VOLTAR

O índio e a mudança através da Educação

Folha de Boa Vista - www.folhabv.com.br
Autor: Ivônio Sólon *
15 de Set de 2008

Durante muito tempo aqui em Roraima, no Brasil, quem sabe até no mundo, o índio foi visto como um ser ignorante, alienado sem capacidade para raciocinar por si próprio, fácil de ser enganado. Até hoje somos tutelado por um órgão que pensa que ainda somos povos primitivos, e que não podemos ser responsabilizados pelos nossos atos ou nossas atitudes, muitas pessoas ainda tem essa visão distorcida do índio em pleno século XXI. Assisti a um documentário, outro dia na aula de História da Educação, com a opinião das pessoas falando sobre o que elas pensavam do índio atual, e o depoimento que vi nunca mais esqueci: "índio tem que ser índio, morar na mata, caçar, pescar, andar nu, viver bem longe da sociedade civilizada, e não ficar brigando por terra". Como se vivêssemos ainda em 1500 quando os portugueses invadiram o Brasil.

Os indígenas de Roraima até certo tempo viviam nessas condições, e alguns ainda vivem. Eram completamente sem visão, sem projeto de vida, sem sonhos. Nossos pais, avós, tios e nossos antepassados nunca tiveram incentivos e nem oportunidade para estudar. Com a constituição de 1988, começa uma nova Era para educação indígena, a nova LDB 9394/96 veio concretizar o futuro dos povos indígenas do Brasil, que rege em seu Artigo 32 § 3o que assegura aos povos indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. Com essa Lei conseguimos nos fortalecer e ganhamos autonomia para aprender e ensinar uma educação especifica e diferenciada, abrindo assim novos horizontes. Foi a parti daí que começamos a escrever uma nova história , nos libertamos do cabresto dos fazendeiros opressores e começamos nos organizar através dos movimentos indígenas. Essa transformação se deu através da educação e não através de lavagem cerebral ou manipulações como alguns segmentos da sociedade pensam, e isso in
comodaram e continua incomodando áqueles que pensaram um dia ser senhores absolutos da terra, seus descendentes e simpatizantes que ainda seguem e praticam a ideologia colonial. Estava indo tudo muito bem até enquanto éramos marionetes, bobos da corte e mão-de-obra barata, convivência pacífica segundo eles.

Hoje a realidade é outra, a cada ano a população indígena está ficando cada vez mais consciente, e mudando através da educação. Até os irmãos yanomami que eram considerados primitivos estão conquistando seu espaço e já conseguiram formar alguns professores através do magistério indígena e lutaram para que suas escolas fossem reconhecidas pelo Estado. Cresce a cada ano o número de indígenas dentro das faculdades, cursando os mais variados cursos como: pedagogia, sociologia, administração, economia, relações internacionais, direito, medicina e o inter-cultural Insikiram. Temos hoje jovens indígenas cursando medicina em Brasília e até em Cuba, saímos de nossas comunidades para estudar, mas com o compromisso de retornar a ela e contribuir com os conhecimentos que adquirimos e ajudar o nosso povo, pois o nosso pensamento é coletivo.

Foi motivo de orgulho, assistir em rede nacional ao discurso de nossa irmã Joênia Wapichana , defendendo os direitos dos irmãos macuxi da Raposa Serra do Sol perante a mais alta corte do Brasil o STF, será como ela conseguiu? Será que foi indicação política?. É somente através da educação que seremos capazes de mudar a nossa realidade, conquistando nossos espaços e nossos direitos, sempre preservando nossa identidade cultural com orgulho de ser índio de Roraima.

É triste saber que ainda há irmãos indígenas lutando pelas causas de seus patrões, morrer se preciso for, marionetes que ainda estão amarrados a linhas de aço, conformados e acostumados a cestas básicas, churrasco regado a cachaça e folha de pagamento governamental no final do mês.

* Professor indígena e acadêmico de Pedagogia - Membro da Opirr (Organização dos Professores Indígena de Roraima)

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.