O Globo, Rio, p. 22
26 de Mar de 2006
O milagre do renascimeto no meio do lixo
Manguezal é recuperado e volta a atrair animais junto ao aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias
O cenário, à primeira vista, não é nada aprazível. E o endereço causa estranheza: Jardim Gramacho, Duque de Caxias, vizinhança do aterro sanitário. Mas quem já esteve na área de 1, 3 milhão de metros quadrados - dos quais 220 mil replantados pelo Projeto de Recuperação do Manguezal de Gramacho - voltou de lá com a impressão de ter descoberto um pequeno milagre no meio do lixo. Vizinho ao aterro, que recebe diariamente mais de 8 mil toneladas de dejetos, o lugar aos poucos vem virando ponto turístico, atraindo estudantes do ensino médio e fundamental, jovens universitários e até visitantes estrangeiros. Ano passado, duas mil pessoas estiveram por lá, vendo de perto o renascimento de parte da área de manguezal da Baía de Guanabara.
Uma passarela para observar a fauna
A maior atração do inusitado ponto turístico é uma passarela de dois quilômetros - construída com madeira reciclada retirada do lixão - que leva o visitante da entrada do aterro sanitário até a beirada da Baía de Guanabara. No caminho, pode-se avistar espécies da fauna típica dos manguezais: caranguejos, socós e até capivaras costumam freqüentar o mangue da Baixada Fluminense. Entre a flora, muitas árvores de mangue vermelho, mangue negro e mangue branco.
O roteiro ecológico na terra do lixão é acompanhado por guias, que falam da importância do ecossistema e tiram dúvidas. No começo do passeio, é exibido um vídeo, no Centro Ambiental, sobre a evolução do projeto de recuperação.
- As visitas são marcadas. E costumam fazer muito sucesso principalmente entre os universitários. Já recebemos também ambientalistas da América Latina, que vieram conhecer o projeto - conta Lúcio Viana Alves, coordenador de Projetos da Comlurb, que costuma acompanhar os passeios na área.
Mesmo para moradores da região, o paraíso ecológico na vizinhança do lixão é surpresa. A inspetora de alunos Adriana Constantina de Souza, que vive em Jardim Gramacho desde que nasceu, nunca imaginou encontrar ali um espaço verde.
- Quando a gente vê de fora, não dá nada. Nem imagina que é tudo tão bonito aqui dentro - conta Adriana, que na quinta-feira passada acompanhou 15 estudantes da Escola Municipal Mauro de Castro e da Escola ABC da Alegria, de Jardim Gramacho, numa excursão pelo manguezal.
A aluna Jessica Silva, de 12 anos, que vive e estuda no Jardim Gramacho, também ficou surpresa:
- Eu achei que aqui só tinha lixo. Adorei ver tantos bichos - disse ela.
Se hoje causa encantamento, há dez anos a área de manguezal de Gramacho, situada num terreno da Comlurb, era totalmente degradada.
- O principal erro foi do passado, quando se construiu um aterro sanitário em cima de uma área de manguezal. Desde 1995, vêm sendo realizadas obras para tornar o local um aterro controlado, resgatando o passivo ambiental. Hoje, a área de manguezal recuperado é a mesma do aterro sanitário: 1,3 milhão de metros quadrados, dos quais 220 mil foram replantados - explica o biólogo Mario Moscatelli, que é responsável pelo projeto de revitalização do mangue de Gramacho.
Para ressuscitar a área, explica Moscatelli, foi feito um isolamento do aterro com a construção de uma estrada, para impedir que o chorume (resíduo gerado pela decomposição do lixo) entrasse em contato com o mangue.
- Foi feita também uma vala, que passou a recolher este chorume, em seguida tratado na estação de tratamento. Antes era tudo despejado no mangue. A partir do momento que se começou a frear este lançamento de chorume, em seis meses o manguezal começou a reagir - diz Moscatelli, que trabalha com um equipe de seis pessoas.
Barreiras de madeira, com 2,5 quilômetros de extensão, impedem que o lixo vindo da Baía de Guanabara polua o mangue e destrua todo o trabalho de recuperação. E às margens do manguezal aparece de tudo: sofás, fantasias de carnaval e até cadáveres.
- Hoje, o trabalho maior consiste em impedir que o lixo das águas da baía invada o mangue - diz José Henrique Penido, assessor da Diretoria Técnico-Industrial da Comlurb, acrescentando que o custo anual do projeto é de R$ 200 mil.
O Globo, 26/03/2006, Rio, p. 22
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