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O Proálcool renasce

CB, Brasil, p. 14
20 de nov de 2005

O Proálcool renasce
Programa brasileiro de combustível alternativo ao petróleo, dado como sepultado no final dos anos 80, ressurge com regras de mercado graças à tecnologia que criou o carro bicombustível

O governo brasileiro criou o Proálcool, um ousado programa de incentivo ao consumo do combustível derivado da cana-de-açúcar, há 30 anos. Seu objetivo era reduzir a dependência do país em relação ao petróleo, cujos preços no mercado internacional começavam a disparar.
De promissor, o programa acabou naufragando a partir de meados da década de 80, quando o governo cortou o financiamento aos pequenos produtores e faltou combustível nas bombas.
O resultado foi devastador. Depois de responder por quase 95% das vendas em 1984, os carros movidos a álcool perderam espaço até, no início desta década, serem reduzidos a apenas 1% das vendas totais.
Passadas três décadas, o setor sucroalcooleiro do Brasil vive sua segunda fase de expansão. Agora, o preço do petróleo também alimenta essa corrida, mas a ameaça de escassez do combustível fóssil impõe um ritmo ainda mais frenético à busca pela expansão do etanol, como o álcool é chamado no restante do mundo. Estima-se que as reservas mundiais de petróleo durem no máximo 30 anos. Por ter baixo custo de produção, não poluir o ambiente e ser renovável, o álcool desponta como o combustível mais viável para substituir o petróleo no curto prazo. E, nessa corrida, o Brasil lidera com folga.
Maior produtor mundial, o país responde por um em cada três litros produzidos em todo o globo. O país, que também domina 50% do comércio internacional de álcool combustível, começa a chamar a atenção do mundo. Na busca da tecnologia para produzir álcool em escala industrial, o Brasil é o exemplo a ser seguido. Aqui, o combustível está disponível na rede de abastecimento a preços competitivos.
Nas usinas brasileiras, o custo de produção de um litro de álcool equivale a menos da metade do gasto nos Estados Unidos ou na Europa. Além disso, o país também domina a tecnologia para produção dos veículos bicombustíveis, capazes de rodar tanto com álcool quanto com gasolina. Aliadas às condições climáticas dos trópicos, essas características colocam o Brasil no topo da pirâmide.
"Por dominar como ninguém a tecnologia do álcool, o Brasil é visto em todo o mundo como uma real alternativa ao petróleo. Temos potencial para nos transformarmos na maior potência energética do planeta", aposta o engenheiro José Walter Bautista Vidal, ex-secretário de Tecnologia Industrial e principal mentor do Proálcool na década de 70. "A conjuntura mundial, com altos preços e ameaça de escassez de petróleo, é extremamente favorável ao Brasil, que precisa aproveitar esse momento", reforça.
O país deve fechar o ano com quase 17 bilhões de litros de álcool, o dobro da produção registrada no auge do Proálcool. As 300 usinas em operação no país estão perto do limite, mas pesados investimentos devem garantir o contínuo aumento da produção. De acordo com Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), existem hoje 50 projetos de novas usinas em andamento no país. Doze entram em funcionamento no próximo ano, 25 em 2007 e outras quatro em 2008.
Os outros nove projetos ainda estão no início, mas devem ser maturados até 2010. Somados, os investimentos alcançam US$ 7 bilhões. "A capacidade de produção deve crescer 30% até 2010, atendendo ao crescimento tanto da demanda interna quanto da externa", garante Rodrigues.
Potencial
Espaço para crescer é o que não falta. Atualmente, a área de plantio de cana-de-açúcar é de 6 milhões de hectares. Mas, segundo levantamento realizado pelo Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), existem ainda cerca de 90 milhões de hectares agricultáveis no país, área equivalente aos territórios de França e Espanha juntas. "Além de espaço e condições climáticas favoráveis, temos a melhor tecnologia do mundo. Até a energia gasta nas usinas é tirada do bagaço da cana, o que barateia o custo de produção", diz Rodrigues.
A produção mundial de álcool está na casa dos 40 bilhões de litros, mas apenas 10% são movimentados pelo comércio internacional. "Existe um movimento forte de incentivar os países a produzir e utilizar álcool como combustível puro ou misturado à gasolina. O potencial de crescimento desse mercado é enorme", afirma o diretor técnico da Unica. "O Japão, por exemplo, fala em adicionar 3% de álcool à sua gasolina. Só isso representaria uma demanda de 1,8 bilhão de litros por ano, o equivalente quase à metade do comércio mundial hoje", exemplifica.
Um dado mostra o potencial de crescimento do álcool combustível. Em todo o mundo, o etanol responde por 2,6% da matriz de combustíveis automotivos.
No Brasil, do total de combustíveis consumidos por veículos de passeio, 40% são de álcool - aí incluídos os carros movidos a combustível verde e a lei que determina a mistura de álcool à gasolina, na proporção de 25%. De olho nesses números, vários países entraram na corrida do álcool. Na América Latina, Paraguai, Colômbia, Guatemala, El Salvador e República Dominicana já produzem o combustível. Na África, há pelo menos quatro países interessados. Índia, Tailândia e Austrália também já estudam programas de incentivo ao álcool.
Depois de responder, no auge do Proálcool, por mais de 90% da produção nacional de veículos, os modelos a álcool praticamente saíram de cena. Até o início de 2003, as vendas oscilaram em torno de 1% - eram carros destinados a frotistas e taxistas. A guinada teve início em março daquele ano, quando surgiu o primeiro modelo bicombustível, o Gol Totalflex. A tecnologia permite rodar com álcool ou gasolina - ou mesmo com a mistura dos dois, em qualquer proporção. Estava sepultado o principal temor dos consumidores: o medo de, em caso de falta de álcool nos postos, como ocorrera nos anos 80, ficar com o carro parado na garagem. Desde então, os modelos bicombustíveis registraram um crescimento vertiginoso e hoje dominam as vendas.

CB, 20/11/2005, Brasil, p. 14

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