LACED-Rio de Janeiro-RJ
Autor: ANTONIO CARLOS DE SOUZA LIMA
02 de Set de 2003
MÉRCIO GOMES - ANTROPÓLOGO E PRESIDENTE DO PPS
Os confrontos internos, mas realizados em forma de debates em público e de propósito, que ameaçam afogar o partido que venceu as eleições presidenciais carecem de um sentimento que lhe está ausente desde sua fundação: o grave senso da realidade. Por não ter este sentimento, que não significa propriamente a conservação das coisas tal como elas estão, as disputas entre os chamados conservadores e radicais tornam-se sem objetivo superior e sem possibilidade de acordo. Ao final, ganhará a batalha quem fizer o outro calar. Nada será agregado, a não ser mágoa e desgaste.
O que se entende por "o grave senso da realidade"? À primeira vista, realidade parece ser aquilo que se opõe a não-realidade, isto é, a ilusão. Assim, esta frase seria proferida por aqueles que não acreditam que algo diferente possa existir do que aquilo que está presente. Talvez nem acreditem na possibilidade de mudanças. Tais pessoas gostam de repetir o ditado francês que traduzido fica: "quanto mais se muda mais permanece o mesmo". Desse modo fica subentendido que o que está feito é o que é a realidade. Pode-se também entender realidade no sentido dado por Freud ao que chamou de "princípio da realidade". Nesse caso também o resultado seria um sentimento de que existe uma força maior do que a força do desejo, uma força acumulada de anos de existência que puxa o sujeito para baixo e não o deixa ir além de suas pernas - se não quiser se estrompar. De um ponto de vista político alguém poderia rapidamente aduzir que esta frase representa o sentimento de conservadorismo, de preservação do status quo. Porém, a frase política verdadeiramente conservadora foi proferida anos atrás pelo presidente de Minas Gerais, Antonio Carlos, e ela fala no "grave senso da ordem". Não é difícil de entender que entre ordem e realidade há uma diferença qualitativa muito expressiva. A primeira é verdadeiramente conservadora, a segunda almeja a compreensão do processo histórico. Eis porque precisamos entender melhor o que se pode aprender com o "grave senso da realidade".
Em primeiro lugar, realidade de que falamos é a realidade brasileira. Esta realidade existe como um processo que vem de cinco séculos. A compreensão que temos desse processo, que é o Brasil em formação, advém de um conjunto de idéias e teorias que vêm sendo propostas e discutidas desde pelo menos José Bonifácio, o patriarca da Independência. Há quase dois séculos discutimos o que é o Brasil, e creio que estamos chegando perto de alcançar um veredicto. Talvez daqui a mais cinqüenta anos.
Em linhas gerais, o Brasil é compreendido parcialmente como uma extensão da Europa, parcialmente como uma nação mestiça na alma e na carne, nova e singular, capaz de trazer uma contribuição verdadeiramente significativa para a humanidade. A primeira proposição é a mais querida dos conservadores brasileiros, que agora incluem os Estados Unidos como sendo aquilo que o Brasil almeja ser. A segunda proposição é defendida por pessoas como Gilberto Freire e Darcy Ribeiro. Gilberto, politicamente, era um conservador, Darcy, um esquerdista. Ambos utópicos. Entre uma proposição e outra há centenas de outras visões, mais ou menos mistas dessas duas.
Pois bem, o senso da realidade brasileira está nessa conjunção de proposições, de idéias e de sentimentos. Ele não é alcançável exclusivamente pelo pensamento. Sem o sentimento compartilhado, sem a vivência da integridade e complexidade da nação não podemos compreender o senso da realidade brasileira. Quando dizemos que este senso é "grave" é porque entendemos que há uma profundidade do relacionamento entre pensamento e sentimento para sua compreensão. Ter o grave senso da realidade é se posicionar como pensador e participante da vida brasileira, saber que há uma história por trás que precisa ser conhecida e respeitada para que possa ser transcendida e modificada. Que essa história deixou o Brasil independente submetido às forças dominadoras internacionais e que não é pelo desejo que isto se transforma. As mudanças de que o Brasil necessita não podem vir sem uma compreensão de sua realidade complexa. Não podemos estar à mercê nem da ilusão nem do princípio da realidade; nem Babá nem Palocci
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