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O projeto do mundo movido a álcool

OESP, Economia, p.B5
06 de fev de 2005

O projeto do mundo movido a álcool
Exportar o combustível virou uma obsessão entre os produtores brasileiros, com a idéia de que a era do petróleo já não dura muito

Agnaldo Brito

A exportação brasileira de álcool industrial e carburante este ano promete superar o excepcional desempenho de 2004, quando um crescimento de 300% elevou o volume para 2,3 bilhões de litros, a maior parte para apenas seis mercados. No setor, a exportação virou obsessão, independentemente do preço internacional ou da taxa de câmbio.
Em 2005, a cadeia sucroalcooleira quer transmitir ao mundo o seguinte recado: "Somos confiáveis, o petróleo se aproxima do pico de produção (estimado para entre 2010 e 2015) e o álcool combustível é a solução pronta".
Investimento em logística, sobretudo em área costeira, uma operação de triangulação via Caribe e América Central e a abertura de novos mercados mundiais podem transformar o volume do ano passado em novo patamar a partir do qual não se recua.
Apesar da deficiência da logística interna - que começa a ser resolvida -, a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica) diz que o Brasil tem estrutura portuária, com alguns ajustes, para suportar com tranqüilidade o embarque de 4 bilhões de litros por ano. Algumas previsões, da Transpetro, por exemplo, falam em 10 bilhões de litros em seis anos.
Para o Grupo Cosan, a maior companhia de álcool e açúcar do mundo, a marca de 4 bilhões de litros é factível até 2010. "O desafio brasileiro agora é abrir mercados e provar que somos capazes de assegurar o fornecimento mundial e do mercado interno, que também cresce", diz Pedro Isamu Misutami, diretor-superintendente da Cosan. A empresa espera exportar 320 milhões de litros de álcool este ano, o dobro do alcançado na safra 2003/2004.
À Cosan interessa desempenhar papel central no assunto exportação. Quer dar o exemplo, levar empresários ainda desconfiados do setor a entender a relevância do jogo geopolítico em curso no mundo.
Longo prazo
O fim anunciado do petróleo como base energética do Planeta não parece distante, sustentam insuspeitos especialistas. Isso significa que produtores mundiais de energia renovável terão inexoravelmente espaço no futuro. A obsessão exportadora brasileira deriva daí.
Mas nada é tão simples. Misutami explica: "Falta consciência no setor sucroalcooleiro brasileiro. Ainda existe boa parte, uns 40%, que considera apenas a 'lei de Gerson'. Se o açúcar tem bom preço, exportamos; se é álcool, então vamos de álcool". Mesmo em grupos capitalizados falta o desprendimento, a "visão de longo prazo" que será capaz de reunir o setor em ambiente sem ambivalência.
Isso talvez tenha levado o Brasil a exportar mais, mas quase sem contrato. Ao que parece, a consolidação do modelo exportador depende de acordos de longo prazo, mas deve aparecer apenas quando o Brasil ampliar a exportação e garantir a oferta. São questões que não aparecem nas estatísticas, mas podem ser determinantes na transformação do País numa plataforma mundial de energia renovável.
"O mercado potencial de etanol só será concretizado se adotarmos políticas internacionais que permitam que o produto tenha preços competitivos e oferta constante e estável. As condições objetivas estão dadas para a transposição desse objetivo. Basta que as visões de curto prazo não se sobreponham às de natureza estratégica", escreveu em artigo recente Eduardo Pereira de Carvalho, porta-voz do setor e presidente da Unica.
Carvalho reafirma a necessidade de abrir mercados e nesse particular exportar é um passo. Mas não só. "Devemos entender o seguinte: a abertura de mercado para o álcool combustível não é uma proposição de natureza comercial, é uma proposição de natureza estratégica, amparada em decisões governamentais", diz.
A expansão da oferta de álcool no mercado internacional é importante, mas é fundamental o esforço diplomático brasileiro de convencer os países a criar leis que instituam a necessidade de uso de aditivo em combustíveis fósseis e isso não serve apenas ao cumprimento do Protocolo de Kyoto.
Os conflitos de natureza geopolítica no mundo, dizem analistas, trouxeram para bem mais perto de nosso tempo o chamado pico de produção, momento a partir do qual o preço apenas subirá. A mistura de etanol ao combustível fóssil pode suavizar este problema com ligeira redução do consumo .

Novo terminal em Santos dá impulso às exportações
Projeto patrocinado por grupo de nove usinas paulistas estréia nesta safra

