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O que esta havendo de novo e antigo: entrevista FHC

OESP, Caderno Especial, p.X10
31 de Dez de 2003

'O QUE ESTÁ HAVENDO DE NOVO É ANTIGO' FHC critica volta do modelo Geisel, que enfatiza mais o Estado que a sociedade
PAULO SOTERO Correspondente
WASHINGTON - Um ano depois de deixar o poder, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se dispôs a fazer sua primeira análise detalhada do governo do sucessor. Em entrevista ao Estado, na véspera de embarcar com Ruth para São Paulo, para os feriados de fim de ano, ele avaliou vários aspectos do governo petista e deixou implícita uma crítica que provavelmente surpreenderá muitos dos que celebraram a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva como um triunfo da esquerda.
Para FHC, a marca do novo governo tem sido a da continuidade. Mas, nas áreas em que tem tentado mudar, as políticas propostas não representam um avanço, mas uma volta ao passado do "desenvolvimentismo estatal" que o regime direitista dos militares aplicou, com os resultados conhecidos. "Há a volta de um sentimento parecido com o tipo de política que foi proposta na época do general Geisel, a valorização de um modelo que põe mais ênfase no Estado do que na sociedade."
Ruth e Fernando Henrique alugam desde outubro um apartamento em Washington, de onde vão com freqüência ao John W. Hughes Center, na Biblioteca do Congresso. Ele trabalha num livro sobre seu governo. Em fevereiro, pretende voltar para São Paulo, para cuidar do Instituto Fernando Henrique Cardoso.
"Acho que um ex-presidente com a minha experiência pode ter uma vida ativa de intelectual e de cidadão", explicou. Os principais trechos da entrevista:
Estado - O sr. disse que vê continuidade no governo Lula. Para o PSDB, o primeiro ano do PT foi um fracasso.
Fernando Henrique Cardoso - Todos os governos fazem mudanças. A profundidade varia, e depende de momentos históricos. Getúlio Vargas criou uma base que expressou um momento. No governo de Juscelino Kubitschek, o Brasil se democratizou e começou a ter ligação com a globalização. Os militares, sobretudo no período Geisel, montaram outro modelo. Penso que o Plano Real marcou o início de um novo momento. Quando falo em continuidade, é a isso que me refiro. Não estou falando sobre a continuidade do que eu, como presidente, fiz. Algumas pessoas, inclusive no próprio PT, achavam que eles tinham um modelo novo. Eu não vi até agora esse modelo. O que estou dizendo, ao falar em continuidade, é que não houve uma ruptura. E não acho isso mau.
Não falo em continuidade no sentido de que estão fazendo as mesmas coisas, da mesma maneira. Acho que em alguns setores estão até piorando. Portanto, não há incompatibilidade entre o que eu disse e o que meu partido diz.
Estado - Por que sua constatação de que há continuidade provoca reação do PT?
FHC - Não vejo razão para isso. É falta de maturidade histórica. Não estou criticando, estou dizendo que não houve ruptura. Vou dizer com mais clareza o que penso. O que está havendo de novo é antigo. Há a volta de um sentimento parecido com o tipo de política que foi proposta na época do general Geisel, a valorização de um modelo que põe mais ênfase no Estado do que na sociedade. Diferente da tendência anterior do PT, que tinha visão mais internacionalista e de esquerda. O que vemos é uma tendência de volta ao passado, a um desenvolvimentismo estatal. Isso é diferente do que eu estava fazendo.
Estado - O sr. acha que o governo está empenhado na volta à política de Estado forte?
FHC - Não, até porque não conseguiria. Essas idéias de Estado forte não são mais plenamente realizáveis, porque o contexto não permite. Agora, a tentativa de ir por esse caminho é diferente do que eu estava fazendo. Não estou dizendo se é melhor ou pior. Isso, a história dirá. Mas digo que existe no governo uma visão do que foi, no Brasil, uma prática nacional estatista, muito mais do que uma visão do sonho socialista que inspirou o PT. As questões chamadas de esquerda não estão colocadas. As que estão postas giram no eixo do nacional-estatismo, inclusive algumas que lembram o Brasil Grande, que vem dos regimes militares.
Estado - Para fazer o contraste com seu governo, usa-se o argumento de que o de Lula quer o desenvolvimento.
