O Globo, História, p. 36
27 de Abr de 2013
O médico dos índios
Pioneiro na causa indígena, Noel Nutels, que completaria 100 anos esta semana, enfrenta o esquecimento
Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br
Um reconhecido sanitarista e defensor dos índios; um debochado contador de piadas, que fez de sua casa um quartel-general da cultura brasileira. As duas facetas de Noel Nutels, que comemoraria seu centenário esta semana, apagam-se com o tempo. Os órgãos públicos em que ele trabalhou esqueceram-se da data. E a família, paralisada com a falta de recursos, não consegue erguer um instituto que preservaria a memória do médico. Diversos documentos que contam sua história e, por extensão, da causa indígena no país, mofam nas gavetas de seu antigo apartamento em Laranjeiras.
O médico morreu com 59 anos, em 1973. Sua trajetória esbarra constantemente em acasos. O primeiro foi a decisão de seu pai, Salomão, de trocar a Ucrânia pelo Brasil em 1912, quando sua mulher, Bertha, ainda estava grávida. Salomão estava convicto de que seu destino era um país onde o chão estava "coberto de diamantes, era só curvar e pegar", como anotou em um diário.
Bertha e o recém-nascido Noel ficaram mais nove anos na Europa sacolejada por confrontos. Judeus, enfrentaram o movimento antissemita. Viram a Ucrânia, sua terra natal, ser destruída na Primeira Guerra Mundial, e depois partilhada durante a Revolução Russa.
O primeiro endereço de Noel no Brasil foi São José da Laje, no interior de Alagoas. Para cursar a faculdade de Medicina, ele mudou-se, com a mãe, para Recife. Bertha abriu uma pensão que logo tornou-se ponto de encontro de intelectuais, como o escritor Rubem Braga e o compositor Fernando Lobo.
Em 1936, Noel concluiu o ensino superior, especializando-se no estudo da tuberculose, uma das doenças que mais vitimavam pobres no país. Mudou-se para o Rio, então capital federal, e descobriu que não poderia entrar no serviço público: ainda não havia se naturalizado brasileiro.
De "Inutels" ao Centro-Oeste
Enquanto esperava a documentação, o ainda ucraniano estreitou seus laços com a boemia. Casou-se com a prima Elisa e cercou-se de artistas e escritores. Sua fama e a falta de emprego transcendiam seu círculo íntimo. A ponto de o jornalista Joel Silveira, ao ser apresentado a Noel Nutels, chamá-lo de "Noel Inutels". A provocação foi respondida com um soco na cara. Ainda assim, tornaram-se melhores amigos.
Os primeiros anos de Noel no Rio foram de conta no vermelho. O casal juntava-se a amigos em visitas esporádicas ao Cassino da Urca, onde sempre fingiam que um deles fazia aniversário, tendo direito, assim, a um bolo de graça. Noel, mais tarde, iria se referir a este período como o mais feliz de sua vida.
Nos anos 40, ele participou da Expedição Roncador-Xingu, ligada à Fundação Brasil Central, e embrenhou-se junto ao Marechal Cândido Rondon numa marcha ao quase inexplorado Centro-Oeste. Era o médico de uma missão que deveria levar cabos de topografia ao interior do país. Conheceu no caminho os irmãos sertanistas Villas-Boâs - Leonardo, Cláudio e Orlando - e adotou a causa indígena.
Este grupo foi o responsável, em 1956, pela criação do Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas (Susa), a menina dos olhos da carreira de Noel.
- Ele usava a infraestrutura do correio aéreo para chegar a cidades onde não havia assistência médica - lembra Bertha Nuels, filha única de Noel. - Até o Susa, muitas pessoas doentes, com febre ou varíola, tinham contato com os índios e os contaminavam. O projeto montou tendas para vacinar os índios e examinar os brancos antes que eles prosseguissem suas visitas.
Outra vitória de Noel e dos Villas-Bôas foi a criação do Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, aprovada pelo presidente Jânio Quadros, em 1961. Foi a primeira terra indígena homologada pelo governo federal.
- Além do parque, Noel viajou diversas vezes para cidades como Xique-Xique e Bom Jesus da Lapa, na Bahia, que recebiam romarias - destaca Stella Penido, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e autora de uma tese de mestrado sobre Noel. - Estas reuniões de diversas tribos eram o momento ideal para oferecer assistência médica a elas.
Em 1963, Noel foi nomeado diretor do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), substituído em 1967 pela Fundação Nacional do Índio (Funai).
- Meu pai sofreu muito nos seis meses em que esteve à frente do SPI - recorda Bertha. - Era um órgão sugado pela corrupção, onde fazendeiros subornavam funcionários para tomarem posse de terras indígenas onde haveria minérios. Havia até latifundiários que pediam proteção dos índios, justamente o povo que o órgão deveria defender.
Quando a Funai foi criada, Noel e Orlando Villas-Bôas foram chamados para participar de seu conselho consultivo. A nova fundação não empolgou os indigenistas.
- Meu pai fazia a comparação do índio brasileiro com o judeu. A comunidade judaica existe até hoje porque soube preservar sua cultura. O índio não conseguiu fazê-lo - lamenta Bertha. - Um povo sem cultura é marginalizado.
Noel morreu no dia 10 de fevereiro de 1973. Para trabalhar com - e para - os índios, adoeceu constantemente, passou seis meses por ano longe da família e penhorou as joias da mulher para viajar. Bertha quer construir um instituto dedicado ao pai, mas sequer sabe que órgão público procurar. Na papelada está a jornada do indigenista, parte da qual é desconhecida até por ela.
Cinco dias depois de sua morte, Carlos Drummond de Andrade dedicou sua coluna no "Jornal do Brasil" ao amigo: "Valeu? Valeu a pena / teu cerne ucraniano / fundir-se em meiga argila brasileira / para melhor sentires / o primitivo apelo da terra".
O Globo, 27/04/2013, História, p. 36
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