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O outro país também chamado Brasil

Marcos Sá Corrêa - http://marcossacorrea.com.br
Autor: Marcos Sá Corrêa
29 de Jul de 2010

Morar, mesmo que seja como hóspede, cidadão provisório, de passagem por um parque nacional, é como viver uma temporada no exterior. Só que esse exterior fica no interior do Brasil.

No parque, você ao mesmo tempo está no Brasil e fora dele. Seu Brasil é outro, o Brasil profundo, feito de retalhos do país original que ao nascer todos herdamos e ao viver vamos sempre perdendo aos poucos, de pedaço em pedaço, de queimada em queimada, de governo em governo, de notícia em notícia - como a notícia, por sinal alvissareira, de que a Polícia Federal e o Ministério do Meio Ambiente finalmente botaram a mão outro dia na quadrilha internacional que traficava com a caça clandestina de animais em extinção.

Ela está aqui de perto. Um dos presos é até vizinho do parque. Mora em Cascavel. Coleciona troféus. Os fiscais andavam de olho nele faz tempo. E, no entanto, ele sem dúvida mora em outro mundo, numa terra que nada tem a ver com este lugar em que o mais vago rumor de que podem ter nascido mais dois filhotes de onça pintada corre pelas trilhas como se fosse promessa de redenção.

Ao mesmo tempo, bem a seu lado, tem alguém esperando a hora de botar os últimos exemplares da espécie na lista das vidas raras que por isso valem mais no mercado de caçadores. E ele é brasileiro também. Mas o Brasil onde ele existe vai deixando depressa de ser o seu a cada dia que você passa no parque - freando o carro para os gambás atravessarem a estrada, tirando à noite do quarto as mariposas que as lâmpadas atraíram de noite e provavelmente se dormirem lá dentro amanhecerão espalhadas pelo chão, parando para esperar o momento em que infalivelmente uma borboleta enorpecida pelo frio da madrugada abrirá as asas para o primeiro sol.

Cada dia desses é um passo para olhar toda essa que atira, derruba, queima, constrói e diz besteiras sobre pererecas e outros bichos com a desenvoltura do presidente Lula são habitantes numerosos, hegemônicos, majoriotários de um país que também se chama Brasil, mas nunca poderá caber num parque nacional, enquanto houver um canto no Brasil para parques nacionais.

Deve ser por isso que há tantos projetos na política brasileira para revogar os parques nacionais. São projetos feitos de um povo que nunca poderá ser daqui, porque não pode ter isso aqui. Parque nacional é como onça viva - para quem gosta do que não tem. Porque sabe que só pode ter se acabar como eles.

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