O São Paulo, Campanha da Fraternidade, p. 12-13
08 de Mar de 2014
O maior remanescente contínuo de Mata Atlântica do Brasil está em São Paulo
Nayá Fernandes
nayafernandes@gmail.com
Apenas 7%! Da cobertura original do bioma Mata Atlântica só resta 7% em território brasileiro, de acordo com dados fornecidos por Raquel Pasinato, bióloga e coordenadora do Programa Vale do Ribeira, do Instituto Socioambiental (ISA). E, por falar em Vale do Ribeira, é justamente essa região que apresenta a maior preservação desse bioma (21% do total), configurando o mais importante corredor socioambiental da Mata Atlântica. "Por isso, a Unesco lhe conferiu o título de Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e Patrimônio Natural da Humanidade", explicou Raquel em entrevista ao O SÃO PAULO.
Isso aconteceu porque o Vale do Ribeira tem 45 Unidades de Conservação, que, somadas às terras indígenas e territórios quilombolas, contribuem para que a região seja o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica do Brasil.
"As Unidades de Conservação, criadas a partir da década de 1950, demonstram que ao longo dos séculos a ocupação do solo no Vale do Ribeira foi diferenciada do resto do Estado de São Paulo, o que resultou na conservação do bioma, paralelamente à existência de produção agrícola, comunidades rurais e municípios de pequena densidade demográfica", recordou Raquel.
A Mata Atlântica é um dos biomas brasileiros mais devastados pela urbanização, pois as maiores e mais densas cidades do país foram construídas nas áreas ocupadas por ele. A megalópole paulista é uma delas. Em relação à cidade de São Paulo, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) informou que os locais onde a Mata Atlântica está mais preservada, tanto em qualidade quanto em quantidade dos fragmentos dos diversos tipos de vegetação que a compõem, estão na zona sul da cidade, mais especificamente nas regiões das prefeituras regionais de Parelheiros e Capela do Socorro. Essa afirmação é resultado de estudos realizados no âmbito do Plano Municipal de Mata Atlântica (PMMA) e do mapeamento dos remanescentes de Mata Atlântica no território do município de São Paulo.
"Na porção norte do município, temos uma significativa quantidade [de Mata Atlântica] e, no extremo da zona leste, pequenos fragmentos do bioma podem ser identificados. Já nas áreas centrais, a carência é latente, restando pequenos fragmentos, geralmente integrantes de parques e áreas verdes, especialmente praças. O mapeamento mostrou que 30,4% do território municipal está coberto por remanescentes do bioma Mata Atlântica", afirmou a SVMA à reportagem.
Um vale mais que especial
São 12.256 km2 de vegetação original que ocupa, aproximadamente, 72% da área da Bacia do Ribeira. A Mata Atlântica, ali, permanece viva e é composta por diferentes categorias, entre elas a Floresta Ombrófila Densa, a Floresta Ombrófila Mista e a Floresta Estacional Semidecídua. A Ombrófila Densa ou Floresta Pluvial é um tipo de floresta sempre verde, com árvores de até 40 metros de altura, vegetação arbustiva, onde podem ser vistas samambaias, arborescentes, bromélias e palmeiras. O termo ombrófila indica uma floresta úmida, onde as chuvas são sempre bem-vindas. Já a Ombrófila Mista, também chamada de Mata das Araucárias, caracteriza-se pela presença da Araucária (pinheiro-do-paraná), com clima quente e úmido, e inverno frio.
Por fim, a Floresta Estacional Semidecídua contém duas estações climáticas bem demarcadas, uma chuvosa seguida de longo período seco e uma vegetação com características de Mata Atlântica e de Cerrado e plantas que perdem suas folhas dependendo da estação.
Além disso, o Vale do Ribeira abriga ecossistemas de Restinga e Manguezais - que têm solo arenoso e vegetação rasteira, e também ecossistemas insulares e ambientes de cavernas.
Segundo a Sociedade Brasileira de Espeleologia, a região tem 273 cavidades naturais cadastradas, sendo um dos maiores complexos de cavernas do Brasil.
Para além do Vale, contudo, pouquíssimas regiões do Estado têm áreas com fragmentos de Mata Atlântica. "O interior do Estado de São Paulo teve uma ocupação e uso do solo voltados à agricultura em larga escala, o que dizimou a floresta. Essas áreas degradadas causam sérios problemas, como a falta de água, e afetam a regulação climática. Por exemplo, a crise de água na cidade de São Paulo tem estreita relação com a degradação das florestas do Estado que ajudam a manter a produção de água dos rios e nascentes. O Estado necessita urgente da restauração florestal do bioma", afirmou a bióloga do ISA.
São Paulo abriga também o Cerrado, que está presente principalmente no Centro-Oeste paulista. Esses pequenos fragmentos com vegetação campestre podem ser considerados como relictos do Bioma Cerrado. "Sua importância está em abrigar uma das maiores biodiversidades do mundo. Mas hoje resta apenas 1% dessa vegetação natural. Para piorar, essa área está sob ameaça, especialmente pela pressão da expansão agrícola", considerou Raquel.
Todos pela vida da Mata O Instituto Sócio Ambiental, que atua na região do Vale do Ribeira há quase 20 anos, desenvolve projetos e apoia iniciativas que proporcionam o desenvolvimento da região sem degradar o bioma.
