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Onde a mata é soberana

CB
08 de mai de 2003

A Juréia é o refúgio da onça e de outros mamíferos menos ariscos, mas tão ameaçados quanto a pintada. A passarada também dá o ar da graça e ensaia uma orquestra assanhada, à passagem dos visitantes da reserva

Ao andar pela mata, mantenha os olhos abertos para não perder nenhum detalhe da flora e da fauna. Entre as plantas, há bromélias, musgos e árvores centenárias. Para ver os bichos, é preciso acordar cedo

O acesso a uma das áreas de restrição mais apreciadas da Estação Ecológica da Juréia se dá por Peruíbe, município que fica a 120km da capital paulista. Administrada pelo Instituto Florestal, um órgão estadual, essa parte protegida da reserva é acessível a grupos de estudantes, pesquisadores e ainda educadores.

Com a devida permissão, e apoio de guias locais, o grupo vai de jipe até a entrada do parque. Passa por estradas de terra por cerca de 20 minutos e, finalmente, chega ao Núcleo Arpoador, onde é possível realizar diversos roteiros de caminhadas.

Há desde aquelas com um nível de dificuldade médio, que podem ser feitas por pessoas com um preparo físico razoável, até trilhas capazes de desafiar os mais exigentes. Seja qual for a opção, a dica é ficar de olhos atentos para perceber a diversidade da flora, desde as pequenas briófitas, que são os musgos, até as arvores centenárias.

Os animais são um capítulo à parte. Os cantos dos pássaros exigem ouvidos atentos e disposição para se fazer caminhadas bem cedo - o melhor horário para ouvi-los.

Mas o turista terá que contar com a sorte para encontrar outros tipos de animais. Há desde macacos, de diversas espécies, até a onça pintada, um dos bichos mais ameaçados da fauna brasileira. São apenas cinco catalogadas no parque. São avessas ao ser humano e bem difíceis de serem vistas. Assim, se o objetivo for ver uma onça pintada, certamente a expectativa será frustrada. Mas, se o turista não tiver maiores pretensões, vai ficar felicíssimo ao ver capivaras, cachorros selvagens, porcos-do-mato, tartarugas marinhas e até o boto-do-mar. Tanta diversidade se justifica: em pouco tempo de caminhada, é possível imergir em diversos ecossistemas. Começa pela praia, passa pelo costão rochoso, segue no manguezal, depois restinga, chega à mata de encosta e, por fim, à Mata Atlântica.

Treinamento
São áreas com grande potencial para o turismo ecológico. Mas, nesse caso, são reservadas a um outro trabalho. O biólogo Otto Hartung, coordenador do programa de Educação Ambiental da Estação Ecológica da Juréia-Itatins explica que essas áreas existem para treinamento. ''A pessoa sai daqui com uma visão completamente diferente da natureza. Através de cursos, fica sabendo da importância de se preservar um ambiente como este''.

Os trabalhos desenvolvidos na estação são realizados para se tentar barrar sérios problemas de extração de palmito e a caça de animais silvestres. O encarregado de vigilância do Núcleo Arpoador da Juréia, Arenildo Pereira, diz que a situação é séria. E lamenta: ''As pessoas entram nos dias de chuva e pegam muito palmito para vender. Cada uma leva até 40 árvores''.

Para tentar reverter este quadro, além de medidas de segurança, há projetos de reflorestamento em andamento. ''Sempre tivemos projetos de plantio do palmito. Na última vez, plantamos cerca de 600 mudas no Núcleo Arpoador'', conta o biólogo.

Ninho de cobras
A exuberância natural de Peruíbe vai muito além da beleza da Estação Ecológica da Juréia-Itatins. No litoral, a poucos metros da costa, fica o arquipélago que integra a Estação Ecológica Tupiniquins.

Formado pelas ilhas da Queimada Grande, Pequena, de Peruíbe e Guaraú, esse arquipélago é o ponto de chegada para inúmeras aves migratórias - como atobás e trinca-ferros. Mas não é isso o que mais chama a atenção no parque. E sim uma peculiaridade que envolve as cobras que habitam a Ilha da Queimada Grande.

