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ONGs só atuarão na Amazônia com autorização expressa da Defesa

OESP, Nacional, p. A4
24 de Abr de 2008

ONGs só atuarão na Amazônia com autorização expressa da Defesa
Governo também vai criar um estatuto específico para regulamentar o trabalho dessas entidades em todo o País

Vera Rosa

O Planalto vai fechar o cerco às organizações não-governamentais (ONGs), na tentativa de coibir a biopirataria, a influência internacional sobre os índios e a venda de terras na floresta amazônica. A primeira ação de controle consta do projeto da nova Lei do Estrangeiro, que está na Casa Civil e será enviado ao Congresso até junho. Se a proposta for aprovada, estrangeiros, ONGs e instituições similares internacionais, mesmo com vínculos religiosos, precisarão de autorização expressa do Ministério da Defesa, além da licença do Ministério da Justiça, para atuar na Amazônia Legal. Sem esse procedimento, o "visitante" do exterior terá seu visto ou residência cancelados e será retirado do País.

Preparado pela Secretaria Nacional de Justiça, o projeto prevê multas que vão de R$ 5 mil a R$ 100 mil para os infratores. A ofensiva não pára aí: além dessa iniciativa, o governo alinhava estatuto específico para regulamentar a atuação das ONGs em todo o País. O alvo são organizações que atuam em terras indígenas, reservas ecológicas e faixas de fronteira. Trata-se de instituições que, apesar do endereço doméstico, são patrocinadas por dólares, euros, libras e outras moedas fortes.

SOBERANIA

"Grande parte dessas ONGs não está a serviço de suas finalidades estatutárias", diz o ministro da Justiça, Tarso Genro. "Muitas delas escondem interesses relacionados à biopirataria e à tentativa de influência na cultura indígena, para apropriação velada de determinadas regiões, que podem ameaçar, sim, a soberania nacional."

O estatuto vai revisar o licenciamento de um grupo de ONGs que cuidam de questões ambientais, mas não apenas na Amazônia. Sua confecção está a cargo de um grupo de trabalho formado por integrantes do Ministério da Justiça, que há quatro meses estuda o assunto ao lado de técnicos da Advocacia-Geral da União (AGU), da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e da Controladoria-Geral da União (CGU).

"Ninguém aqui quer espionar ONGs", afirma o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior. "Mas também não queremos que organizações de fachada, disfarçadas de ONGs, espionem o território brasileiro e prejudiquem nossa soberania. Não vamos aceitar testa-de-ferro de ação internacional."

Pelos cálculos dos militares, existem no Brasil 250 mil ONGs e, desse total, 100 mil atuam na Amazônia. Outras 29 mil engordam o caixa com recursos federais, que somente em 2007 atingiram a cifra de R$ 3 bilhões.

O governo admite não ter controle de quem compra terras na região. Pior: como a floresta amazônica é uma exuberante reserva de carbono, há estrangeiros de olho nesse tesouro, que, segundo estudo publicado na revista científica Environmental Research Letters, está na casa de 80 bilhões de toneladas e corresponde a quase um terço do estoque mundial.

Na semana passada, ao escancarar o descontentamento com a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, comandante militar da Amazônia, fez um alerta: contou que ONGs internacionais estimulam índios a lutar pela divisão do território. Heleno definiu a política indigenista do governo de Luiz Inácio Lula da Silva como "lamentável, para não dizer caótica", mas foi logo enquadrado pelo Planalto.

Tuma Júnior disse que o governo faz um "mapeamento" da Amazônia para impedir, por exemplo, a venda de terras da União, a bioprospecção e a apropriação de conhecimentos indígenas por indústrias estrangeiras de cosméticos. Nessa tarefa, o Ministério da Justiça tem entrado em contato com governadores, prefeitos e cartórios.

"Não temos interesse em criminalizar as ONGs", insistiu o secretário nacional de Justiça. "O que queremos é reconhecer as organizações sérias, separar o joio do trigo e dar mais condições de trabalho para aquelas instituições que agem dentro da lei."

Executivo quer limitar compra de terras por estrangeiros
Vera Rosa
O governo quer limitar a compra de terras por parte de estrangeiros. A meta consta de cartilha intitulada Aquisição de Imóveis Rurais por Estrangeiros, preparada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O texto diz que um grupo de trabalho envolvendo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Incra, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), a Advocacia-Geral da União (AGU), a Casa Civil e o Ministério da Agricultura busca "alternativas legais" para, "como mecanismo estratégico de defesa da soberania nacional", restringir o acesso do capital internacional à terra.

Com 17 páginas, o documento afirma que há "ocupação desenfreada" de terras por estrangeiros, "em especial no âmbito da Amazônia Legal". Cita, ainda, o parecer n.o 181 da AGU, de 1998, que atualmente orienta a compra de imóveis rurais por estrangeiros.

A cartilha critica a norma pela qual pessoa jurídica não necessita de autorização para adquirir imóveis rurais, mesmo que a sociedade inclua capital externo. "Essa situação permite a ocupação desenfreada de terras (...) por estrangeiros, mascarada legalmente, com a justificativa de serem adquiridas por empresas brasileiras", constata o texto, ressalvando que esse parecer já está sendo revisto pela AGU.

Segundo o presidente do Incra, Rolf Hackbart, a área cadastrada em nome de estrangeiros na Amazônia Legal - incluindo pessoas físicas e jurídicas - é de 3.163.356,0307 hectares.

Hackbart solicitou aos cartórios, corregedorias de Justiça e superintendências regionais do Incra uma série de informações sobre aquisição de imóveis por compradores internacionais. Pediu, ainda, a "checagem/filtragem" dos dados no Sistema Nacional de Cadastro Rural. Na lista das iniciativas tomadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário também consta o desenvolvimento do Sistema Nacional de Aquisição de Terras por Estrangeiros (Sisnate).

OESP, 24/04/2008, Nacional, p. A4

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