O Globo, Opinião, p. 20
06 de Fev de 2015
O Guandu e o desafio de garantir o abastecimento
População atendida triplicou desde que a criação do sistema, mas os investimentos em infraestrutura e no aumento da capacidade parecem ter ficado aquém da demanda
A longa estiagem, que trouxe para a rotina das preocupações da população da Região Sudeste as imagens de desoladas extensões de rios com o leito seco, ou à beira disso, expôs também, no caso do Rio de Janeiro, a necessidade de se discutir até que ponto a atual rede de abastecimento de água terá condições de atender a demanda.
O debate é procedente. O Sistema Guandu abastece quase 9 milhões de pessoas somente no Grande Rio. É resultado de uma impressionante obra, mas que remonta à década de 50, quando o desvio do Rio Paraíba do Sul em Barra do Piraí passou a sustentar o crescimento vertiginoso do então Distrito Federal e seu entorno.
Desde então, a população da área beneficiada pelo abastecimento triplicou, mas aparentemente o Guandu não aumentou seus níveis de captação, tratamento e distribuição de água na mesma proporção. Problemas adicionais, como desperdício (terreno da distribuição, via Cedae) e a permanência de altos volumes de poluição na rede fluvial que alimenta o sistema, entre outros, contribuem para potencializar a crise da água no estado - ainda que, por ora, apenas latente.
Desarmonia entre crescimento demográfico e ampliação da capacidade de prover o abastecimento da população é fruto da falta de planejamento. Podia-se não prever a ocorrência de alterações ambientais, ou não se ter antevisto a ação de extremos climáticos como os de agora, mas considerar que haveria um aumento exponencial da população era um exercício que não requeria grande esforço intelectual, muito menos dons de visionário. O poder público fluminense, ao longo dos anos, parece não ter acordado a tempo para a inexorabilidade da conta que, com ou sem chuvas, o crescimento do estado lhe cobraria. A crônica falta d'água em regiões do estado, como a Baixada Fluminense, é evidência disso. A seca apenas antecipa a liquidação da fatura.
É certo que o poder público tem investido em melhorias no Guandu, mas a distância entre os fins do sistema e sua real capacidade de cumpri-los, um risco que o leito seco dos rios tornou quase palpável, induz a crer que as obras posteriores à criação do sistema não acompanharam, na dimensão, o aumento da demanda. Os investimentos no volume de captação, no tratamento da água, na melhoria da qualidade foram, por óbvio, importantes. Mas é crucial enfrentar o desafio de aumentar a capacidade de captação e aproveitamento da água da rede fluvial.
Se, como preveem analistas, a ocorrência de extremos climáticos será mais frequente, e não só no Rio, devido a desequilíbrios ambientais, a prevenção contra secas como a que castiga o Sudeste do país é uma imposição ditada pela sobrevivência.
A água é um bem vital. Garantir o abastecimento é um dever do poder público - à parte, claro, as responsabilidades também da sociedade, via uso racionalizado e mudança de hábitos de consumo para combater o desperdício.
O Globo, 06/02/2015, Opinião, p. 20
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