Não se sabe ao certo o porquê, mas, em Queimada Grande há um número excessivo de cobras da espécie jararaca. São, segundo o biólogo Otto Hartung, quatro cobras por metro quadrado!

Como se não bastasse a quantidade de répteis, eles se tornaram endêmicos na ilha. Além disso, foram cruzando entre si, o que provocou uma alteração genética. Em relação à espécie terrestre, a jararaca que habita a ilha, batizada de jararaca-ilhoa, tem o veneno 13 vezes mais forte. Com isso, Otto Hartung explica que se um ser humano for picado, poderá morrer em 30 minutos. E as adaptações das cobras não param por aí. A coloração da ilhoa é mais amarelada e esverdeada, ao contrário da jararaca terrestre, que é próxima do marrom.

O aumento desenfreado de cobras ao redor da ilha levou os répteis a outras adaptações. As cobras dessa espécie que vivem na costa não sobem em árvores. Mas na ilha, por causa da diminuição de alimentos em solo, elas tiveram que desenvolver a capacidade de buscar pássaros migratórios nos galhos mais altos. Por causa do veneno potencializado, ao serem picados, os pássaros não resistem mais que poucos minutos. Caem no solo, tornando-se presas fáceis.

As particularidades da jararaca-ilhoa são tantas que o Instituto Butantã, em São Paulo, desenvolve há anos um projeto de pesquisa na região. Totalmente fechada à visitação, a Ilha de Queimada Grande é um destino extremamente perigoso aos desavisados. Há relatos de que, em 1950, em uma das primeiras expedições realizadas no lugar, seis pessoas morreram picadas no rosto.

Natureza e história
Peruíbe é sempre lembrada quando se fala na Estação Ecológica de Juréia-Itatins. Isso porque é na cidade que fica a entrada principal do parque. Com 55 mil habitantes e 30% da área da Juréia - o restante fica na cidade de Iguape -, Peruíbe, por estar situada em uma estância balneária e pela sua natureza incomparável, não têm vocação industrial.

''Nossa redenção é o turismo. Não temos outra saída. A instalação de indústrias poluentes descaracterizaria toda a região'', prevê Jairo Costa, diretor administrativo da regional do Guaraú, onde fica a entrada da Juréia. Por essas particularidades, não falta interesse do poder público municipal em tornar a região forte destino para os amantes do ecoturismo. Potencial para isso o lugar tem de sobra.

Porém é visível a necessidade de uma maior infra-estrutura para receber os turistas. As estradas, de chão batido, estão em situação razoável de conservação, mas falta sinalização para os destinos e a melhoria da rede de restaurantes e pousadas na cidade. Se o turista relevar tudo isso e procurar um lugar mais inóspito, ''quase virgem'', não há destino mais propício.

A cidade, que teve sua origem atrelada à atividade pesqueira, oferece ao visitante atrações variadas, como uma orla de cerca de 21km de praias ótimas para o banho. Nela está sendo construído um jardim de 8km de extensão. O governo local também está em busca do desenvolvimento do turismo rural.

O turismo ecológico também busca seu lugar. Mas, por causa das restrições ambientais, o acesso a boa parte das áreas é limitado. A exceção são locais como a comunidade de pescadores da Barra do Una, a cachoeira do Perequê, a do Paraíso e a Praia do Caramboré. Todos locais com melhor infra-estrutura. Porém, antes de arrumar as malas rumo à Peruíbe, é bom observar algumas regras. Para carros de passeio não há limitações. Já em relação aos ônibus é imprescindível autorização, sob pena de o veículo ser apreendido. Quando estiver na cidade, o turista que quiser visitar a Estação Ecológica da Juréia-Itatins, deve pegar a estrada para Guaraú e ir em direção aos espaços abertos ao público.
(-Correio Braziliense-Brasília-DF-08/05/03)

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