JB, Sete Dias, p.A22
13 de Mar de 2005
Sete dias
Augusto Nunes
O ministro que se perdeu na selva
Dispostas a reeleger o governador Jarbas Vasconcelos, multidões de eleitores pernambucanos impuseram nas urnas uma pesada derrota ao candidato petista Humberto Costa. Disposto a demonstrar que "altos companheiros" merecem nesses momentos o emprego que consola, um punhado de grandes eleitores, chefiados por Lula da Silva, decidiu que quem não fora considerado pronto para governar Pernambuco seria um bom ministro da Saúde para todos os brasileiros. Deu no que deu.
Em dois anos, seguido de perto por outras flores da inépcia, Costa se manteve no topo da lista dos piores do novo governo. Voz abaritonada no limite da estridência, olhar de maior abandonado, provocou escoriações generalizadas num ministério em bom estado. As agressões à sensatez incluem nomeações de amigos desonestos, desvios de verbas, crises em hospitais de ponta ou centros de pesquisa, além de falhas assassinas nos planos de combate à Aids e assistência a portadores de doenças crônicas.
Colecionador de desastres em cenários urbanos, Costa acaba de se perder na selva. Os país nem sabia que cumpre ao ministério prestar assistência às tribos. Só agora descobriu, por exemplo, que a distribuição de medicamentos cabe à Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
Em meio a ondas de indignação provocadas pela morte em série de crianças indígenas, vítimas da desnutrição associada à incompetência dos governos, emergiram informações perturbadoras. Apoiado em números oficiais, o líder do PFL no Senado, José Agripino, revelou que a Funasa gasta mais em viagens que em medicamentos para as tribos. Com o emprego ameaçado pela iminente reforma ministerial, Costa perdeu o juízo. E soltou a frase estarrecedora.
"As mortes das crianças indígenas estão dentro do número normal", declamou. Tecnicamente, não está mentindo. O índice de mortalidade infantil entre indígenas atinge quase o dobro da média nacional. Apesar das estatísticas que indicam quedas nessa taxa brutal, no Brasil ainda se morre muito e muito cedo. Mas os indígenas morrem mais. Costa esqueceu que nenhum ser humano é um número. Nas aldeias, não ocorrem desaparecimentos de algarismos. Estão sucumbindo à fome bebês e meninos. Essa gente perdeu a terra. Perdeu a identidade cultural. Perdeu o horizonte. Agora está perdendo a vida.
Se refletisse sobre tais obviedades, o ministro trataria de juntar-se ao esforço para extirpar o vergonhoso tumor que atormenta matas amputadas. Mas Costa considera suficiente manter os números nos patamares atuais. Num país desprovido de qualquer vestígio de política indigenista, com tribos demais para tão pouca terra, seria injusto levar sozinho ao cadafalso o homem da saúde. A culpa é dos governos. A culpa é nossa.
Mas a frase não pode ficar impune. Há tempos, Millôr Fernandes inventou o Ministério das Perguntas Cretinas. Como não costuma abandonar companheiros, Lula poderia criar o Ministério das Respostas Idiotas e nomear Humberto Costa para chefiá-lo. O governo teria a figura certa no lugar certo. E abriria uma vaga muito cobiçada. O favorito do momento é Ciro Gomes, atual ministro da Integração Nacional. Tabagista compulsivo, Ciro avisou que deixará de fumar "facinho, facinho" caso seja mesmo o escolhido. A sede de poder costuma ser mais convincente que conselhos médicos e advertências reiteradas pelo próprio Ministério da Saúde.
JB, 13/03/2005, p. A22
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