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O tempo não para

O Globo, Opinião, p. 6
Autor: BESSERMAN, Sérgio; FRANCO, Nelson Moreira; ROSA, Rodrigo
09 de Abr de 2010

O tempo não para

Sérgio Besserman, Nelson Moreira Franco e Rodrigo Rosa

O aquecimento global é responsável pelas chuvas torrenciais que caíram sobre o Rio de Janeiro na última terça-feira? O clima é muito complexo e uma afirmação desse tipo quase nunca pode ser feita a respeito de eventos singulares. O Rio enfrentou no passado chuvas igualmente intensas. Mas a ciência da mudança climática nos provê uma informação fundamental: elas tendem a ser cada vez mais intensas e frequentes.

A preocupação é ainda maior no Rio de Janeiro onde a intensidade e a formação de alagamentos dependem também do nível das marés. Um dos mais fortes impactos do aquecimento global será a elevação significativa do nível médio do mar nos próximos anos. Nesse cenário, períodos de maré cheia coincidentes com chuvas intensas tornarão ainda mais difícil o escoamento das águas.

Adaptação às mudanças climáticas é um tema obrigatório na pauta dos governantes de todo mundo. A sustentabilidade do desenvolvimento no país ou nas cidades dependerá da internalização desse conhecimento em todos os esforços de planejamento, sejam estratégicos, setoriais e outros aspectos do planejamento urbano.

As políticas públicas, a execução de obras e as novas construções precisam incorporar as duas dimensões da sustentabilidade frente às mudanças climáticas: a mitigação, ou seja, participar do esforço global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e evitar os piores cenários de aquecimento global, e a adaptação, isto é, defender as populações mais vulneráveis e a infraestrutura das cidades dos impactos já inevitáveis.

A preservação de vidas humanas exigirá uma mudança de cultura em relação à ocupação do espaço urbano. A maior frequência dos eventos climáticos extremos irá cobrar um preço elevado se continuar a prevalecer a cultura de acomodação. O Poder Público tem sido leniente face à ocupação do solo. Muitas vezes em áreas de risco, como as encostas cariocas, onde o acesso aos terrenos, além de menos custoso, contou com a omissão cúmplice das autoridades e, em grande medida, da sociedade.

O sistema de Defesa Civil das grandes cidades, muitas vezes um exemplo de heroísmo e dedicação, tem de dar um salto de qualidade em sua gestão do conhecimento, na maximização do aproveitamento das redes de informação e de mobilização social, e da incorporação dos impactos do clima em seu planejamento.

Em abril, a Unicamp, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Unesp publicam estudo sobre as vulnerabilidades climáticas das duas maiores regiões metropolitanas do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo.

As secretarias de Meio Ambiente dos Estados e das cidades acompanham e participam com entusiasmo desse esforço.

O conhecimento produzido precisa ser internalizado nas políticas públicas e nas ações dos atores econômicos e sociais. O Governo Federal precisa estimular estudos similares para as cidades menos desenvolvidas do país. Há muito trabalho pela frente na produção de conhecimento e na adaptação das cidades às consequências do aquecimento global. O preço da omissão será medido em vidas humanas.

Sérgio Besserman é presidente da Câmara de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio de Janeiro. Nelson Moreira Franco é gerente de Mudanças Climáticas. Rodrigo Rosa é assessor da Prefeitura do Rio de Janeiro.

O Globo, 09/04/2010, Opinião, p. 6

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