O Globo, Opinião, p. 6
30 de Jun de 2010
O flagelo da leniência
Atribuir tragédias a fenômenos climáticos costuma ser a providência mais imediata das autoridades para justificar enchentes como as que atingiram 76 municípios de Alagoas e Pernambuco, deixando pelo menos 57 mortos e cem mil desabrigados. De fato, reações da natureza a agressões ao meio ambiente ou mesmo acidentes naturais costumam provocar flagelos em todo o mundo. Mas é preciso que se veja em cada episódio até onde a responsabilidade humana - ou a falta dela - terá contribuído para potencializar dramas.
Todos esses elementos contribuíram para o desastre no Nordeste - da excepcionalidade de uma precipitação pluvial que fez chover em três dias o que era esperado para todo o mês na região até as trapalhadas do poder público. Se a imprevisibilidade das manifestações climáticas pode ou não ter tornado inevitáveis os temporais que inundaram os dois estados, o mesmo não se pode aplicar ao papel das autoridades na dimensão da desdita nordestina. Neste caso, repetiram-se malfeitorias de políticos que sempre agravam as consequências de chuvas fortes ou de quaisquer outros fenômenos naturais.
Pode-se argumentar que a força das chuvas foi inusual, mas não desconhecida na região. Das 50 cidades mais castigadas, 17 já tiveram enchentes pelo menos uma vez desde 2003. Em 2000, o mesmo município alagoano de Branquinha, que saiu arrasado da enchente deste ano, foi vítima de uma cheia que matou 55 pessoas e deixou 109 mil flagelados.
Aqui entram em cena dois vilões da tragédia: a falta de investimentos em obras e equipamentos capazes de minorar flagelos, além do mau uso de verbas que, em vez de abastecer o sistema de defesa civil, financiam interesses políticos.
Investimentos insuficientes e gastos mal direcionados levam a situações como a de Pernambuco, por exemplo, que não dispõe de radar meteorológico, equipamento capaz de prever com antecedência de três a cinco dias o volume de precipitação registrado.
Era tempo suficiente para evacuar as áreas sob risco. Já o capítulo do uso indevido de verbas teve um recente e emblemático exemplo na gestão de Geddel Vieira Lima à frente do Ministério da Integração Nacional: entre 2004 e 2009, dos R$ 933 milhões de orçamento para obras de prevenção, 37% foram destinados à Bahia, estado onde o ex-ministro é candidato a governador pelo PMDB. Pernambuco recebeu 8,9% e Alagoas, governado pela oposição, apenas 0,3%. Deixar a distribuição de verbas e liberar obras ao gosto de políticos clientelistas não provocam chuvas, mas são receita certa para, elas ocorrendo, tornar mais dramática a contabilização de vítimas. Outro agravante de calamidades desse tipo é a leniência do poder público com irresponsabilidades gritantes da população. É o caso das ocupações ilegais. Os municípios atingidos no Nordeste ficam quase todos às margens dos rios que formam as bacias do Paraíba e do Mundaú, degradadas por agravos urbanísticos que crescem ante a complacência das autoridades.
Juntos, esses fenômenos potencializaram a tragédia nordestina, assim como geram flagelos em todo o país, sejam em favelas do Estado do Rio ou em Santa Catarina. E quantas catástrofes ainda provocarão?
O Globo, 30/06/2010, Opinião, p. 6
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