FHC - Mas qual é o governo que não quer o desenvolvimento? O problema não é de querer, é de como fazer. Isso não depende apenas da vontade do governo, mas de circunstâncias. O governo Lula pegou um quadro internacional mais favorável do que o do meu período. As crises financeiras diminuíram. O Brasil vive um boom exportador, que é o resultado da mudança cambial. A reversão das contas externas aconteceu há dois anos. A expansão da agricultura também foi montada há algum tempo. O que estamos vendo são os resultados. Aí também não vejo ruptura.
Estado - Parece haver continuidade também na relação com os EUA, no qual o sr. investiu bastante. Para surpresa de muitos, George Bush, que é talvez o presidente mais direitista que os EUA já teve, e Lula, que é o mais esquerdista da história do Brasil, estabeleceram diálogo cordial.
FHC - Uma coisa são as relações pessoais, podem ser melhores ou piores.
Aparentemente, há uma química boa entre Lula e Bush, como havia entre mim e Clinton. Não sei qual é o grau efetivo dessa química. Isso só Lula e Bush podem dizer.
Estado - A política dos EUA em relação ao Brasil mudou?
FHC - Não. Na transição, o governo americano apoiou o governo Lula. O Fundo Monetário Internacional, no qual os EUA têm grande influência, teve atitude absolutamente positiva. Também aí não houve mudança. Eu tive mais dificuldades com o FMI, no começo, do que Lula. Não por causa do Lula ou de mim, mas por causa da situação. Nós construímos uma situação boa. A herança é boa. É tão boa que essas organizações todas ficaram contentes de não ter havido mudanças.
Estado - As negociações da Alca são o grande desafio do relacionamento entre os dois países. O sr. as teria conduzido de forma diferente do governo Lula?
FHC - Dificilmente. Os americanos não querem fazer duas coisas que eu considerei condições necessárias à nossa participação: mudar a maneira como usam o antidumping e mexer na questão dos subsídios à agricultura. Diante do impasse, deram, agora, uma volta por cima e resolveram fazer um cardápio com múltiplas escolhas. Aí não há enfrentamento. A decisão que Brasil e EUA tomaram em Miami foi dizer: não vamos brigar. Houve uma acomodação conveniente para os dois lados.
Estado - O sr. vê risco, para o Brasil, nessa acomodação?
FHC - O risco que vejo é que, se os EUA forem avançando em negociações bilaterais com outros países, com base no cardápio, vamos ficar isolados. E poderemos ter os EUA como nosso concorrente na América do Sul. O Brasil é hoje um exportador de manufaturas - 50% das nossas exportações são de manufaturados, basicamente para a América Latina e os EUA. Se os nossos vizinhos derem vantagens de acesso aos EUA, vamos competir com os manufaturados americanos. Essas negociações não são fáceis.
Estado - Há riscos na estratégia de comércio exterior?
FHC - Precisamos perguntar quais serão nossos parceiros daqui a 20, 30 anos.
Será que não estamos nos arriscando a jogar uma carta de isolamento? Isso não é um jogo de respostas fáceis. Decisões que estão se tomando agora terão efeitos mais tarde. É uma discussão de interesse nacional que nunca tivemos.
Convém a nós ou não a aliança mais profunda com os EUA? É preciso que o Brasil pense mais sobre o que acontecerá daqui a 20, 30 anos.
Estado - O que dificulta o exame da idéia de aprofundamento com os EUA? É o medo? É o antiamericanismo?
FHC - É o medo. O antiamericanismo, no Brasil, não é forte. Existe nas elites econômicas e intelectuais. Na população não, porque é uma realidade muito distante. O medo é o fator mais forte. E os EUA são tão fortes e têm agido nesses últimos anos de uma forma tão unilateral, tão arrogante, que se justifica o medo. Gostamos de um lado dos EUA, o da prosperidade. Mas não gostamos do espírito americano, como o consideramos. E ultimamente a política americana acentuou o lado negativo. O Brasil gostaria de ser mais europeu. Na verdade, não seremos nem europeus nem americanos. Temos identidade nacional e força própria.
Estado - Lula proclama a liderança do Brasil na América do Sul, mas críticos dizem que o debate da Alca deixará claro que o País pode acabar sem ter a quem liderar.
