Veja, p.84-86
10 de Dez de 2003
Mato GrossoO trator no Governo
Símbolo do triunfo da soja e da ousadia dosmigrantes, Blairo Maggi administra o Estadocomo se controlasse suas empresas
José Edward
O governador de Mato Grosso, Blairo Borges Maggi, de 47 anos, pagou para se eleger e continua pagando para exercer o mandato. Dos 10,4 milhões de reais declaradamente despejados em sua campanha para o governo, 70% saíram do bolso dele ou da família. Outro milhão de reais ele gastou para financiar deputados. Para ajudá-lo no governo, Blairo chamou alguns funcionários que o acompanham há anos em empreendimentos privados, além de sua esposa, Terezinha, secretária do Trabalho, Emprego e Cidadania, e de produtores rurais. Pelo menos dois auxiliares, segundo o governador já contou, têm o salário complementado pelas empresas da família. Um é o secretário de Transportes, Luiz Antônio Pagot, que recebe cerca de 8.000 reais mensais dos cofres públicos e continua remunerado pela companhia de navegação Hermasa, da qual era diretor. Blairo, cuja impulsividade por vezes assusta até os assessores, diz que o rendimento extra em torno de 15.000 reais por mês se refere à participação nos lucros da empresa. "Não há nada ilegal nisso", afirma. "Eu mesmo acumulo os vencimentos do cargo com dividendos dos meus negócios."
O jurista José Leovegildo Morais diz que a prática pode configurar improbidade administrativa, porque gera conflito de interesses. A pequena oposição que resiste ao estilo trator de Blairo até já denuncia um caso de mistura de interesses públicos e privados, gritando contra a lei que reduziu à metade o ICMS cobrado de alguns derivados de soja decreto cujo texto foi preparado pelo secretário da Fazenda, Waldir Júlio Teis, diretor licenciado do grupo de empresas do governador e outro caso de dupla remuneração. Como se sabe, Blairo Maggi é o maior produtor individual de soja do mundo, e o Grupo Amaggi fechará o ano com um total de 2,2 milhões de toneladas de soja comercializadas, cerca de 5% da produção nacional. "A mão que dá é a mesma que tira", reclama o senador Antero Paes de Barros, do PSDB, que foi surrado nas urnas por Blairo, do PPS, logo no primeiro turno da disputa pelo governo. O governador gosta de responder lembrando a inoperância de antecessores. Diz que desonerou as vendas para o mercado interno e lembra que 95% do faturamento de suas empresas vem da exportação. Mas admite a hipótese de se beneficiar da medida no futuro. "Então, se o Antônio Ermírio de Moraes fosse eleito governador de São Paulo, não poderia estimular a construção civil só porque tem fábricas de cimento?", pergunta.
Fotos divulgação
Colheita de soja em Mato Grosso: avanço na borda da mata preocupa ambientalistas
Com quase um ano de mandato, Blairo é candidato a campeão de originalidade na safra de governadores. Governa do mesmo modo como dirige suas empresas e se diverte mais falando de investimentos e obras do que discutindo a agenda política. Há alguns meses, ao notar uma fila imensa de cirurgias no serviço de saúde do Estado, deu ordem para que todas as operações fossem realizadas até o fim deste ano. Para apurar a razão do problema, criou uma delegacia de polícia dentro da secretaria estadual da área. Com calculadora e planilhas de custo, confere cada centavo gasto pelo Estado e atende fornecedores e prestadores de serviço. Já usou esses instrumentos para demonstrar a um garçom o desperdício de servir água mineral em copos grandes. Quando não encontra recursos no orçamento estadual, inventa um jeito de obtê-los. Para pavimentar rodovias, criou consórcios nas regiões ricas, arrecadando 40% dos custos entre produtores rurais. Eles pagarão sua parte em sacos de soja e recuperarão o investimento com a redução de gastos no escoamento da produção e com a valorização de terras. Como estão pagando, responsabilizam-se pela fiscalização e dificultam possíveis casos de corrupção. Para construir casas populares, Blairo recorreu a um fundo patrocinado por agricultores e pecuaristas que arrecada 200 milhões de reais por ano. Cada uma das 5.000 casas já entregues saiu por 10.000 reais, metade do que as construtoras pretendiam cobrar inicialmente. "O Blairo age como um gerentão", compara o empresário José Carlos Dias, presidente da recém-criada companhia estadual de gás.
A história do governador ajuda a entender seus métodos. Exigente na cobrança de metas aos auxiliares, ele é o exemplar mais bem-sucedido dos desbravadores que fizeram do cerrado a nova fronteira agrícola do país os chamados "paus-rodados", numa alusão a toras de madeira transportadas pelas corredeiras dos rios. Natural de São Miguel do Iguaçu, no oeste do Paraná, Blairo mudou-se com a família em 1979 para a cidade mato-grossense de Rondonópolis. Seu pai começou com uma lavoura de 2.400 hectares. A família ergueu um império que soma 140.000 hectares e armazéns, além da empresa de navegação, de duas fábricas de processamento de soja e de uma trading. Enquanto construíam suas vidas, esses empreendedores não exerceram papel decisivo na política local. Só no ano passado um pau-rodado chegou ao governo estadual, por nove meses, na figura do paranaense Rogério Salles, vice que assumiu um mandato-tampão.
Blairo visita uma reserva: oposição aberta à concessão de mais terras para os índios
"É com Blairo Maggi que a turma da botina chega de verdade ao poder", diz o historiador Alfredo da Mota Menezes, da Universidade Federal do Mato Grosso. Riquíssimo, o governador controla também os próprios gastos. Ternos, compra dos mais baratos, mas dez de uma vez, para poder variar. Não sai para almoçar com grandes comitivas. Manda comprar comida na churrascaria da esquina. Pai de um rapaz e duas moças, diz que se candidatou devido a uma promessa. Em 2000, uma de suas duas filhas teve um câncer e ele, pedindo sua recuperação, prometeu a Nossa Senhora Aparecida empenhar-se na solução dos problemas sociais. Até então, tinha passado pouco mais de três meses ocupando uma cadeira no Senado, como suplente. A filha curou-se, Mato Grosso ganhou um novo governador e as terças-feiras no Palácio Paiaguás passaram a ser abertas com um culto ecumênico público no gabinete do chefe. "Só não vale ir lá para pedir audiência depois", avisa Blairo.
Beneficiado pelos primeiros sucessos administrativos, ele pulverizou a oposição. Praticamente só tem nos calcanhares ambientalistas que desgostam do avanço da soja na Amazônia Legal. No ano passado, Blairo comprou uma gleba de 83.000 hectares no município de Querência, perto do Parque Nacional do Xingu. Seu argumento é que a soja se implanta em áreas já desmatadas, de pastagens degradadas. Adversários respondem que a agricultura valoriza a terra e leva os pecuaristas a desmatar mais adiante. Noutra frente, Blairo se opõe à concessão de mais terras aos índios, que já têm 17% do território estadual. E foi dizer isso pessoalmente, dentro de uma reserva. "Sou tão amigo dos índios que em Sapezal, cidade fundada pelo meu pai, tem um indiozinho chamado Blairo", conta.
O estilo dele
Foi o candidato a governador que mais gastou do próprio bolso na última eleição
Reduziu a bancada de oposição na Assembléia Legislativa para apenas dois deputados
Impôs um contrato de gestão ao secretariado. Quem não cumprir metas perde o cargo
Implantou consórcios com os produtores rurais, que pagam 40% da pavimentação das estradas
Veja, 10/12/2003 - p.84 e 86
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