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O mundo precisa da liderança latino-americana na crise climática

O Globo, Opinião, p. 3
Autor: SANTOS, Juan Manuel
28 de out de 2019

O mundo precisa da liderança latino-americana na crise climática
A resposta da nossa região deve ser coletiva e coesa

Juan Manuel Santos

A Amazônia é o pulmão do mundo e não podemos deixar que ela entre em colapso. Os incêndios que devastaram a floresta tropical este ano chocaram o mundo inteiro. Eles foram um exemplo terrível e vívido dos perigos do desmatamento que podem exacerbar os riscos da mudança climática.

Trinta e quatro milhões de pessoas vivem na Amazônia e dependem de seus recursos. No entanto, o mundo todo está ameaçado pela perda de seus recursos naturais e biodiversidade.

Se as tendências atuais persistirem, o desmatamento pode dobrar para 48 milhões de hectares até 2030.

Para os países da América Latina, os incêndios recentes ressaltam a responsabilidade ímpar da região por essa parte tão preciosa do Planeta Terra. Como presidente do meu país, eu sabia que era responsável não apenas pela população colombiana, mas também por seus recursos naturais, pois os dois são conectados de forma inextricável.

O desenvolvimento descontrolado e o desmatamento desenfreado podem trazer lucros em curto prazo para uma elite privilegiada, mas traem as pessoas que vivem nas florestas e as gerações futuras de todos os latino-americanos.

É por isso que os líderes de hoje devem dar os passos audaciosos e radicais necessários para acabar com os incêndios, proteger os direitos das comunidades indígenas - que conhecem as riquezas amazônicas melhor do que ninguém - e trabalhar em direção a um novo modelo de desenvolvimento econômico sustentável e resistente ao clima.

Todos os governos e demais partes envolvidas, de empresas e sindicatos a agricultores e investidores, precisam reconhecer a ligação entre os principais desafios no que diz respeito à paz e à justiça globais: mudança climática, pobreza, migração e segurança.

Isso inclui a comunidade internacional, que deve se mobilizar de maneira muito mais rápida para alcançar até 2020 os US$ 100 bilhões de financiamento anual necessários para apoiar as iniciativas de países em desenvolvimento, um montante que foi prometido há uma década, mas que ainda não se materializou na íntegra.

A crise climática exige liderança, mas não no molde do "homem forte" que tantas vezes vemos em nosso continente. Em vez disso, a situação requer um espírito de inclusão e humildade, requer ouvir as vozes tanto dos movimentos de base quanto dos especialistas, aceitar ajuda externa quando isso fizer a diferença e criar espaço para que a nova geração também possa exercer seu papel.

É por isso que o Sínodo da Amazônia organizado pelo Papa Francisco em Roma não poderia ter vindo em melhor hora. Nos últimos anos, o Vaticano tem oferecido uma forte liderança climática, usando o poder da Igreja e sua influência em nossas sociedades para destacar a gravidade da mudança climática e a necessidade de uma resposta radical, centrada nas pessoas e que respeite os direitos humanos.

Conforme expresso pelo Papa Francisco de forma memorável em sua marcante Encíclica "Laudato Si", de 2015, "precisamos de um debate que inclua todas as pessoas, já que o desafio global que estamos enfrentando e suas raízes humanas envolvem e afetam todos nós; precisamos de uma nova forma de solidariedade universal".

Nesse espírito de envolvimento e solidariedade, peço ao Brasil, como "guardião" da Amazônia, que retorne à inspiradora liderança em mudança climática que demonstrou nas décadas passadas, desde a ECO-92 até o Acordo de Paris de 2015.

Não é exagero dizer que, sem ações urgentes e radicais, não passaremos um planeta habitável para as futuras gerações. Isso levaria a conflitos ainda mais devastadores e migrações forçadas em larga escala devido à escassez crescente dos recursos, ao aumento do nível do mar e à destruição de terras aráveis e meios de subsistência pelas secas.

Com base nas poderosas discussões do Sínodo da Amazônia, os líderes do Brasil e de outros países latino-americanos precisam ouvir as suas populações e aprender com suas experiências na linha de frente da crise climática, incluindo as centenas de milhares de alunos que tomaram conta das ruas exigindo ações urgentes para proteger seu futuro.

A resposta da nossa região deve ser coletiva e coesa. Não precisamos reinventar a roda; simplesmente temos que reavivar algumas estruturas e instituições multilaterais que foram estabelecidas por gerações passadas de líderes, tais como o Tratado de Cooperação Amazônica de 1978, que foi formalizado na forma da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica. Esses mecanismos oferecem plataformas de cooperação e diálogo, e são uma forma de resolver conflitos que afetam nossas populações e a rica biodiversidade da qual todos nós dependemos.

O mundo está de olho e o tempo está se esgotando. Em dezembro, o Chile será o anfitrião da COP 25. Essa convenção será uma grande oportunidade para demonstrarmos a liderança latino-americana e servirmos de exemplo para outros líderes globais.

Juan Manuel Santos é ex-presidente da Colômbia e membro do The Elders, grupo independente, fundado por Nelson Mandela, que congrega líderes globais

O Globo, 28/10/2019, Opinião, p. 3

https://oglobo.globo.com/opiniao/o-mundo-precisa-da-lideranca-latino-am…

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