi beneficiado com R$ 5,7 mi de empreiteiras.
PF e Procuradoria em Goiás indicam ainda prejuízo de R$ 630 mi em obras de ferrovias, entre elas a Norte-Sul
A Operação O Recebedor, desencadeada pela Polícia Federal e Procuradoria da República em Goiás nesta sexta-feira (26) como desdobramento da Lava Jato, apontou supostos prejuízos de R$ 630 milhões em obras de ferrovias contratadas pelo governo federal e o pagamento de propina ao ex-presidente da Valec (estatal do setor ferroviário), José Francisco das Neves, o "Juquinha", que dirigiu a estatal de 2003 a 2011.
A operação envolveu o cumprimento, ordenado pela Justiça, de 44 mandados de busca e apreensão e sete conduções coercitivas.
Segundo a apuração, um grupo de 15 empreiteiras que mantêm contratos coma Valec pagou R$ 5,7milhões para o escritório de advocacia que defende Neves na Justiça.
Dois executivos da Camargo Corrêa apontaram, em acordo de delação premiada com a Lava Jato, que as empreiteiras fizeram um acordo para custear a defesa de Neves, a pedido dele.
Segundo a representação do procurador Helio Telho Corrêa Filho, o defensor de Neves que recebeu os valores, Heli Lopes Dourado, não é "apenas um mero intermediário ou um simples laranja, mas verdadeiro operador financeiro do esquema corrupto".
O procurador disse que a família de Neves teve salto de patrimônio de R$ 1,9 milhão, em 2002, para R$ 21,3milhões em 2010,"particularmente a partir de 2006, quando os contratos para construção da Ferrovia Norte-Sul foram celebrados".
Em 2015, a Camargo reconheceu "a prática de condutas criminosas" nos contratos com a Valec e aceitou pagar R$ 65milhões apenas sobre os fatos relativos à estatal. Três ex-funcionários fizeram acordo de delação.
Em sua delação, João Ricardo Auler contou que "houve formação de cartel entre empreiteiras relativo a licitações com a Valec a partir de 2001". Segundo o delator, "houve pagamento de propina a 'Juquinha' a partir de 2008,apedidodele próprio". Parte do suborno, disse Auler, foi paga ao escritório de Heli Lopes Dourado.
O delator Luiz Otávio Micherefe, gerente dos contratos da Camargo com a Valec a partir de 2009, contou que "houve conluio entre as empresas de forma a combinar as propostas" às licitações da Valec e que a presidência do órgão "já tinha estratégia para definir quem seriam as empresas vencedoras das licitações".
Micherefe disse ter sido informado que "'Juquinha' solicitara que as empresas com contrato com a Valec fizessem cotização para pagar por sua defesa nos processos que contra ele se instauravam".
O procurador disse que o "mapa do cartel" fornecido pelos delatores mostra que "praticamente todas as licitações realizadas pela Valec para construir as Ferrovias Norte-Sul e Integração Oeste-Leste foram fraudadas".
Também são alvos da investigação Odebrecht, Queiroz Galvão, Mendes Júnior Trading, Galvão Engenharia, Constran, OAS, Serveng Civilsan, Cavan Pré-Moldado, Tiisa, Braemp, CR Almeida, Ivaí Engenharia, Servix, SPA Engenharia, Egesa Engenharia, Construtora Barbosa Mello, Consórcio Aterpa, Torc, e Elccom Engenharia, Evolução Tecnologia e Consórcio Ferrosul. (Bela Megale, Flávio Ferreira, Mônica Bergamo, Rubens Valente e Rafael Mesquita)
Neves nega recebimento de recursos ilícitos
A defesa do ex-presidente da Valec José Francisco das Neves e de sua família informou que o os três prestaram todos os esclarecimentos à Polícia Federal.
De acordo com os advogados, Neves afirmou em seu depoimento que jamais recebeu qualquer quantia ou vantagem ilícita das pessoas citadas na operação.
O advogado Heli Lopes Dourado considerou absurda e desnecessária a busca e apreensão em seu local de trabalho. Mesmo assim, garantiu que não teme as apurações.
