OESP, Alías, p. J3
10 de Out de 2010
O frágil lado ambiental dos Bric
Brasil e América Latina até podem aprender com a China a depender menos das exportações de matérias-primas
Kevin Gallagher
The Observer
Nos últimos 30 anos, tanto a China quanto as nações da América Latina procuraram abandonar modelos econômicos voltados para dentro, para se integrarem à economia mundial. Em1980, o total da produção econômica da América Latina era sete vezes o da China. Hoje, a economia chinesa émaior que as dos países latino-americanos em seu conjunto.
Durante esse processo a China impulsionou algumas economias do continente sul americano, mas as implicações a longo prazo poderão revelar-se menos favoráveis. A ascensão chinesa foi positiva para a América Latina, na última década. As exportações da região para o país do Extremo Oriente cresceram nove vezes entre 2000 e 2009 em termos reais, ultrapassando consideravelmente o crescimento das exportações latino-americanas como um todo. Em 2009, as exportações regionais para a China chegaram a US$ 41,3 bilhões, cerca de7% de todas as exportações da América Latina. As vendas para a China, no ano de 2006, o pico anterior à crise financeira, atingiram US$ 22,3 bilhões.
Essas tendências contribuem para impulsionar a expansão econômica no continente sul-americano não apenas porque a China é o destino das exportações, mas também porque a demanda chinesa reduz a oferta global e portanto eleva o preço que os países latino americanos recebem de outros parceiros comerciais pelas exportações. Entretanto, essa sorte inesperada não tem sido compartilhada por todos. Como mostro no meu último livro, escrito em parceria com o economista político Roberto Porzecanski, The Dragon in the Room: China and the Future of Latin American Industrialization (O dragão na sala: a China e o futuro da industrialização latino americana), cinco países e um punhado de setores geraram mais de 80% das exportações da região para a China. O país é, em parte, alimentado pelo minério de ferro e cobre, petróleo e soja da Argentina, Brazil, Chile, Colômbia e Peru. Os investimentos chineses no exterior, de mais de US$ 30 bilhões, dirigem-se em geral para os mesmos países e setores.
No futuro mais distante não é garantido que a China continue fonte de demanda sustentada para mercadorias latino-americanas. Mesmo que siga necessitando desesperadamente das commodities latino-americanas, as consequências dessa necessidade talvez não venham a ser totalmente benéficas. Isso poderá acentuar a dependência(excessiva) da América Latina desses produtos de exportação e ameaçar a capacidade da região de diversificar sua cesta de exportações com manufaturados e serviços modernos. Sem falar nas possíveis consequências sociais e ambientais, que poderão ser duradouras.
Por exemplo, no Brasil, entre 1995 e 2009, a produção de soja quadruplicou - em parte porque cerca da metade da safra era vendida para a China. Ao mesmo tempo o emprego no setor encolheu, como cultivo ficando altamente mecanizado. Além disso, o aumento da demanda de soja esteve associado ao desmatamento de 528 mil km na Amazônia brasileira, ameaçando a sobrevivência de muitos indígenas brasileiros e contribuindo para acentuar as mudanças climáticas do globo.
Em nossa pesquisa, constatamos que praticamente todas as exportações da América Latina e do Caribe estão "sob ameaça" da China. Num trabalho anterior do Banco do Desenvolvimento Asiático, caracterizamos como uma ameaça o fato de a parcela de mercado da China para certas exportações estar aumentando, enquanto a da América Latina e Caribe está diminuindo ou estagnando. Verificamos que 92% das exportações de produtos industrializados da América Latina são ameaçados pela China, representando 39% do total das exportações da região.
A culpa não é da China. Essas tendências são em grande parte resultado de políticas adotadas pelos próprios países latino-americanos. Muitos deles adotaram a "terapia de choque" ou o "consenso de Washington". Os governos liberalizaram rapidamente o regime de intercâmbio e de investimentos e reduziram o papel do Estado na economia, muitas vezes mediante privatizações que, em vários casos, deram errado.
A China adota uma política mais gradativa de integração nos mercados mundiais. Contrariamente à América Latina, ela implementou um programa de reformas econômicas que visavam a uma integração estratégica na economia mundial mediante uma política de "duas vias". Consiste na liberalização dos investimentos estrangeiros e no ingresso de insumos importados para determinados setores, apoiando-os até a maturidade, e cultivando outros até estarem prontos para enfrentar a concorrência das importações.
A América Latina deveria aprender com a China, principalmente no que se refere ao desenvolvimento da indústria, e promover algumas inovações nacionais. Há sinais encorajadores. O Banco de Desenvolvimento do Brasil começou a levar novamente a sério a industrialização. O Chile tem um fundo de estabilização que retira parte da receita do cobre para subsidiar a demanda e os preços, liberando ao mesmo tempo recursos para uma modesta proteção do ambiente. As exportações para a China - e o exemplo geral do país - poderiam ser uma oportunidade para a América Latina. Ou não. /Tradução de Anna Capovilla
OESP, 10/10/2010, Alías, p. J3
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