Raquel descreveu algumas das ações que estão sendo feitas para que não se perca esse pedaço de Mata Atlântica em São Paulo. "Já atuamos em projetos de restauração de matas ciliares na Bacia Hidrográfica do Ribeira, além de ações de desenvolvimento, com as comunidades locais que incluem o uso sustentável dos recursos da Mata Atlântica. Participamos do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica que reúne organizações da sociedade civil, empresas e governos de todo bioma e trabalha para implementar políticas de restauração e de um coletivo de organizações, Mais Florestas Para São Paulo, que discute a aplicação da legislação ambiental no Estado e produz informações sobre a importância das florestas para São Paulo", disseram ao semanário da Arquidiocese.
Sobre as atividades para conservação do bioma na cidade, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente destacou a criação e gestão de parques e Unidades de Conservação na capital paulista. A Secretaria listou também uma série de atividades que vêm sendo realizadas, uma vez que a legislação municipal incorpora os fundamentos da legislação federal na intenção de preservação do bioma Mata Atlântica. "Um exemplo disto é o Plano Diretor Estratégico de São Paulo, Lei no 16.050, de 2014, que cria vários planos 'verdes', relacionados à preservação do bioma. Dentre eles, evidenciamos os Planos Municipais da Mata Atlântica, de Arborização Urbana, das Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres e de Serviços Ambientais."
Outra linha de atuação da SVMA são as ações de fiscalização e educação ambiental por meio dos Planos de Manejo das Unidades de Conservação Municipais, com suas zonas de amortecimento e corredores ecológicos. Finalmente, o Fundo Municipal de Meio Ambiente (FEMA) tem financiado projetos de apoio à preservação e atividades sustentáveis, compatíveis com a preservação do bioma Mata Atlântica.
"Contudo, os estudos também apontam que há muitas áreas ainda privadas que conservam remanescentes do bioma. Para mantê-las preservadas, é imprescindível utilizar estratégias de fomento à conservação em terras privadas, como a implementação do pagamento por serviços ambientais, do IPTU Verde, da transferência de potencial construtivo, dentre outros, além da criação de novas Unidades de Conservação", explicou a SVMA.
Crescimento urbano
Embora existam todas essas ações de conservação do bioma, ele está sendo constantemente ameaçado pelo crescimento urbano e industrial. Raquel falou sobre um processo histórico que começou desde a chegada dos portugueses no Brasil. "A Mata Atlântica original ocupava toda costa litorânea do nosso País e foi pela costa que chegaram os estrangeiros. Podemos dizer que a destruição começou em 1500. Desde então, ela foi explorada. As maiores cidades brasileiras foram se formando e seus recursos foram se exaurindo até o limite. Muitas espécies de animais e plantas já estão extintos ou na lista de espécies ameaçadas, como a onça pintada e a palmeira juçara. As áreas litorâneas foram e ainda são alvo da especulação imobiliária. No Estado de São Paulo, especialmente no litoral Norte, há um processo histórico de ocupação humana que contribui para a degradação do bioma."
Sobre essa ocupação, a Secretaria complementou que, a partir dos estudos integrantes do Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA), em seu capítulo de definição de áreas prioritárias, foram realizados estudos na área ecológica da paisagem - área da Ecologia que estuda a estrutura, dinâmica e as funções de ecossistemas em ambientes naturais ou alterados pelo ser humano. Tais estudos utilizaram o conceito de efeito de borda, que considera as alterações estruturais, e mostraram que, dentre os usos do solo que mais impactam esse tipo de vegetação, está a expansão do uso residencial, em especial loteamentos irregulares, e os usos industriais, com destaque para a mineração.
Áreas de mananciais
Outra preocupação, que toca diretamente a população e precisa ser cuidadosamente analisada em São Paulo, é o crescimento urbano e a construção em áreas de mananciais, ou seja, fontes de água, superficiais ou subterrâneas, utilizadas para o abastecimento, como rios, lagos, represas e lençóis freáticos. A SVMA informou que existe um programa que se chama "Operação Defesa das Águas", ao ser questionada sobre o que tem sido feito para frear o crescimento não planejado.
"O programa reúne esforços da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente; de Serviços e Obras; de Segurança; de Habitação e das prefeituras regionais e do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria do Meio Ambiente.
Os órgãos governamentais estão em tratativas para retomada do programa. Ao que cabe à SVMA, os Departamentos de Gestão Descentralizadas (DGDs) têm um mapeamento por região. Na cidade são dez DGDs e cada um fiscaliza uma determinada região. Esses departamentos têm um levantamento dos processos de todos os casos denunciados", declarou a SVMA.
Onde encontrar Mata Atlântica na Metrópole?
E se um paulista ou mesmo um visitante da metrópole quiser ir até um dos lugares onde ainda é possível conhecer o bioma Mata Atlântica?
Onde ir?
Parques Estaduais (Cantareira, Serra do Mar e Jaraguá);
Parques Naturais Municipais (Cratera de Colônia, Fazenda do Carmo, Itaim, Bororé, Varginha e Jaceguava);
Áreas de Proteção Ambiental Estaduais
(Várzea do Rio Tietê, Parque e Fazenda do Carmo e Iguatemi) e Municipais (Capivari-Monos e Bororé-Colônia);
Reservas Particulares do Patrimônio Ambiental (RPPN), (Reserva Mutinga na zona Oeste, e a Curucutu, na zona sul);
Terras indígenas Guarani (nas zonas oeste e sul do município).
Com informações da SVMA
Campanha da | 8 a 14 de março de 2017 | www.arquisp.org.br
O São Paulo, 8-14/03/2017, Campanha da Fraternidade, p. 12-13
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