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O que Bolsonaro chama de improdutivo é o que garante nossa vida, diz líder indígena

Huffpost Brasil - https://www.huffpostbrasil.com
Autor: Luiza Belloni
18 de set de 2019

Sônia Guajajara contesta projetos do governo para abrir reservas indígenas para mineradoras: "A gente vai continuar avançando, independentemente de ele quer ou não".

Em meio à crise ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro, a coordenadora executiva da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), Sônia Guajajara, criticou a gestão "anti-ambiental" do governo e denunciou que povos indígenas estão sendo ameaçados por redes criminosas de extração ilegal de madeira e fazendeiros.

Ao HuffPost Brasil, a líder indígena, que fez chapa de Guilherme Boulos (PSol) nas eleições presidenciais em 2018, criticou as tentativas do governo de arrendar ou abrir para mineração a demarcação de terras indígenas. "Povos indígenas estão sendo ameaçados", disse. "Temos o direito constitucional, e antes disso, temos o direito originário sobre essas terras. Ele [Bolsonaro] não tem que questionar se é território indígena, o governo tem o dever de demarcar esses territórios."

Guajajara afirma que as investidas do governo para enfraquecer leis que protegem os direitos destas comunidades está afetando o modo de vida de indígenas, de quilombolas e de outros povos tradicionais.

Um dos mais graves ataques do governo a estas comunidades, segundo Sônia, é o discurso de "integracionista" que o governo Bolsonaro prega. "Ele fala que os indígenas têm que integrar à sociedade, mas a gente já está aqui, a gente estuda, muitos já convivem na sociedade e isso não quer dizer que não precisamos de território, pelo contrário - a gente quer ter direito territorial, quer ter nosso modo de vida preservado e também o direito de circular, de ir e vir", disse.

Avançamos bastante em participação de conselhos, com disputas eleitorais e a gente vai continuar avançando. Independentemente de ele [Bolsonaro] quer ou não, a gente vai continuar avançando, assim como for nossa decisão.

Segundo a indígena, esta fala integracionista, além de errônea, é também perigosa porque, a partir dela, o presidente tenta impor medidas legislativas que favoreçam o arrendamento dos territórios indígenas. "Isso é preocupante porque acaba com o usufruto exclusivo dos povos indígenas, entrega esses territórios e, aí sim, estará prejudicando o modo de vida dessas pessoas."

Desde o começo de seu mandato, Bolsonaro defende abertamente a possibilidade de comunidades indígenas desenvolverem atividades de mineração e agropecuária em seus territórios.

Ele falou em legalizar o "garimpo" nas áreas preservadas e afirmou que pretende criar "pequenas Serras Peladas", que poderiam ser exploradas por índios e estrangeiros. A intenção do presidente permaneceu mesmo depois de uma pesquisa do Instituto Datafolha apontar que 86% da população é contra a medida.

Sobre o assunto, Bolsonaro diz que vai submeter o assunto a uma consulta popular e já mencionou que quer tornar estas áreas "mais produtivas".

"Esse governo olha o meio ambiente pelo lado mercantilista, de gerar lucro e favorecer seus interesses", criticou a líder indígena Sônia Guajajara, ao HuffPost. "Mas, para todos nós, esses territórios estão preservados para garantir a vida no planeta, a água, as nascentes, o ar puro... Improdutivo é exatamente o que eles estão querendo fazer: destruir tudo. São percepções e entendimentos diferentes sobre o que é improdutivo", disse.

O que eles chamam de improdutivo são áreas de vegetação nativa e isso, para nós, é exatamente o que garante a vida.

Volta do Fundo Amazônia

Questionada sobre uma possível articulação por parte dos estados da Amazônia para a volta do Fundo Amazônia, a líder indígena diz que o fundo que foi criado em 2008 com mais de R$ 3 bilhões doados pela Noruega e Alemanha para reduzir desmate das áreas foi um instrumento importante e benéfico para comunidades e preservação dos territórios, mas vê como "oportunismo" por parte governadores.

No início de agosto deste ano, os governadores dos oito estados da Amazônia Legal divulgaram uma carta conjunta que define metas para a região e defenderam a volta do Fundo.

"O Fundo Amazônia deveria ser conversado diretamente com as organizações e com os povos indígenas, e o dinheiro investidos nos próprios povos", defendeu. "Os estados agora tomam esse discurso de que não concordam com Bolsonaro, sendo que todos são aliados com o próprio governo e estão de acordo com essa política desenvolvimentista e de expansão agrícola e povoamento na Amazônia", disse. "A gente não sabe como eles vão investir esses recursos".

A opinião da indígena é endossada por Marina Silva, fundadora do partido Rede Sustentabilidade. À imprensa, a ex-ministra do Meio Ambiente diz que assegurar a continuidade do fundo era fundamental às populações locais, ao fortalecimento da gestão ambiental e para projetos de desenvolvimento sustentável.

"O governo desarticulou o plano e agora estamos diante de segmentos que tentam manter os recursos. É uma insanidade: com uma crise fiscal que estamos vivendo, com problemas ambientais, ele [Bolsonaro] dispensa um recurso de R$ 3 bilhões para tomar R$ 2 bilhões emprestado, pagando juros, não tem sentido", lamentou.

Se o Plano Amazônia voltar, acrescentou, é preciso ter a mesma finalidade com a qual ele foi criado. "Não só os governos estaduais, mas para as populações locais, projetos de desenvolvimento sustentável, para fiscalização e ações voltadas para pesquisa", disse. "Não é uma questão de ficar apenas para um setor."

Sobre a atual gestão ambiental, Silva não poupou críticas ao ministro do Meia Ambiente, Ricardo Salles. "Primeira vez que temos um governo com um ministro do meio ambiente que tem agenda anti-ambiental", disse. "Em todos os governos haviam dificuldades, mas haviam ministros que estavam interessados em articular, adensar e fortalecer a pasta, voltada para proteção e gestão ambiental."

Primeira vez que temos um ministro que opera contrário à gestão ambiental. Ele [Salles] não luta por orçamento, não luta para fortalecer os órgãos de gestão e fiscalização, não trabalha para evitar projetos nefastos do executivo, e isso é um grande problema.

No evento da Human Rights Watch, Marina Silva também citou a pesquisa do Datafolha em que diz que a maioria dos brasileiros quer preservar a Amazônia e afirmou que é "assustador" como o governo continua com este plano, mesmo sem apoio da população. Segundo ela, a insistência de Bolsonaro sobre este tema é antidemocrático.

"Precisamos trabalhar com o bom-senso de viver em uma democracia. Estamos nos afastando dos princípios da democracia, não existe um Estado de Governo para defender os que podem e os que têm, e é isso o que acontece agora", disse, enquanto discursava sobre medidas para combater o desmate ilegal na Amazônia.

Ela também foi crítica aos planos de Bolsonaro de legalizar mineração nas terras indígenas. Ela alega que, "além de todos problemas devastadores para o meio ambiente", esses projetos têm um propósito de dividir os próprios indígenas, uma vez que vai enfraquecer o movimento e colocá-los um contra os outros.

Existem duas formas de acabar com povos originários: ou eliminando fisicamente ou assimilando socialmente, economicamente, culturalmente, territorialmente. A maior resistência e a mais importante é a dos 200 milhões de brasileiros, que não podem permitir que nosso País faça um crime que lesa a pátria, um crime que lesa a humanidade.

https://www.huffpostbrasil.com/entry/amazonia-produtiva-para-vida_br_5d…

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