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O nome da crise

O Globo, Opinião, p. 6
05 de Jun de 2009

O nome da crise

Não importa o destino do ministro Carlos Minc. Importa é como o Brasil conseguirá manejar com um tema fundamental para a Humanidade, o meio ambiente. Até hoje, o assunto tem sido malbaratado em Brasília, terra dos maniqueísmos, em que a preservação da natureza é colocada em oposição ao desenvolvimento e vice-versa. Trata-se de uma miopia que cobrará alto preço às gerações futuras: seja pela degradação em si do meio ambiente ou pela inexistência de obras importantes de infraestrutura, como as de geração de energia, barradas pelo radicalismo de um dos lados na disputa, os ecomilitantes.

A experiência de Minc no ministério, fique ou não no governo, resume o impasse que existe no Brasil oficial diante do tema. Deputado estadual do PT, secretário de Meio Ambiente de Sérgio Cabral, animal político, acostumado a negociações, ele foi convocado por Lula para dar flexibilidade ao ministério, convertido em trincheira por Marina Silva. E, como toda trincheira, imóvel. Na gestão Marina um aspecto da vida real foi desconsiderado: é imperioso o país explorar seu potencial hidráulico - fonte limpa de energia. Que os projetos sejam executados com os devidos cuidados com o ambiente, mas que sejam realizados. Afinal, não construir as usinas no Madeira e em outros rios amazônicos significa "sujar" a matriz energética brasileira com o uso de carvão e/ou óleo. Boicotar hidrelétricas, pois, atenta contra o meio ambiente, uma relação difícil de ser vislumbrada pela cegueira do ecorradicalismo. A abertura ao diálogo do ministro, entretanto, parece ter sido confundida com sinal verde ao desvario. Portanto, tem razão Minc de reclamar contra jogadas de bastidores e outros golpes que recebe dentro do próprio governo, e no Congresso, por quem considera preservação ambiental modernismo e "coisa de ONG". Não é. Pode-se discutir qual a real responsabilidade do Homem no aumento da temperatura da Terra, mas não se pode contestar que se deve reduzir as emissões de CO2. E o Brasil, por causa do desmatamento e queimadas na Amazônia e no Centro-Oeste, é um dos dez que mais contribuem para essas emissões no mundo. Mais: sem uma ação coordenada dentro do poder público, pois o combate a causas do problema depende dele - da vigilância dos assentamentos do Incra ao controle do avanço da pecuária sobre a floresta -, a tragédia ambiental continuará.

Carlos Minc subiu a voz contra ministros e parlamentares talvez por ter percebido o isolamento político que vive em Brasília. O chefe, presidente Lula, parece executar nas conversas privadas de gabinete a mesma coreografia encenada nos palcos e auditórios, onde fala aquilo que plateias e interlocutores querem ouvir. Minc já deve ter achado que recebia apoio incondicional de Lula, e percebido depois que o mesmo é dito a todos. Inclusive a quem se lixa para o meio ambiente. Ontem, saiu animado de uma conversa com Lula. A ver. Como analisou um ex-ocupante da cadeira de Minc, Gustavo Krause, ministro de FH entre 1995 e 98: o meio ambiente é uma questão central para a Humanidade e periférica para os governos brasileiros. E assim o tema fica sobre os ombros de uma pessoa apenas, o ministro. Todos os demais não dão bola para o assunto, quando o desenvolvimento sustentado deveria ser responsabilidade de Estado. A crise em torno de Minc se refere a algo mais importante que o futuro de um ministro.

Tem a ver se o Estado brasileiro entende mesmo o que significa meio ambiente. Tudo indica que até hoje não entendeu do que se trata.

O Globo, 05/06/2009, Opinião, p. 6

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