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ONG faz 4 anos e amplia projetos na Amazônia

OESP, Caderno 2, p. D3
23 de Jan de 2006

ONG faz 4 anos e amplia projetos na Amazônia
Premiada pela ONU, Expedição Vaga Lume, que instala bibliotecas na região, planeja curtas e livros para preservar a história das comunidades locais

Paula Chagas

A Expedição Vaga Lume, ONG que instala bibliotecas em comunidades rurais na Amazônia, completa quatro anos de atividades. A comemoração é dupla, pois vem com o reconhecimento da ONU através do prêmio ADM Brasil: Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que receberam em dezembro. Para 2006 as coordenadoras e sócias Sylvia Guimarães, Laís Fleury e Maria Tereza Meinberg planejam a realização de dois curtas-metragens, livros artesanais com histórias das comunidades, simpósio sobre a Amazônia e a troca de experiência entre os professores de lá e os das escolas paulistanas que integram a Rede dos Vaga Lumes.
A criação das bibliotecas é foco central da ONG, que já beneficiou cem comunidades. "O trabalho cresceu e se modificou muito desde o início da expedição", conta a historiadora Sylvia. "Pretendemos expandir nossa rede de apoiadores e patrocinadores, através da Lei Rouanet", planeja a administradora Laís. Atualmente contam com o patrocínio da Bovespa Social, Hedging Griffo, Grupo Guascor e das Fundações Avina e Ashoka, além da FAB. "Sem eles não teríamos conseguido nada", ressalta Laís. O BNDES renovou o apoio para infra-estrutura da ONG nos próximos dois anos.
Desde a primeira viagem aos confins da Amazônia as coordenadoras acumularam muito conhecimento sobre a região e seus moradores e planejam aprofundar a troca com os habitantes de lá. "Começamos a expedição com a idéia de realizar a primeira viagem, de 11 meses, levar as bibliotecas, fazer a capacitação com os professores e pronto. Foi o próprio trabalho que fez com que sentíssemos a necessidade de continuar", explica Laís. "Por causa disso deixamos de ser somente uma expedição e nos transformamos em uma ONG, com oito funcionárias e sede em São Paulo", afirma a publicitária Maria Tereza. "As bibliotecas são o nosso foco principal, mas vimos que a real necessidade é de contato, de conversa entre a população de lá, com suas histórias, e a daqui, que só a conhece por fotos e imagens da TV", completa Sylvia.
Por conta disso, além de levarem para lá livros selecionados por elas com auxílio de especialistas como a autora Ruth Rocha, passaram a compilar as narrativas das comunidades. "Começamos com as rodas de história, mas eram tantas, a vontade de guardá-las também, que eles quiseram fazer seus próprios livros", lembra Laís. Assim nasceu a nova atividade: a feitura de livros artesanais pelos moradores da região.
"Alguém conta a história, um ilustra, outro registra e os livros artesanais vão sendo feitos", conta Laís. Há a idéia de transformar os livros artesanais em uma publicação efetiva, mas por enquanto elas se concentram na distribuição dos trabalhos nas diferentes comunidades. "Para quem mora nos grandes centros, parece que as comunidades da Amazônia são uma coisa só, mas há muita diversidade, de povos, de histórias, de ascendência", afirma Sylvia. "E as diferentes comunidades da região têm pouco contato, pois a locomoção é difícil e há raras iniciativas nesse sentido."
Para este ano, a idéia é aprofundar a troca de experiências entre os professores da Amazônia e os de São Paulo. Para isso, fundaram a Rede dos Vaga Lumes, formada dez escolas particulares de São Paulo, como o Vera Cruz.
No ano passado houve a primeira troca de experiências, com professores de lá vindo para cá. "Eles ficaram uma semana, foram a algumas escolas, cujos professores já haviam ido à Amazônia. Foi muito rico, havia curiosidade de ambas as partes", constata Sylvia. "As crianças tinham muitas perguntas para eles, que se sentiram valorizados como educadores", conta Laís. Esse ponto foi também debatido no Simpósio sobre a Amazônia que realizaram em São Paulo e que terá continuidade este ano.
"Apesar de estarmos em contato com a realidade da Amazônia, não temos a pretensão de ser especialistas no assunto", assegura Sylvia. "A realidade de lá é complexa e há muitos pontos a serem levados em consideração: meio ambiente, falta de estrutura, diversidade cultural, etc..." Por conta disso, chamaram especialistas em diversas áreas para debater essas questões. "Este ano queremos dar continuidade, pois a iniciativa deu muito certo."
As coordenadoras fazem questão da troca em todas as atividades que realizam. "É muito importante para nós que as comunidades vejam o resultado do que fazemos em conjunto", garante Sylvia. Com esse pensamento realizaram no início do trabalho o curta-metragem Kéro (que significa vaga-lume na língua indígena tucano), que retratava a expedição em seus primórdios. Agora preparam dois novos curtas. "Um será sobre a Rede dos Vaga Lumes e o outro sobre a expedição de um modo geral", adianta Maria Tereza.
As imagens já foram colhidas e agora elas partem para a edição, com o diretor Caio Vecchio, da Encruzilhada Filmes. "Os filmes são importantes, pois o cinema é uma forma eficiente e rápida de se aproximar das pessoas", conta Laís. "Chegamos às comunidades e a primeira atividade que realizamos é passar o nosso filme", recorda Maria Tereza. "O mais estimulante é poder levar de volta para eles as imagens que fazemos em suas comunidades."
As três desbravadoras prometem continuar a empreitada de ser um meio de comunicação entre a maior metrópole do País e as comunidades rurais da Amazônia. "Fala-se muito de preservação da Amazônia, lembra-se dos bichos, da flora, mas esquece-se que há pessoas lá e são 20 milhões. Precisamos conhecê-los de perto", lembra. Para mais informações sobre a Expedição Vaga Lume acesse o site www.expedicaovagalume.org.br.

OESP, 23/01/2006, Caderno 2, p. D3

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