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O risco de 'estressar' os rios

O Globo, Sociedade, p. 30
21 de Mar de 2015

O risco de 'estressar' os rios
Relatório da Unesco alerta que país pode sofrer crise por causa de represas e hidrelétricas

JÉSSICA MOURA E WASHINGTON LUIZ
sociedade@oglobo.com.br

Relatório da Unesco alerta para os riscos do estresse ambiental gerado nos rios do Brasil com a construção de hidrelétricas e represas. Relatório publicado ontem pela Unesco faz um alerta preocupante: se nenhuma medida de gestão for tomada, nos próximos 15 anos a disponibilidade de água no planeta deve diminuir em 40%. O Brasil é um dos países que podem sofrer as consequências dessa crise. De acordo com o documento, bacias das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste estão degradadas e concentram índices elevados de estresse ambiental. Isso em decorrência da mudança no curso dos corpos d'água para a construção de usinas hidrelétricas e represas. Países como China e Estados Unidos também apresentam graves problemas hídricos.
Para tentar evitar um colapso na oferta de água, a Unesco recomenda que os países invistam em inovações e tecnologia, como métodos de osmose reversa - para dessalinizar a água do mar - e também em técnicas de reaproveitamento. No caso do Brasil, o coordenador de Ciências Naturais da Unesco, Ary Mergulhão, destaca que os problemas são pontuais, mas precisam ser elucidados:
- Qualquer insumo utilizado sem planejamento e sem cuidado é um complicador. O que precisamos é investir em gestão. Nós temos problemas pontuais, tanto na parte de escassez quanto na de abundância. O que se precisa fazer é um pouco de gestão, planejamento, conhecer a realidade de cada país. É importante que se invista em bases de dados para que cada país tenha consciência da sua realidade e, a partir daí, faça planejamento e gestão.
INVESTIMENTO QUE DÁ RETORNO
A ONU ressalta que os repasses a esses projetos e aos de abastecimento e saneamento são favoráveis à economia: a cada dólar investido nessas áreas, há um retorno que varia de US$ 5 a US$ 28. Se fossem destinados US$ 53 bilhões anuais para esse fim, em cinco anos, toda a população mundial teria acesso à água.
No estudo, a entidade chama a atenção para o fato de que 748 milhões de pessoas, o que representa 10,3% da população mundial, ainda não têm acesso a água potável. Nos últimos 22 anos, a quantidade de pessoas sem acesso à água limpa caiu um ponto percentual. Porém, nesse período, o total da população que não tem água apropriada para o consumo saltou de 111 milhões para 149 milhões. Segundo a Unesco, isso demonstra que o fornecimento de água própria para o consumo é pior onde o processo de urbanização está em descompasso com a prestação de serviços públicos de saneamento.
Para ilustrar o fato, o documento publicou uma foto da Rocinha, no Rio, que ainda sofre com a falta de tratamento de água. A previsão da Unesco é de que, daqui a cinco anos, 900 milhões pessoas vão morar em comunidades irregulares. Para o órgão, elas são as mais vulneráveis aos problemas decorrentes das deficiências no saneamento.
CRESCIMENTO DESORDENADO CONTRIBUI
Angela Ortigara, oficial de Ciências Naturais da Unesco, explica que o crescimento desordenado das cidades é um dos fatores que mais contribuem para os problemas hídricos:
- Quando ocorre a urbanização acelerada, com certeza o padrão de consumo muda, porque um grande número de pessoas se concentra na mesma área. Porém, elas contarão com a mesma fonte de água de antes. Esse é o impasse da urbanização: não conseguir planejar e diversificar as fontes hídricas a tempo, o que acaba levando a problemas.
Além da urbanização, as fábricas e usinas termoelétricas também pressionam a demanda por água. Em todo o mundo, o consumo desses setores, até 2050, deve ser 55% maior do que o atual. A situação também é grave nos países que compõem o Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Nessas regiões, o uso de água somente pelas indústrias deve subir entre 7% e 22%, no mesmo período.
Mas não é só o consumo industrial que ameaça a oferta de água. Também o uso de água para a irrigação de plantações compromete a oferta. A previsão da Unesco é de que, até 2050, a produção de alimentos vai precisar aumentar em 60%. Já nos países em desenvolvimento, a quantidade tem que dobrar de volume.
Uma alternativa para reforçar a disponibilidade de água seria a exploração dos lençóis freáticos. Contudo, quase um quarto desses aquíferos estão depredados em todo o mundo, já que houve uma exploração desenfreada desse recurso.
A data de lançamento do relatório coincide com a semana de comemorações do Dia Mundial da Água, que ocorre amanhã. Todos os anos, desde 1992, a Unesco aproveita a oportunidade para discutir o tema. O órgão estabeleceu que a prioridade para os países da América Latina é reduzir a pobreza, para garantir o cumprimento do direito à água, que faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) pós-2015.

O Globo, 21/03/2015, Sociedade, p. 30

http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/relatorio-da-onu-rev…

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