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O próximo desafio olímpico

Valor Econômico, Opinião, p. A11
Autor: BUNDCHEN, Gisele
05 de Set de 2016

O próximo desafio olímpico

Gisele Bündchen

Vivi um dos momentos mais mágicos da minha vida no Maracanã, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio. Senti-me muito honrada e orgulhosa em representar o meu país em um momento tão especial. Quando o mundo todo estava olhando para o Brasil, escolhemos colocar os efeitos severos das mudanças climáticas nos holofotes.
Até agora a maioria das pessoas via as Olimpíadas como um lugar para quebrar recordes atléticos, não de temperaturas. Mas os organizadores das Olimpíadas do Rio costuraram temas de meio ambiente dentro da celebração do esporte, mostrando os perigos a que estamos expostos, se permitirmos a escalada das mudanças climáticas. A mensagem foi clara: podemos viver em países diferentes, com nossas próprias línguas, bandeiras e contagem de medalhas, mas estamos unidos pelos limites da natureza. E isto ficou evidente quando o piso do estádio foi coberto por projeções de imagens de cidades como Lagos, Xangai, Amsterdã e Rio de Janeiro submergindo por causa do aumento médio do nível do mar.
Em uma noite de alegria, ver cenas da Cidade Maravilhosa afundando sob as ondas foi um momento de sobriedade que não esquecerei. É verdade que o Brasil, como todos os outros países, vai perder muito em um mundo de clima alterado. Mas o país também é uma das forças determinantes do nosso futuro, porque é onde fica a maior parte da Floresta Amazônica.
Naquela noite eu estava particularmente consciente do que está em jogo. Um mês antes de entrar no Maracanã desfilando de salto alto e vestido de gala, eu estava na floresta, calçando tênis e usando caneleiras para me proteger de picadas de cobra.
Após quase uma década de declínio, o desmatamento na Amazônia voltou a crescer. Para descobrir o porquê, viajei para lá com a equipe de filmagem da série "Years of Living Dangerously (Os Anos em que Vivemos Perigosamente)" da National Geographic, que fala sobre mudanças climáticas.
Dois terços da Amazônia estão no Brasil, a maior floresta tropical do mundo, o "pulmão do mundo", responsável pela absorção de mais gases que provocam o efeito estufa do que qualquer outra floresta.
Vimos áreas intocadas e reservas com matas virgens, mas o foco da nossa visita foi o chamado Arco do Desmatamento, no norte do Mato Grosso e sul do Pará.
Quase a metade do total de desmatamento em todo o mundo se concentra nesta faixa de fronteira com a floresta, mas mesmo com tecnologias como o monitoramento por satélite, que ajuda a identificar onde o desmatamento está acontecendo, é imensamente difícil acabar com ele. Podem levar horas - ou dias - para chegar aos lugares remotos onde se dá a atividade ilegal. Quando as imagens de satélite são analisadas e os fiscais chegam, o estrago já foi feito. Os agentes encarregados da heroica tarefa de proteger a Amazônia são extremamente dedicados à causa.
Estive com alguns deles e com uma jovem coordenadora do Ibama chamada Maria Luíza Souza, em Novo Progresso, no Pará. Ela carregava uma arma e uma incrível dedicação e paixão por proteger a floresta. Perguntei a ela por que o desmatamento está crescendo. "Por duas razões", respondeu. "Em primeiro lugar não há responsabilização. Os criminosos veem que podem lucrar sem sofrer maiores consequências, então continuam praticando o crime. Em segundo lugar, há demanda. Existe um mercado para o gado proveniente de áreas de desmatamento ilegal e de madeira ilegal da Amazônia. Enquanto houver oferta (barata), as pessoas vão comprar".
Isto está começando a mudar. Mais empresas estão começando a limpar suas cadeias de produção para garantir que não incluam produtos de partes das florestas desmatadas de forma ilegal. Manter as cadeias de fornecimento limpas está se tornando cada vez mais possível com o uso de tecnologias que ajudam a monitorar e identificar a origem destes produtos. Como consumidores, precisamos exigir que as empresas vendam produtos sustentáveis que não negligenciem ou destruam a natureza.
Mas ainda há muito a ser feito. Todos precisam estar mais conscientes sobre o que ocorre na Amazônia e sobre as consequências que nossas escolhas terão em nosso futuro. Estamos todos conectados; o que acontece na Amazônia não afeta somente o Brasil, mas a todos ao redor do mundo. Mais recursos do Brasil e de todo o planeta precisam ser disponibilizados para ajudar os defensores na linha de frente, que arriscam suas vidas todos os dias na tentativa de fazer com os que os desmatadores ilegais respondam por seus crimes, acabando com a cultura de impunidade.
O crescimento populacional e a cobiça estão colocando a Amazônia sob intensa pressão. Temos que lembrar que os recursos naturais são finitos e se forem esgotados, vamos mudar a vida na Terra para sempre. Por muito tempo o enfoque no mundo tem sido no crescimento a curto prazo e no desenvolvimento às custas de nossa sobrevivência a longo prazo, exaurindo nossos recursos naturais em níveis historicamente irresponsáveis.
Com o fim das Olimpíadas no Brasil, mesmo sem atletas para torcer ou medalhas para comemorar, não podemos deixar que o que acontece na Amazônia fique para trás e seja esquecido, porque isto afeta toda a população do planeta. E este é o único lar que temos. Ao contrário das competições nas arenas cariocas, a corrida contra as mudanças climáticas não pode ser ganha por um único país. É necessário que todos trabalhemos juntos para vencer.

Gisele Bündchen é embaixadora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e correspondente do documentário "The Years of Living Dangerously" da National Geographic.

Valor Econômico, 05/09/2016, Opinião, p. A11

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