Fazenda.gov.br - www.fazenda.gov.br
05 de Nov de 2012
A Odebrecht amplia sua presença no exterior
Por Samantha Maia
De Chaglla (Peru)
POR UMA ESTRADA Siniosa, a van demora duas horas e meia entre Huánuco, região central do Peru, e a vizinha Tingo Maria. Aos poucos, o cenário das montanhas transforma-se, e o solo pelado da serra dá espaço à vegetação densa de floresta tropical. Estamos na divisa da Cordilheira dos Andes com a Amazônia peruana, a 420 quilômetros da capital, Lima. Da zona úmida, o grupo brasileiro Odebrecht produzirá, daqui a quatro anos, se tudo correr como o planejado, energia elétrica a partir da força das águas do Rio Huallaga. Abastecerá o sistema elétrico do país andino com um potencial de 406 megawatts (IVIW).
O veículo deixa para trás o asfalto, enfrenta a pista de terra a caminho do canteiro de obras da hidrelétrica de Chaglla, em construção desde o primeiro semestre de 2011. O primeiro ano das obras foi usado apenas para construir a infraestrutura de acesso ao local onde ficará a usina.
Na região desbravada pela construtora, vez e outra se veem casas rústicas à beira da estrada. A pouco menos de meia hora do destino, caída a noite, é possível ver ao longe no vale as luzes do acampamento da empreiteira. Do meio da floresta surge uma pequena cidade entocada onde vivem atualmente 1.8 mil funcionários e circulam mais de 3 mil trabalhadores.
Dois times de vôlei se enfrentam às 9 da noite em uma das duas quadras do acampamento, diante da torcida dos colegas. O campeonato sucedeu ao torneio de futebol, em partidas que se repetiriam mais alguns dias até a final. Edmaldo da Silva, diretor de implantação da Odebrecht Energia, conta que as atividades são importantes para superar o isolamento. A área montada para apoio à obra tem ainda duas academias de ginástica, além da estrutura básica das oficinas, alojamentos e refeitórios.
Todos os 380 "obreiros", cargos dos ajudantes de obra. São moradores da região, e não ficam alojados. A maioria dos funcionários chegou, porém, de vários cantos do Peru. Além de 36 expatriados. Dos quais 24 são brasileiros.
O motorista Cleni Climer Cudeno. Natural de Chaglla, cidade a oito horas dali. Visita a família uma vez ao mês e no restante fica no alojamento, mesmo nas folgas. Diz que não vale a pena passear nos fins de semana em Tingo Maria, a duas horas e meia dali. Onde não conhece ninguém. E a rotina de muitos deles. Quando os dois túneis rodoviários que serão o acesso definitivo de Huánuco ao acampamento ficarem prontos, o transporte será facilitado.
A mil metros do nível do mar, o vale possui uma declividade propícia ao desafio. A barragem em Chaggla alcançará 208 metros de altura empreendimento orçado em 1,2 bilhão de dólares. No trecho de apenas 14 quilômetros de rio na região onde a usina é construída, a altura varia 365 metros. O desnível em pouco espaço forma o rio de corredeiras e permite a construção de uma barragem de 208 metros de altura, com a inundação de 4,7 quilômetros quadrados, considerada pequena pelos especialistas. "Em qualquer outro lugar, uma barragem desse tamanho iria alagar o mundo", diz Erlon Arfelli. Diretor da companhia no Peru. Na hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, também da Odebrecht, a barragem de 60 metros inundou 271 quilômetros quadrados.
A construção da represa começou em agosto, após o desvio do rio. Hoje, a muralha peruana está com 80 metros de altura, e crescendo. Sobre a plataforma erguida, o olhar para cima se perde em busca do ponto a ser atingido. Trabalhadores permanecem pendurados no paredão desmatado, acompanhados de especialistas em alpinismo, chamados de Risco Zero, responsáveis pela segurança. Benedito de Oliveira, barrageiro com 31 anos de experiência no Brasil, encara o desafio. "Essa obra ainda me faz queimar muito neurônio."
