OESP, Metrópole, p. C4
25 de Ago de 2009
Obra alivia tráfego e aumenta poluição
Relatório mostra consequências da extensão do Túnel Ayrton Senna
Vitor Sorano
A extensão do Túnel Ayrton Senna, perto do Parque do Ibirapuera, na zona sul da capital paulista, deve piorar a qualidade do ar na região e melhorar o trânsito nos distritos de Vila Mariana e Moema. Essas duas consequências constam do Relatório de Impacto Ambiental (Rima) da obra, que está disponível para consulta pública. A gestão Gilberto Kassab (DEM), responsável pelo projeto, não quis comentar o documento. O custo aproximado da obra é de R$ 110 milhões, com previsão de 18 meses para ser concluída.
O projeto prevê uma saída no sentido bairro-centro do túnel, inaugurado em 1995. Para absorver o trânsito, será construída uma faixa adicional por 1 quilômetro da via. Hoje, a passagem serve de ligação direta entre as Avenidas 23 de Maio e Juscelino Kubitschek, no sentido centro-bairro. Para fazer o caminho inverso, o motorista que entra no túnel tem de passar por quatro vias adjacentes (Avenida Sena Madureira, Ruas dos Otonis e Estado de Israel e Avenida Professor Ascendino Reis) para chegar à 23 de Maio e seguir para o centro. Ontem, às 17h30, a reportagem percorreu o trecho - desde a entrada da passagem subterrânea - em 5 minutos.
Os impactos ambientais variam de acordo com a proximidade da obra. O trecho da 23 de Maio desde o que será a saída do túnel até a altura da Rua Estela é considerado Área Diretamente Afetada (ADA). O entorno imediato, que inclui um trecho do Parque do Ibirapuera, é chamado de Área de Influência Direta (AID). O restante da Vila Mariana e de Moema, com cerca de 185,5 mil moradores, é a Área de Influência Indeterminada (AII). O relatório não mensura os impactos ambientais da obra, mas aponta a relevância de cada um deles. Na melhora do trânsito, é descrita como "alta" para o entorno imediato (AID) e para os bairros, mas não para o trecho da 23 de Maio que será alterado.
A alteração da qualidade do ar é considerada de média relevância, pois "o incômodo pela poluição pode perturbar número regular de moradores e usuários do sistema". O documento, porém, relata haver um impacto positivo nesse quesito para as regiões que vão ter "diminuição de tráfego".
ESPECIALISTAS
Os especialistas minimizam o efeito da intervenção na poluição, mas questionam a prioridade do governo. "É mais uma obra voltada para o transporte individual", diz Heitor Tomazzini, do Movimento Defenda São Paulo. "Há um exagero nas obras voltadas para o carro, em prejuízo do transporte público."
"Se você tem uma redução de quilômetros percorridos, tem redução na poluição", diz o doutor em Arquitetura e Urbanismo Candido Malta Filho. A crítica é ao objetivo da obra. "Ela é voltada ao transporte individual", afirma.
Nabil Bonduki, também doutor na área e ex-secretário da gestão Marta Suplicy (PT), vê possibilidade de impacto negativo no ar. "Mas a principal questão é a prioridade." Para ele, há tendência de haver um estrangulamento no trânsito da Avenida 23 de Maio, mesmo com a criação da faixa adicional de 1 quilômetro.
Impactos incluem retirada de 203 árvores
Além da melhora nas condições de tráfego e piora localizada da qualidade do ar, o relatório prevê 14 impactos permanentes nas proximidades e nos Distritos de Vila Mariana e Moema, beneficiados pela obra. Será necessário, por exemplo, o corte ou manejo de 203 árvores da região, incluindo dois jatobás de grande porte localizados na Avenida 23 de Maio, perto da Rua Estela. A relevância é considerada alta, segundo o documento, tendo em vista a degradação ambiental do centro da capital. O relatório prevê ainda a impermeabilização de 15 mil metros quadrados de área - no local onde haverá as construções.
O texto oficial também aponta como certa a alteração nos níveis de barulho no entorno do empreendimento, na Área de Influência Direta, tanto durante a instalação como na operação. A relevância é considerada média. "O incômodo pelo ruído pode perturbar o descanso e outras atividades", diz o documento, que sugere monitoramento de vias da Vila Mariana após o fim da obra.
Já durante a execução dos serviços estão previstos transtornos temporários como a geração de resíduos sólidos - particularmente da demolição de edificações, uma vez que quase 6 mil m² terão de ser desapropriados. Também está previsto o benefício da criação de empregos diretos e indiretos durante a execução da obra e mesmo depois.
O presidente da Associação de Moradores e Amigos de Vila Mariana, Oswaldo Luiz Baccan, é favorável à obra, mas faz ressalvas. "Hoje em dia (as ruas do distrito) têm uma sobrecarga muito grande de trânsito", que será aliviada com a construção do túnel. "Mas há as coisas negativas. Teremos desapropriações."
OESP, 25/08/2009, Metrópole, p. C4
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