Valor Econômico, Especial, p. F4
26 de Jul de 2013
ONG combate a pobreza com artesanato de tradição
Por Marleine Cohen | Para o Valor, de São Paulo
No município de Abaetetuba, distante 60 quilômetros de Belém do Pará, não há criança que não abra um largo sorriso na presença de um "girandeiro". Improvisada com duas varas de madeira em cruz, na sua "girândola" ele leva jacarés, tatus, cobras, bonecos, peixes, pássaros e barcos coloridos, confeccionados manualmente com o talo do miriti, uma palmeira nativa do Norte.
Comparada a uma espécie de isopor natural, a matéria-prima usada para produzir os brinquedos é encontrada em áreas alagadiças da Amazônia e representa o ganha-pão de cerca de 70 artesãos reunidos em torno da Associação dos Artesãos de Brinquedos e Artesanatos de Miriti de Abaetetuba com o objetivo de perpetuar um saber-fazer que transmitem de pai para filho.
Em Pasmadinho, uma localidade da zona rural situada a 20 quilômetros de Itinga, em Minas Gerais, há mais de três gerações cerca de 20 famílias de artesãos trabalham com cerâmica utilitária no quintal de casa. Fazem panelas, potes e vasilhas com o barro que trazem de fazendas vizinhas e ao qual acrescentam, durante a queima, uma planta regional conhecida pelo nome de "pecado pelado" ou "carne de vaca". Atirada ao fogo, ela empresta uma cor escura às peças, diferenciando-as de outros utensílios produzidos no Vale do Jequitinhonha.
Redendês de Entremontes, em Alagoas; animais fantásticos e oratórios esculpidos no barro de Juazeiro, no Ceará; violas-de-cocho do Mato Grosso; pequenas embarcações de madeira produzidas na localidade sul-catarinense de São Francisco do Sul, terceira cidade mais antiga do Brasil: mais do que a arte popular ou uma técnica artesanal, é o artesanato de tradição enquanto patrimônio cultural que constitui o foco de interesse do ArteSol/Artesanato Solidário, o programa social de combate à pobreza em regiões castigadas pela seca concebido em 1998 pela antropóloga e ex-primeira-dama Ruth Cardoso e transformado em Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) a partir de 2002.
Presidida por Maria do Carmo Abreu Sodré Mineiro, a ONG conta com conselheiros e associados de renome, como Andrea Matarazzo, Celso Lafer, Maria Luiza Luz do Prado Bresser Pereira e Silvia Poppovic, e mantém parcerias institucionais e financeiras de fôlego com o Instituto Walmart, a Microsoft, a Philips, o Sebrae, o Museu do Folclore e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), entre outros.
De acordo com Josiane Masson, coordenadora geral, o ArteSol visa não só gerar renda para as comunidades que detêm um saber-fazer tradicional, mas se propõe a um trabalho educativo, promovendo a formação de grupos sociais de convivência, onde se valorizam o trabalho coletivo, o associativismo, o repasse do saber tradicional, o manejo sustentável dos recursos naturais e uma visão empreendedora.
"Mais de 90% do nosso público são artesãs de baixa auto-estima e escolaridade, ainda sob o jugo do homem, às quais propomos uma inclusão cidadã e produtiva segundo os princípios do comércio justo, além de uma capacitação no que diz respeito ao aprimoramento do produto para o mercado, bem como técnicas de relacionamento comercial". Esta metodologia pode ser aplicada em projetos completos, com 18 a 24 meses de duração, ou pode ser segmentada para consultorias especializadas.
Para alcançar seus objetivos, a ONG, que já implantou quase uma centena de projetos em municípios de Norte a Sul do país, trata de "trabalhar toda a cadeia de produção do artesanato, ligando o produtor ao mercado". Os exemplos bem-sucedidos são numerosos: em Recife, acaba de ser aberto o Centro de Artesanato Pernambucano, que descaracteriza a clássica feirinha de artesanato e agrega valor social a produtos devidamente etiquetados e rastreados.
"Nosso sonho é poder instalar um centro de referência como este em São Paulo", conta Josiane. Enquanto isso não acontece, o ArteSol promove exposições como a "Conheça o Artesanato Brasileiro", no Shopping Iguatemi, para abrir oportunidades de negócio, e, no âmbito do projeto "Modos de Fazer", realiza eventos como o "Do Sertão à Metrópole: a Arte de Expedito Seleiro", onde artesãos que detêm técnicas tradicionais de trabalhar o couro, como é o caso do cearense Expedito Seleiro, ensaiam uma aproximação comercial com empresas do porte da Arezzo, rede de franquias de calçados femininos.
Valor Econômico, 26/07/2013, Especial, p. F4
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