A entrada dos 406 M W de energia de Chaglla se somará ao parque energético peruano de 6,7 mil MW, dos quais 54% são de fontes hídricas. A geração térmica também cresce e a composição da matriz de energia não deve ser alterada.
De olho no potencial hídrico dos rios no Peru, estimado em 60 mil MW, a Odebrecht estuda novos projetos locais, com potencial de gerar até 1,4 mil MW. Não entra mais nessa conta a hidrelétrica de Tambo, parte do projeto de integração energética com o Brasil, segundo o qual seriam erguidas outras cinco usinas na Amazônia peruana. "Achamos que a usina (de 1,4 mil MW) era grande demais para as necessidades do Peru", afirma Arfelli. E, de qualquer forma, seria preciso superar a oposição dos movimentos indígenas e de parte do Congresso, onde tramitam as leis de sustentação do acordo energético firmado em 2010 pelos então presidentes Alan Garcia e Lula. A oposição argumenta que os projetos interessariam principalmente ao Brasil, para onde seguiria, segundo os termos assinados, parte da energia.
No caso de Chaglla, região com população pequena, a baixa necessidade de remoção permitiu uma relação bem menos tensa com a comunidade local. São cerca de 3 mil camponeses, produtores em pequenas comunidades de feijão, batata, coca e café. Mesmo assim, para a compra de 342 hectares de cem proprietários, foi necessário um ano de negociação. E ações socioambientais: foram investidos 14 milhões de dólares na qualificação de 1,4 mil peruanos, abertura de ruas, praças, aterros sanitários, compostagem e reciclagem de lixo e o resgate de flora e fauna.
Está prevista uma compensação ambiental 110 Parque Nacional de Tingo Maria, em parceria com a Faculdade de Recursos Naturais Renováveis (FRNR), mesmo que algum impacto ambiental seja inevitável. "O que se pode é buscar um equilíbrio relativo entre a perda e o benefício da geração de energia. E uma das vantagens poderá ser acadêmica", diz César Lopez, professor da FRNR.
Com negócios em vários cantos do planeta, a Odebrecht enfrenta em Chaglla a sua primeira experiência internacional como produtora de energia. Por coincidência, foi no Peru que a companhia iniciou sua internacionalização, há 33 anos, como construtora contratada para as obras da hidrelétrica Charcani V, em Arequipa. De lá para cá, a empresa ganhou musculatura na América do Sul e alcançou a África, a Europa, os Estados Unidos e os Emirados Árabes.
A atuação globetrotter foi construída em várias frentes: obras em rodovias, implantação de projetos de mineração, petróleo e gás, irrigação, portos, túneis, tratamento de água e metrô. Hoje em dia, os negócios fora do Brasil têm importância considerável. Representaram 40% do faturamento de 37 bilhões de dólares da holding em 2011. A maior empreiteira da América Latina avalia a entrada em mais países da região, a começar pela América Central e Caribe.
Apenas no Peru, 58 projetos foram concluídos, e nove estão em execução. A mudança nas regras para as concessionárias foi fundamental. O regime de concessões aprovado em 2006 impulsionou os investimentos do grupo no país, e o ambiente macroeconômico completou o quadro favorável. A economia do Peru cresce em um ritmo vigoroso há sete anos. Prevê-se uma alta de 6% do PIB em 2012. O cenário é atrativo pelas condições oferecidas, o que permitiu à Odebrecht aportar 40% de capital próprio no investimento em Chaglla.
A obra passou por um trâmite licitatório mais simples do que seu equivalente brasileiro. E sua operação foi concedida por prazo indefinido, o que tem efeito direto sobre o cálculo da taxa de retorno do investimento. Para ser escolhida, a Odebrecht precisou primeiro pedir uma concessão temporária por dois anos para realizar estudos na área de interesse, com o pagamento de fiança como garantia, passo dado em 2009. Com o projeto da usina em mãos, em 2010, pediu a concessão definitiva, entregue após consulta ao mercado sobre a existência de mais investidores interessados. Não apareceu ninguém disposto a enfrentar a tarefa. Havia outra empresa, a local Chancadora Centauro, mas ela desistiu na fase de estudos, alegando não ter condições de cumprir o prazo.