As empresas alvos da investigação evitaram comentar detalhes da operação. A Odebrecht informou que "nada foi apreendido" nas buscas desta sexta (26) e que está à disposição para esclarecimentos.
A Queiroz Galvão, o Grupo Galvão e a Barbosa Mello também afirmaram que não houve apreensões. Mendes Junior e Constran não comentaram.
A Tiisa disse que os documentos solicitados foram entregues. A Cavan afirmou que a sua participação nas obras ocorre "na mais estrita observância das leis" e que vai colaborar com as autoridades.
O Consórcio Aterpa diz que colocou à disposição os documentos sobre o trecho na ferrovia Norte Sul e desconhece qualquer irregularidade.
CR Almeida, Egesa Engenharia, Servix, SPA Engenharia e Torc não responderam à reportagem.
A reportagem não conseguiu contato com a Evolução Tecnologia e Planejamento e Ivaí Engenharia.
Em obras há 30 anos, ferrovia acumulou mais escândalos do que carga transportada
Dimmi Amora
A ferrovia Norte-Sul foi anunciada 30 anos atrás pelo então presidente José Sarney como a salvação do transporte no país. Mas, em todo esse tempo, a via acumulou mais escândalos nas costas que carga transportada.
O primeiro foi logo em seu início, quando a Folha apontou, em 1987, que a primeira concorrência para a construção da via estava direcionada, com os ganhadores já conhecidos antes da disputa.
Todas as empresas alvos da operação da Polícia Federal desta sexta (26) "venceram" algum dos lotes daquela "disputa".
A denúncia não impediu a continuidade das obras do primeiro trecho de 215 quilômetros dentro do Maranhão, que só ficou pronto uma década depois, já no governo Fernando Henrique Cardoso. O segundo trecho da obra, 505 quilômetros até Goiás, também demorou quase uma década até ser inaugurado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula ganhou gosto pela Norte-Sul, da qual foi ferrenho crítico em seu lançamento. Imaginada ainda nos anos 1950, essa obra deveria ser uma espécie de espinha dorsal das ferrovias do Brasil, interligando as e facilitando a comunicação entre portos.
Estudos da estatal Valec, a empresa responsável pela construção, apontam que o país perde mais de R$ 12 bilhões por ano em aumento de custos logísticos sem a conclusão do projeto.
No segundo mandato de Lula, o governo injetou recursos para a conclusão do terceiro trecho da obra - os 855 quilômetros que levaríamos trilhos até o sul de Goiás-, finalmente ligando-os a uma das ferrovias nacionais existentes para, comisso, aumentar o transporte de carga pela via que mal chegava aos 10% de sua capacidade.
No período eleitoral de 2010 a obra avançava rápido e Lula a "inaugurou" pelo menos duas vezes em eventos para promover a sua candidata, Dilma Rousseff.
Mas, quando Dilma assumiu, em 2011, recebeu uma ferrovia incompleta, cheia de defeitos e superfaturada, sobre a qual só em 2015 conseguiu colocar um trem com carga para trafegar.
Mesmo assim, a presidente não deixou de passear em locomotivas para ser fotografada sobre os trilhos que não levavam carga. Aliás, trilhos de "baixa dureza", segundo o próprio governo.
A estratégia do governo para concluir a Norte-Sul agora é entregar o restante da obra até a região Sul à iniciativa privada. Serão 40 anos para fazer 3.000 quilômetros de ferrovias - em 20 anos, a China fez 20 mil só para trem-bala.
Folha revelou em1987 fraude em concorrência
A ferrovia Norte-Sul teve irregularidades apontadas já em 1987, quando o colunista da Folha Janio de Freitas denunciou acerto prévio entre empreiteiras.
Os escolhidos para18lotesdaobra, orçados no que equivaleria hoje a R$ 21 bilhões, foram divulgados pelo jornal, horas antes da abertura da concorrência, em um anúncio cifrado que trazia as iniciais dos trechos e das empreiteiras, algumas delas alvos da Lava Jato.
Folha, 27/02/2016, Poder, p. A8
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/02/1743591-construtoras-sao-alv…
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/02/1743631-ferrovia-acumula-mai…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.