OESP, Economia, p.B7
28 de Mar de 2004
O 'petróleo' verde jorra no interior do Piauí Projeto de produção de biodiesel de mamona vira realidade numa região semi-árida
CARLOS FRANCO Enviado especial
CANTO DO BURITI (PI) - A mamona, fruto esférico e espinhento usado por crianças para brincar de estilingue ou boladeira, é a mais nova esperança de propagação de renda no Estado do Piauí, um dos mais pobres do País, ao lado do Ceará. Processada, a mamona se transforma em biodiesel, o diesel verde e ecologicamente correto. Mais: nessa transformação, a mamona produz glicerina, que a indústria da beleza usa em cremes e sabonetes.
É essa esperança de progresso que levou o agricultor Vilmar Santos da Silva, de 37 anos, a abandonar o roçado que tinha na cidade de Canto do Buriti, a 435 quilômetros de Teresina, para batalhar a vida no projeto de produção de mamona da Fazenda Santa Clara, na mesma região. Este é o primeiro de um total de 6 projetos - 4 deles no Piauí e 2 no Ceará - que deverão transformar o Nordeste em grande produtor de biodiesel.
Cada projeto desses demanda investimento de R$ 15 milhões para o cultivo de uma área aproximada de 52 mil hectares, sem incluir o custo das usinas de produção do biodiesel. Pelo menos é esse o tamanho do projeto Fazenda Santa Clara, onde Vilmar, sua mulher Lucilene e os filhos Bruno (7 anos) e Leane (2 anos), ocupam a casa e o lote D-29, de uma das 10 células de produção.
Cada célula tem 35 casas, no fundo das quais estão 25 hectares para cultivo.
Desse total, 15 hectares estão reservados para a produção consorciada de mamona com outra plantação - a maioria optou por feijão.
A família de Vilmar recebeu, além da casa e o lote de terra, 7,5 hectares já plantados com mamona da Brasil EcoDiesel, empresa que se comprometeu a comprar a produção deles por 10 anos. A empresa investiu até agora R$ 15 milhões para criar as condições ideais de produção, incluindo as casas, o plantio inicial, mais um centro comunitário, com escola, posto médico e odontológico, mercado e até agências dos Correios e do Banco Postal do Bradesco.
O contrato dos agricultores com a Brasil EcoDiesel tem duração de dez anos, ao término dos quais eles recebem a casa e a terra. O contrato com a empresa pode ou não ser renovado. Nessa primeira safra, a empresa se comprometeu a comprar o quilo da mamona a R$ 0,36. Como a produtividade esperada é de 1,5 tonelada por hectare, isso significa que se os 7,5 hectares de Vilmar tiverem essa produção, ele terá renda mensal de R$ 350. Valor que dobrará quando, em 4 anos, 15 hectares estiverem produzindo mamona.
Modelo único - Do valor a ser pago na primeira safra, no entanto, Vilmar terá de descontar o salário mínimo, na forma de adiantamento, que a Brasil Ecodiesel paga a ele e aos outros agricultores assentados no projeto até a colheita, prevista para junho. Visto do alto, o projeto lembra as aldeias indígenas. São 10 circunferências enormes, em volta das quais estão as 35 casas - algumas em construção e outras ainda no papel.
Esse modelo da Fazenda Santa Clara é único. De um lado, o governo do Estado, que desapropriou para fins de reforma agrária a Fazenda Santa Clara, alvo de ocupações pelo Movimento dos Sem-Terra (MST), e de outro a empresa privada Brasil EcoDiesel, do empresário gaúcho Daniel Birman, de 52 anos, numa parceria que também envolve os ministérios de Minas e Energia, do Desenvolvimento Agrário e do Desenvolvimento Social e de Combate à Fome.
Birman, que até os anos 80 controlava dezenas de empresas, a exemplo da Caraíba Metais, Marcopolo, Ficape e Banco Arbi, tenta com esse projeto visionário voltar ao centro das decisões econômicas.
Cada qual na sua área, os ministérios se comprometeram a apoiar o projeto. E se o agricultor Vilmar espera crescer com o cultivo da mamona, a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, acredita que o biodiesel será a oportunidade para o País reduzir as importações de diesel, hoje em 30% do total consumido. Mais: é energia limpa de fonte renovável. Até o final do ano, Dilma promete determinar a quantidade de biodiesel a ser misturada ao diesel. A idéia é transformar a mamona numa espécie de Proálcool. Hoje, o álcool combustível está presente em 25% da gasolina vendida no País.
O governador do Piauí, Wellington Dias, enfrentou resistência ao modelo por parte do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, que não gosta da idéia de reforma agrária privada. Dias conta, porém, que o ministro acabou dando força ao projeto ao entender que as terras são públicas e a infra-estrutura e garantia de compra, privadas.
O agricultor Aglésio Pereira da Cosa, de 21 anos, que militou no MST, percebeu antes do ministro que o projeto deverá resultar em renda para a família dele. "Isso aqui é o futuro, pretendo viver toda a minha aqui", disse, com a concordância da mulher, Zélia. Ele também gostou de ser chamado de "petroleiro verde" pela ministra Dilma, na última quarta-feira, na inauguração oficial do projeto Fazenda Santa Clara. "Então vamos vender mamona para a Petrobrás?" É quase isso.
OESP, 28/03/2004, p. B7
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