O governo viabilizou a venda de 284 MW de energia para a geradora estatal Eletroperu por 55 dólares o MW/h, em um contrato de 15 anos. O leilão centralizado permitiu repassar à estatal o risco da venda da energia às distribuidoras, que solicitam aos poucos novos contratos.
Com a venda da energia, a Odebrecht obteve a garantia necessária para financiar o empreendimento. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) emprestou 150 milhões de dólares para o projeto, contrato que serviu de guarda-chuva para o fechamento de outros créditos com bancos privados. A empresa está prestes a obter uma linha no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a compra de equipamentos e serviços importados do Brasil. E trabalha com um empréstimo-ponte de 300 milhões de dólares, mas ainda aguarda o BNDES bater o martelo.
"A concorrência é menos apertada em países em desenvolvimento, onde as construtoras brasileiras estão crescendo, como o Peru, porque eles não têm empresas fortes no setor. Já o Brasil desenvolveu um know-how na construção de infraestrutura, e as companhias ainda contam com financiamento do BNDES", diz a pesquisadora e cientista política brasileira Ana Saggiorno Garcia. Crédito não tem faltado. Os desembolsos do BNDES no apoio a obras brasileiras de infraestrutura no setor foram de 1,4 bilhão de dólares em 2011, número 12 vezes maior que em 2003.
Nas operações internacionais, às vezes o peso da política local se faz sentir. O BNDES sofreu em 2009 uma ameaça de calote do governo do Equador por problemas na obra executada pela Odebrecht na hidrelétrica de San Francisco. A usina teve paralisações de 131 dias em 2008, além de falhas nas turbinas em 2009. O presidente equatoriano, Rafael Correa, ameaçou expulsar a Odebrecht e não pagar a dívida de 242 milhões de dólares com o BNDES. Depois da mediação do governo brasileiro, foi assinado um acordo há dois anos. O pagamento do empréstimo acabou honrado e a Odebrecht reconheceu a responsabilidade nos problemas técnicos com uma indenização de 20 milhões de dólares ao Equador.
"A hidrelétrica de San Francisco virou um conflito diplomático, mas, mesmo verificadas as falhas, foi permitido à Odebrecht disputar outros projetos no País, justamente por eles não terem as próprias empreiteiras", diz a pesquisadora. O diretor da Odebrecht América Latina, Luiz Mameri, minimiza o problema. "Existiram diferentes questões de um problema da operação do projeto. Chegamos a um acordo com o governo e hoje, de maneira geral, estamos atuando em plena carga."
A relação da empresa com os governos dos países onde atua costuma ser mais tranquila. O compromisso de longo prazo ajudaria a construir a relação, diz Mameri. "Buscamos a integração nos países em que a gente opera, com a contratação do máximo de mão de obra local, a qualificação dos trabalhadores, e a contratação de empresas locais com recursos que não são do BNDES."
0 xadrez geopolítico pesa bastante nas estratégias de expansão da empresa, segundo Mameri, apesar de não ser o único fator de decisão. Os projetos, muitas vezes, são desenvolvidos em linha com oportunidades abertas pela diplomacia brasileira ou por investimentos de estatais, como no caso da entrada em Angola em parceria com a Petrobras, ainda na década de 1970.
Hoje a Odebrecht está consolidada em Angola. Atua na construção, mas também no serviço de coleta de lixo, em um total de 26 projetos em execução.
No Peru, as relações da empresa com o ex-presidente Alan Garcia eram criticadas pela oposição local, que reclamavam da dimensão da Odebrecht, impulsionada pelos acordos de integração. "Agradar 100% ou nunca ter nenhum problema nem Jesus Cristo conseguiu", diz Arfelli. Mas a eleição de Ollanta Humala, da esquerda nacionalista, não afetou os negócios da construtora. -
Fazenda.gov, 05/11/2012
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.