Aganaldo Brito

Duas decisões estratégicas tomadas há pouco mais de um ano pelo setor sucroalcooleiro entram em cena em 2005 e servirão ao plano de ampliar ainda mais as exportações brasileiras, para níveis superiores a 2,5 bilhões de litros.
Começa nesta safra a operação do Terminal Intermodal de Santos, um projeto para granéis líquidos patrocinado pela Crystalsev, empresa de comercialização de álcool e açúcar de nove usinas paulistas - lideradas pela Santa Elisa e Vale do Rosário -, Grupo Ultra (para produtos químicos) e Cargill/Coimbra (para óleos vegetais). A estrutura está em fase final de montagem e será operada pela Tequimar, empresa de logística do Grupo Ultra.
Segundo Paulo Costa, gerente de Desenvolvimento de Projetos, o investimento chegou a US$ 11,5 milhões e terá capacidade de armazenagem estática de 40 milhões de litros. A previsão para o primeiro ano é conseguir embarcar por Santos 600 milhões de litros de álcool, estimativa conservadora, admite Costa. O terminal pode chegar a 720 milhões de litros, mas as limitações do píer (com 4 berços para atracação, 2 de uso cativo da Petrobrás) reduzem a capacidade de embarque. "Já há um estudo para a expansão do píer, e isso pode ajudar a ampliar a capacidade total do terminal", afirma.
Outra decisão importante foi a de criar o braço ferroviário no terminal, o que viabilizará a inclusão do modal na logística de exportação do álcool, hoje praticamente inexistente. Mais de 90% do álcool transferido do interior do Brasil para os portos chega de caminhão.
A estrutura não será usada exclusivamente pela Crystalsev. A empresa finaliza neste momento a constituição de uma sociedade que incluirá outros dois sócios: o Grupo Cosan e a Usina Nova América. Ambos integralizarão o capital para a formação da nova empresa. A Coopersucar será tomadora de serviços do terminal, mas sem participar do negócio em razão de questões estatutárias. Cada uma das 4 empresas terá uma cota inicial para embarque de 150 milhões de litros de álcool.
OPERAÇÃO CARIBE
Além do terminal em Santos, a Crystalsev inaugura este ano outro importante projeto industrial, mas fora do Brasil. Em parceria com a Cargill e a Companhia de Açúcar Salvadorenha (Cassa), a empresa terá uma unidade de desidratação de álcool em El Salvador, com capacidade nominal para 200 milhões de litros por ano.
O investimento compartilhado foi de US$ 10,5 milhões, boa parte usada para a compra de tecnologia brasileira. Não é a única empresa a fazer isso. O Grupo Coimex monta na Jamaica uma usina idêntica em parceria com a estatal jamaicana de petróleo. A capacidade deve alcançar 250 milhões de litros por ano. Tudo para usufruir de uma brecha existente na legislação americana.
A operação Caribe/América Central será fundamental para o Brasil não perder o gigantesco mercado dos Estados Unidos. Daí uma polêmica. No ano passado, o preço elevado do petróleo, conjugado com o baixo preço do álcool no mercado interno, permitiu ao Brasil a exportação direta de álcool anidro para os EUA, mesmo com o pagamento de um imposto de US$ 0,54 por galão, ou algo como US$ 140 por m3. "O equilíbrio de preços entre o mercado brasileiro e americano tornará inviável esta operação em 2005", diz Jacyr Costa Filho, diretor da Sociedade Corretora de Álcool (SCA), empresa que intermedeia operações de exportação.
As unidades de conversão de álcool hidratado em anidro no Caribe e América Central ajudarão o Brasil a pelo menos manter este ano os 600 milhões de litros exportados àquele mercado em 2004. .

Petrobrás reativa logística
Redes de distribuição devem facilitar escoamento da produção

Agnaldo Brito

A Petrobrás Distribuidora estuda reativar os Centros Coletores de Álcool (CCAs) para servir de suporte logístico às exportações brasileiras. A estrutura, hoje praticamente desativada, servia à BR Distribuidora quando era prerrogativa da estatal o recolhimento do álcool combustível para posterior entrega às distribuidoras.
A desregulamentação da atividade liberou a BR da função, que foi repassada diretamente às distribuidoras. "À medida que se mostrarem necessários, a Petrobrás Distribuidora reativará esses centros", diz a empresa. Em nota, a BR "vê na exportação do álcool uma possibilidade de reativação desses CCAs, como forma de melhorar a logística de escoamento".
A BR dispõe hoje de oito centros, com capacidade estática para armazenagem de 95 milhões de litros de álcool: três em Minas Gerais, três em São Paulo, Paraná (Londrina) e Sergipe (Aracaju). Em fevereiro, a BR reativará o CCA de Araraquara. O setor também aguarda o projeto da Transpetro de dutos para transferência de grandes volumes de álcool, que reduziria o custo logístico, hoje em US$ 35 o metro cúbico no navio. Para Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica, o problema está no custo de criação do lastro, um volume estático necessário à operação dos dutos.
FERROVIA
"Da mão para a boca." É assim que Paulo Costa, da Crystalsev, resume o modelo sobre o qual vigora o mercado internacional de álcool para o qual o País pretende ser o principal fornecedor. Não há contratos de longo prazo: predomina o curto prazo. Esta é a maior dificuldade em viabilizar logística mais eficaz para a exportação.
"Faltam contratos e planejamento de longo prazo", diz José Maria Ribeiro de Almeida, diretor comercial da Brasil Ferrovias. O pouco trânsito de álcool pela ferrovia tem como origem e destino o interior de São Paulo, das áreas de produção à Paulínia. Isso não por falta de oportunidade.
A BF fez um estudo sobre o posicionamento das usinas produtoras de açúcar e álcool e constatou o óbvio. Há carga para exportação. O que não existe é um plano. O estudo diz que a exportação de álcool para Santos a partir do interior paulista, numa visão conservadora, seria 2,4 bilhões de litros na safra 2006/2007 (+ 362%).
São Paulo, principal centro produtor, tem 81 usinas a distâncias superiores a 400 km de Santos e 80 km da linha férrea, diz Almeida. Assim, indica o estudo, a ferrovia é competitiva em custo com o modal rodoviário. Mas, para a demanda estimada da safra 2006/2007, o investimento só em material rodante (locomotivas e vagões) é de US$ 66 milhões.

OESP, 06/02/2005, Economia, p. B5

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