OESP, Cidades, p.C3
14 de Jun de 2005
O lado bom do vazamento: repor reservas subterrâneas de água
Perdas da Sabesp na rede metropolitana chegam a 15%; estudo analisa causas e efeitos
Mauro Mug
Pelo menos 60% da água que está recuperando os aqüíferos existentes nos subterrâneos da região metropolitana de São Paulo é procedente de vazamentos de adutoras e da rede de distribuição da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e de outras concessionárias que operam na região. Só a Sabesp registra 15% de perdas de água por vazamentos provocados pelo rompimento de tubulações.
No subsolo da região metropolitana existem dois aqüíferos: o sedimentar, que se estende pela planície desde o campus da USP, Tatuapé, Santana e Jabaquara, e o cristalino, que abrange a região mais alta, como Cantareira e o extremo da zona sul, além de São Bernardo, São Caetano e Osasco.
Esse índice de perda por vazamento se mantém há 15 anos. E só não é maior porque, segundo a Sabesp, existe um projeto de combate a perdas físicas. "O lado positivo da constatação da perda dessa quantidade de água é que os aqüíferos e a Bacia do Alto Tietê estariam numa situação crítica se não recebessem água dos vazamentos", diz o professor Ricardo Hirata, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), que pesquisa para saber ao certo a quantidade que sai e entra nos aqüíferos.
O estudo, que começou há dois anos e meio e será concluído em janeiro, é importante, porque não se sabe a quantidade de água reposta no reservatório subterrâneo. "Somente a partir desses dados é que poderemos dizer com segurança o quanto se pode retirar, quanto entra e de onde vem a água de recarga dos aqüíferos", explicou Hirata.
A pesquisa aponta que os poços artesianos urbanos têm explorado água além da capacidade natural. O Plano de Recursos Hídricos aponta a existência de 12 mil poços. Desse total, 80% são clandestinos, feitos a partir da venda de bombas hidráulicas. Os 20% restantes são legalizados, com outorgas concedidas pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee). A maioria foi perfurada no ABC, Guarulhos e capital.
De acordo com Hirata, são retirados, em média, 7,9 metros cúbicos de água por segundo. Para saber a quantidade de água das chuvas e dos vazamentos que estão abastecendo os aqüíferos, ele se baseou nas análises da composição de oxigênio, hidrogênio e flúor da água coletada. "Isso demonstra que a fuga de água não é só da rede de abastecimento, mas da rede coletora de esgoto, que também apresenta rompimento em suas tubulações, já que ao dar descarga se utiliza também água tratada", disse Massato. "Só não sei em que quantidade, pois não fazemos medições dos vazamentos de esgoto."
CONTAMINAÇÃO
Os vazamentos nas tubulações de esgoto põem em risco a potabilidade dos aqüíferos. Entre 2001 e 2003, técnicos da Cetesb fizeram 32.400 testes em amostras tiradas de 162 pontos de monitoramento da água subterrânea nos seis principais aqüíferos do Estado. Constatou-se que 90% das amostras apresentaram qualidade excelente e 10%, aceitável. As amostras do aqüífero cristalino, na região metropolitana, ultrapassaram em 4,8% o padrão de potabilidade para coliformes fecais.
Quando a região não era impermeabilizada, 100% da recarga dos reservatórios subterrâneos era feita de maneira natural, com a infiltração das águas das chuvas. "Com a impermeabilização do solo, a cidade interrompeu uma das etapas do ciclo hidrológico, pois se trata de uma barreira para a recarga natural das águas subterrâneas", explica Hirata.
Poço dribla racionameto e deixa conta mais barata
Até a década de 1970, os maiores perfuradores de poços artesianos eram as indústrias. Com a transferência de muitas para cidades do interior de São Paulo ou para outros Estados, os condomínios e casas de alto padrão das classes A e B, como os de Alphaville, hospitais, lava-rápidos, postos de gasolina e motéis passaram a recorrer aos poços para driblar o risco de racionamento e reduzir custos no consumo.
A perfuração de um poço artesiano custa, em média, de R$ 40 mil a R$ 50 mil. Condomínios que chegam a pagar até R$ 10 mil por mês pela água consumida da Sabesp conseguem amortizar esse investimento em seis meses ou um ano. Antes de abrir um poço, o proprietário do imóvel deve cadastrá-lo no Departamento de Águas e Energia Eletrica (Daee). Em seguida, requisitar a outorga, obtida a partir do projeto de perfuração - que, por sua vez, deve ser autorizado por um geólogo - e da análise da água, para comprovar sua potabilidade. Quem não cumpre essas normas está sujeito a multa de R$ 1.500,00.
O Daee tem apenas 98 fiscais para combater a abertura de poços clandestinos e vistoriar os legalizados. A cada mês, o departamento recebe entre 80 e 100 denúncias, somente na cidade de São Paulo, sobre perfurações clandestinas. Uma equipe de 500 fiscais seria necessária para conter os abusos.
Outro risco com o esgotamento dos aqüíferos é que esses consumidores voltarão à água fornecida pela Sabesp. Com a migração do consumo para a água encanada, o abastecimento chegaria ao caos, pois ele já opera próximo do limite.
OESP, 14/06/2005, Cidades, p.C3
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