O Globo, Economia Verde, p. 25
Autor: VIEIRA, Agostinho
18 de Abr de 2013
O preço do almoço
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Ninguém tinha dúvida de que essa refeição sairia cara. Há anos a temperatura do planeta vem aumentando, as secas se tornaram mais intensas e as enchentes mais frequentes. Recursos tidos como ilimitados começaram a escassear e as doenças provocadas pela poluição passaram a ser a quarta maior causa de morte. Mas faltava um número. Quanto está custando esse crescimento desordenado?
A cifra é impressionante: US$ 4,7 trilhões. O equivalente a mais de duas vezes o tamanho do PIB brasileiro em 2012, que alcançou a marca de US$ 2,2 trilhões ou R$ 4,4 trilhões. Os dados fazem parte do último estudo sobre Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade (TEEB, na sigla em inglês), e foram divulgados pela ONU, na segunda-feira, em Nova Délhi, na Índia. Ele considera os impactos negativos que 500 atividades econômicas vêm causando ao meio ambiente todos os anos.
Os principais vilões desta história são a extração e o consumo de carvão na Ásia e a pecuária na América do Sul. Liderada pela China, a produção de carvão tem sido um negócio muito lucrativo, com resultados da ordem de US$ 440 bilhões. Porém, de acordo com as Nações Unidas, o impacto desta atividade para a natureza e para os habitantes do planeta superou os US$ 450 bilhões.
A pecuária no Brasil e nos países vizinhos vem logo a seguir, com prejuízos ao meio ambiente que superam os US$ 350 bilhões. Os principais fatores neste caso seriam os problemas causados ao abastecimento de água, o desmatamento na região amazônica e as emissões de gás metano. Nos seus cálculos, o TEEB utiliza modelos matemáticos que contabilizam os 100 impactos ambientais mais relevantes. Entre eles, a emissão de gases de efeito estufa, a produção de resíduos, a contaminação do solo e da água, a poluição atmosférica e o consumo de recursos naturais.
O próprio diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, admite que transformar a degradação ambiental em números não é uma tarefa fácil. Mas, para ele, estes dados mostram a urgência com que o problema precisa ser enfrentado e as oportunidades que existem para as empresas e os países que optarem por seguir o caminho de uma economia verde.
E é exatamente esse paradoxo entre ameaça e oportunidade que deve marcar o cenário econômico deste século. Um relatório divulgado pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) mostrou que a China sozinha foi responsável por 68% do aumento das emissões de carbono entre 2000 e 2010. Já no consumo de petróleo e carvão, 80% de todo o crescimento mundial ficou por conta dos chineses.
Por outro lado, são da China os maiores investimentos em energia renovável. Um crescimento de 661% na última década. As ações do país para fechar termelétricas ineficientes resultaram numa economia de 100 toneladas de carvão. É fato que os movimentos chineses estão muito mais ligados à coluna de oportunidades do que a uma eventual preocupação com as ameaças climáticas. Isso vale para o investimento em carvão, que aquece a economia, e vale também para as apostas em energia renovável. Uma ótima oportunidade de negócio.
O mesmo acontece com os EUA, que fecharam o ano de 2012 com 5,3 bilhões de toneladas de CO2 emitidas pelo setor elétrico. O menor número desde 1994. Entre as razões da queda não estão o charme e os discursos do presidente Obama. O destaque é para o uso de gás de xisto na geração de energia. Uma fonte abundante, barata e ainda muito discutível do ponto de vista ambiental.
Na verdade, a pergunta de alguns bilhões de dólares continua sendo: "Como fornecer energia e transporte para 10 bilhões de indivíduos em 2100 sem transformar a vida do planeta num inferno?". Mais uma vez, chineses e americanos lideram essa corrida. Com pesquisas na área de fusão e fissão nuclear, uso de combustíveis novos e muito dinheiro envolvido. Inclusive do Bill Gates, que sonha com um milagre energético.
Enquanto isso, a proposta de limitar o aquecimento global a dois graus Celsius torna-se cada vez mais improvável. A meta, estabelecida em 2010 por representantes de quase 200 países, parece ter sido esquecida. Agora já se fala em "emissões negativas" e captura de carbono. Não basta mais reduzir o volume de lançamentos, será preciso retirar o dióxido de carbono que já foi lançado. Neste jogo de ameaças e oportunidades, fica uma certeza: o almoço ainda vai custar muito mais caro.
O Globo, 18/04/2013, Economia Verde, p. 25
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