OESP, Vida, p. A14
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
29 de Dez de 2005
O Pantanal não é mais o mesmo
Marcos Sá Correa
O Brasil fecha 2005 com o diploma de que está fazendo o possível para riscar do mapa o Pantanal até 2050. O esforço começa na Bacia do Alto Paraguai, de onde vêm as águas que montam um dos maiores espetáculos de vida selvagem ainda em cartaz no planeta. Rio acima, nada menos de 59 municípios já acabaram com a vegetação nativa em mais da metade de seus territórios.
Mas essa é só a média regional. E a média, como simplificação estatística, não conta tudo o que acontece. Não diz, por exemplo, que 22 municípios ultrapassaram os 80% de desmatamento. E 19 estão além dos 90%, a porcentagem simbólica que marca a fronteira da extinção de uma paisagem nativa. Isso no planalto mato-grossense. Na planície, onde fica o Pantanal, restam 83% da vegetação original. É bastante? Não, porque os índices de devastação estão subindo nesta década como uma nova modalidade de inundação.
Do patamar de 1,5% por ano em que se empoleiravam até 1993, saltaram agora para 2,3%. Como se ali as derrubadas não tivessem um obstáculo natural expressamente defendido pela Constituição como patrimônio do povo brasileiro. De todo o povo brasileiro, diga-se de passagem, e não só de quem vê naquele cenário o potencial econômico das hidrelétricas, hidrovias, mineradoras, plantações de soja, sem falar dos pastos de capim africano que vão rapidamente substituindo os campos nativos.
"Com base nessas informações", diz o relatório que a Conservação Internacional divulgou nesta semana, "pode-se prever que, dentro de pouco mais de 45 anos, a cobertura florestal do Pantanal terá desaparecido completamente". Mas o aviso chegou numa hora em que todo mundo está trocando cartões de boas-festas, embrulhado num dossiê de quase 50 páginas, com título sóbrio demais para azedar o réveillon - "Estimativa de perda da área natural da Bacia do Alto Paraguai e Pantanal Brasileiro". Chegou na entressafra dos incêndios na Amazônia, quando a estação das chuvas dá trégua aos satélites do INPE e cria uma miragem de paz na floresta. Além disso, encontrou um país farto de más notícias. Tem tudo para emplacar 2006 com gosto de panetone dormido.
O que será outro desperdício. Trata-se de documento assinado pela equipe de uma ONG que lançou há pouco um livro sobre essa "jóia da América do Sul". Os americanos não viam coisa igual em primeira-mão desde que o ex-presidente Theodore Roosevelt andou por lá há 90 anos, caçando na companhia do sertanista Cândido Rondon. Ilustrado pelo fotógrafo alemão Theo Allofs com enfáticas imagens de sua fauna, o livro parece o avesso do relatório. Um mostra ao mundo o que ele está perdendo ao adiar a descoberta da região pelo turismo internacional. O outro, o que os brasileiros tendem a perder, acabando com ela antes de aprender a explorá-la.
O inventário da Conservação Internacional nasceu do cruzamento de dados de sensores orbitais, capazes de ver mudanças do verde pantaneiro, com licenças para desmatamento. Revela que os municípios mais desmatados são também os que mais concedem autorizações para derrubadas. Os recordes de devastação dificilmente coincidem com sinais de progresso nos índices de desenvolvimento humano. E adverte que "as maiores áreas licenciadas para desmate estão localizadas na planície". Ou seja, dentro do Pantanal. Dito isso, feliz ano-novo.
Marcos Sá Correa, jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)
OESP, 29/12/2005, Vida, p. A14
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