VOLTAR

Óleo na Billings era de desmanche

OESP, Cidades, p. C6
11 de dez de 2004

Óleo na Billings era de desmanche
Equipes trabalharam o dia todo para evitar que o produto afetasse abastecimento; para ambientalistas, área é um campo minado

Amanda Romanelli
Carla Miranda
Colaborou: Rodrigo Cerqueira Cesa

Uma mancha de óleo na Represa Billings, na altura do km 29 da Via Anchieta, pôs em alerta ontem autoridades e ambientalistas. Equipes trabalharam o dia inteiro na região atingida, em São Bernardo do Campo, para evitar que o óleo contaminasse a água usada para o abastecimento da população. O problema ocorreu perto do Riacho Grande, área de captação da Sabesp.
Apesar de o impacto ambiental ter sido pequeno, ficaram claros os riscos que o manancial corre, segundo especialistas. Ainda mais quando a polícia descobriu que por trás do óleo estava um desmanche de caminhões, que funcionava num galpão.
A mancha foi notada na noite de anteontem pelo morador Luiz Custódio Vieira, de 74 anos, dono de uma estância para pescadores às margens da represa. "Por volta das 18 horas, um amigo meu voltou da represa e disse que estava impossível pescar por causa do óleo. Fui lá ver e avisei a polícia."
Inicialmente, técnicos pensaram que o óleo havia vazado de um duto da Petrobrás, que passa a 80 metros do local. A empresa chegou a interromper o bombeamento dos dutos que levam o combustível da Baixada Santista para o ABC. A hipótese, no entanto, foi descartada rapidamente.
O trabalho começou ainda na noite de anteontem. Técnicos da Cetesb e Petrobrás instalaram barreiras de contenção às 23h50. Mesmo assim, o óleo se espalhou por uma área de 400 metros por 3 metros de largura.
CRIME
Técnicos da Cetesb seguiram vestígios do óleo e descobriram um galpão. Com mandado judicial nas mãos, o titular da Delegacia de Investigações de Infrações e Crimes contra o Meio Ambiente, Antonio Caldas Mesquita, conseguiu entrar no imóvel às 17h45.
Lá, os policiais acharam pelo menos três cabines de caminhões, uma com marcas de tiro. Havia também motores, pneus, tanques de combustível e uma empilhadeira. Uma canaleta era usada para levar o óleo para fora do galpão. "Pelo aspecto visual e pelo odor, é possível dizer que este óleo e o da represa são os mesmos", disse o técnico da Cetesb Mauro de Souza Teixeira.
O galpão, de propriedade de Salvatore Drago, estava alugado havia um mês para um homem que ele conhecia apenas por Sandro. Segundo o delegado, Drago pode ser indiciado por crime ambiental. "A responsabilidade da área é do proprietário." Por enquanto, de acordo com Mesquita, não há indícios de que Drago esteja ligado ao desmanche.
Ambientalistas dizem que não há controle sobre as áreas de mananciais. "São verdadeiros campos minados, ninguém sabe de onde os problemas podem surgir", diz o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Alberto Bocuhy, que há dez anos coordena a Campanha Viva a Billings.
O óleo também atingiu a vegetação, prejudicando ainda mais a qualidade da água, que já está em condições ruins, de acordo com o presidente da Fundação Agência da Bacia do Alto Tietê, Julio de Cerqueira Cesar Neto. "Deixar a água da Billings potável custa até 40 vezes mais que o valor gasto para tratar a água da Cantareira", explica. "Os acidentes são pontuais e pouco freqüentes, mas a poluição da Billings é diária, fruto da ocupação desordenada. Mais de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas de mananciais, sem tratamento de esgoto."

Moradores deram alerta sobre vazamento
Vizinhança teme que poluição afaste as pessoas que usam a represa para lazer
Luiz Custódio Vieira, de 74 anos, dono de uma estância para pescadores às margens da Billings, foi o primeiro a dar o alerta sobre a mancha de óleo. "Por volta das 18 horas, um amigo meu voltou da represa e disse que estava impossível pescar por causa do óleo. Fui lá ver e avisei a polícia." O pescador também pediu ajuda aos donos de um terreno que fica entre a represa e a Estrada Velha de Santos, na altura do km 29 da Via Anchieta.
A dona de casa Elianeide Almeida Rocha, acompanhada pelo marido, Luiz Custódio Rocha, foi para a beira da água e constatou que a mancha se espalhava. Logo em seguida, ela avisou um homem da Guarda Civil Metropolitana. "Quando ele (o pescador) nos avisou, o óleo já estava descendo para a represa pela canaleta de águas pluviais", comentou Elianeide. Ela e o marido utilizam parte do terreno como estacionamento para pessoas que andam de jet ski no Riacho Grande.
Agora, eles temem que o vazamento prejudique a vinda de visitantes. Segundo a dona de casa, seu terreno é procurado justamente por ficar em um local onde a água é mais limpa que no restante da represa - é ainda mais reservado do que a Prainha do Riacho Grande, distante cerca de dois quilômetros. "Fica muito ruim para a gente. As pessoas vêem que a água está contaminada e não aparecem mais. Esperamos que limpem a represa logo", disse. "A água já não está mesmo muito boa. Falta oxigênio para os peixes e vários aparecem mortos."
Outra surpresa para a vizinhança foi descobrir um desmanche de caminhões nas imediações. "Eles deviam ser muitos cuidadosos, porque nunca imaginei que isso aqui existia", disse Rodolfo Carturan, vizinho há 50 anos do terreno onde se descobriu o problema.
Amanda Romanelli, Cylene Souza e Fábio Fleury

OESP, 11/12/2004, Cidades, p. C6

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.