FHC - Disse e repito: nosso maior risco hoje é o de isolamento. Não em palavras. Palavra é fácil. Em coisas concretas. Preocupa-me a baixa taxa de investimentos. Nós conseguimos aumentar a taxa de investimentos de 13% para 18%, 19% do PIB. Agora caiu e está em 13%, 14%. 2003 foi muito ruim. E há queda do investimento interno. Atrair investimentos não se resolve só com confiança. É preciso ter políticas práticas, o que significa criar condição de continuidade.
Estado - Lula está sendo criticado pelo que ele e outros criticaram no sr.:
a freqüência das viagens ao exterior.
FHC - No mundo de hoje, os presidentes são obrigados a viajar. Primeiro, há muitos encontros de cúpula que viraram rotina. O errado foi eles (PT) terem me atacado tanto sem ter noção disso. Outro dia o assessor internacional do Lula (Marco Aurélio Garcia) disse que a diferença é que eu fazia viagens para ter vantagem pessoal e nas viagens do Lula a vantagem é para o Brasil.
Relacionamento internacional, como pessoa, eu já tinha antes de ser presidente.
Estado - Como avalia o desempenho dos programas sociais, como o Fome Zero?
FHC - Não tenho os dados. Achei, desde o início, que havia um apelo forte no Fome Zero, mas faltava conteúdo ao apelo.
Estado - Houve mais barulho do que execução efetiva?
FHC - Não gosto de programas de impacto. É coisa de regime militar. Tenho medo de que o Fome Zero seja mais impacto do que realidade. Acho que houve certa descontinuidade, por causa da imensa quantidade de novos programas anunciados. Mas ainda é cedo para julgar. Acho correto terem feito o cadastro único. Já tínhamos começado, com o cartão magnético. É bom que haja um controle unificado. Mas acho que o Brasil não tem alternativa a não ser fortalecer as instituições locais.
Estado - Qual é o efeito da descontinuidade na execução de programas sociais?
FHC - É a perda de velocidade. Demora para ganhar o impulso necessário para esses programas mostrarem efeito. Por exemplo, está aparecendo agora, com mais clareza, o que fizemos em educação. Acusavam meu governo de não fazer nada e só olhar para o mercado. Outro dia vi o ministro Palocci dizer que a diferença do atual governo em relação ao meu é que, agora, estão cortando despesas para valer. Ele disse isso com alegria. Eu diria com tristeza.
Estado - Na educação, o governo quer esvaziar o provão.
FHC - Sou contra. O provão foi uma luta importante, que a sociedade comprou.
Estado - Há diferenças entre a sua política de reforma agrária e a de Lula?
FHC - O problema agrário no Brasil foi muito politizado. O MST e o PT convenceram a sociedade de que o Brasil dependia da reforma agrária, isso no momento em que estava havendo uma revolução agrícola, em que o agronegócio estava se expandindo. O futuro do Brasil não dependia da reforma agrária, mas o futuro de muita gente dependia de ter terra. É uma questão social importante. Não havia e nós criamos um programa para financiar a pequena agricultura. Tenho a sensação de que o contingente de pessoas que precisa de terra e sabe trabalhar na terra está esgotado. Começa a haver outro problema: é gente pobre em busca da terra como um bem, uma propriedade, um valor.
Estado - O novo governo pode inovar nessa área?
FHC - O que há a fazer é consolidar o que existe. Fui forçado, pelo momento político, pela pressão, a assentar muito depressa, para evitar o aumento das invasões e o caos no campo. Imagino que as invasões, agora, tenham diminuído.
Estado - O senhor tem mantido contato com Lula?
FHC - Estivemos juntos algumas vezes. Tenho uma relação sincera de amizade, admiração pelo Lula. Torço por ele. Acho que Lula tem feito das tripas coração nas circunstâncias, para fazer frente às promessas e expectativas que ele e seu partido criaram. Acho que tem agido com responsabilidade nas questões nacionais. Querem me jogar contra o Lula. Não quero, mas não vou deixar de me pronunciar e dizer o que, como pessoa, cidadão, como homem do PSDB, tenho o direito e até o dever de dizer. Acho que chegou a época de maturidade. Não precisam mais ficar nervosos quando digo que não houve ruptura. Nem devem querer que a gente cale a boca. Maturidade implica respeitar a opinião do outro.

OESP, 31/12/2003, p. X10

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