O Globo, Ciência, Saúde, p. 37
19 de Abr de 2009
O desconforto da vida nas ilhas de asfalto
Poluição faz as estufas urbanas ficarem cada vez mais quentes e secas. Periferias de cidades são vulneráveis
Soraya Aggege
Cientistas estão convencidos que as mudanças associadas ao aquecimento global só fazem agravar as ilhas de calor, isto é, as áreas mais urbanizadas e quentes das metrópoles. A geógrafa Magda Lombardo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que a situação tem variado segundo condições atmosféricas e de relevo de cada região.
- As cidades brasileiras estão ficando mais doentes, principalmente nas periferias.
As mudanças climáticas globais estão piorando o desconforto térmico nas ilhas de calor. Depois das 15h, é comum as pessoas se sentirem indispostas e isso tem a ver com o clima local - afirma Magda.
As ilhas registram ainda redução da umidade relativa do ar, uma maior concentração de chuvas e mudanças nos ventos.
- Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, têm metabolismos diferentes. Em São Paulo é pior, pois não há a brisa que o Rio recebe do mar.
Mas não é simples assim. O relevo do Rio cria panelas de pressão, agravadas por poluição e desmatamento. Um inferno climático fica escondido atrás do Cristo Redentor -- diz Magda.
No Rio, o inferno climático se situa na região atrás do Cristo, onde as temperaturas são até 7 graus Celsius superiores às medidas na Avenida Atlântica. Em São Paulo, a temperatura chega a variar 12 graus Celsius de um bairro para outro.
As ilhas formam uma espécie de arquipélago. Em um mesmo momento, o paulistano encontra 20 graus Celsius na Serra da Cantareira e 32 graus Celsius na Rua 25 de Março, no Centro, segundo as medições locais da pesquisadora. E as ilhas de calor estão por toda a cidade. No entanto, nas regiões nobres, com uma maior arborização, as temperaturas são mais amenas. Ainda assim, a variação dentro de bairros como o Morumbi chega a 3 graus Celsius, entre favelas e mansões.
Uma das pesquisas de Magda Lombardo, que comparou as cidades de São Paulo e Nova York entre os anos de 1900 e 2000, constatou que a temperatura média da capital paulista cresceu o dobro, principalmente nos últimos 30 anos: 1,6 grau a mais em São Paulo e 0,8 a mais em Nova York. As diferenças de temperatura em Nova York são de 6 graus, metade das paulistanas, que chegam a 12 graus Celsius.
Desertos artificiais que alimentam o aquecimento
No Rio, onde as análises foram feitas a partir de dados coletados por satélites, as variações das áreas comerciais e residenciais são menores do que nas regiões industriais. A variação de temperatura entre a Avenida Atlântica e a Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, por exemplo, é de 3 graus.
Mesmo nas cidades consideradas modelos, como Curitiba, a situação se agrava nas periferia:
- É como se tivéssemos as cidades formais e as informais para o clima. As ilhas de calor muitas vezes ficam sob o tapete, escondidas nas periferias de cimento. São desertos artificiais onde os efeitos para a saúde são mais severos. As pessoas vivem em casas menos confortáveis, mais sujeitas a enchentes e deslizamentos - afirma Magda.
Na avaliação da pesquisadora, os efeitos das ilhas de calor têm sido ampliados pelas mudanças climáticas globais. Por sua vez, essas ilhas também influenciam o clima global:
- As ilhas de calor contribuem para o aquecimento global - diz.
O professor de Ciências Atmosféricas do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da USP Augusto Pereira Filho também acredita que o microclima de São Paulo tem sido agravado por mudanças climáticas globais.
- Desde a década de 70, São Paulo fica a cada ano mais quente e com menor umidade relativa do ar. Acontece um número maior de tempestades e as garoas não ocorrem mais em grande parte da cidade Aumento de tempestades e descargas elétricas Pereira Filho considera que a relação dos efeitos é clara: as mudanças globais afetam os microclimas, mas os microclimas também aumentam as mudanças globais: - As mudanças climáticas começam pelas cidades e se propagam pelo planeta.
Com dois graus Celsius a mais na temperatura média, São Paulo sofreu um aumento de 60% na quantidade de tempestades e de descargas elétricas nos últimos 50 anos, revelam as pesquisas do especialista Osmar Pinto Junior, do Inpe.
Para o cientista, como a metrópole já é uma ilha de calor principalmente por causa dos efeitos urbanos, ela é o melhor laboratório para se investigar os efeitos do aquecimento global.
A cidade tem dados de raios de 50 anos, enquanto no resto do país os registros começaram há cerca de 10 anos.
O aumento das descargas elétricas é uma evidência importante do aquecimento global.
- O caso de São Paulo é uma forte indicação de que com o aquecimento, teremos mais raios. Na região amazônica os efeitos poderão ser ainda piores. Hoje há muitos incêndios na floresta, mas por causa da umidade, eles não são graves. Fazem parte de um equilíbrio que renova a floresta. Mas como o clima poderá ficar mais seco, como já ocorre na Austrália, começaria um ciclo vicioso pior, com mais raios e incêndios.
Por enquanto, os indícios do Inpe são de que a quantidade de tempestades tem aumentado no Brasil todo, e com elas as descargas elétricas. Os prejuízos com raios chegam a R$ 1 bilhão por ano.
Para o pesquisador José Marengo, do CPTEC/Inpe, os aumentos nos extremos de chuvas e secas nas regiões Sul e Sudeste do país estão evidentes. Os veranicos também estão aumentando muito no Nordeste:
- Os veranicos de cinco dias têm ocupado toda uma estação. As chuvas comuns em um mês, duram apenas dois dias. Algumas áreas de semi-árido se transformam em áridas. E o pior é que processos como estes se acentuarão no futuro - afirma Marengo.
Estratégia nova contra o problema
O Ministério da Saúde considera que as mudanças climáticas já causam danos à população . Tanto que começou a montar um grupo especial que formulará políticas públicas voltadas para os efeitos das alterações no clima. De acordo com o ministério, a medida se deve às evidências científicas internacionais, às pesquisas nacionais e aos indícios de seus efeitos na saúde dos brasileiros.
A proposta é que o grupo, multidisciplinar, passe a ajudar na formulação de políticas ainda este ano. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tem afirmado não ter dúvidas de que as alterações podem estar aumentando os casos de febre amarela.
Alguns relatos começam a chegar ao MS, mas carecem de pesquisas específicas. É o caso do aumento de casos de leptospirose em Santa Catarina, por causa das últimas enchentes que destruíram o estado, avalia o MS.
Outro é o aumento de registros de febre amarela no Rio Grande do Sul, que teria relação com alterações no clima. (S.A).
Programa calcula impacto na saúde
Dados ajudam a prever internações por doenças como leptospirose
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) desenvolve um programa que calcula os efeitos das condições do tempo na saúde da população de 13 capitais brasileiras. O modelo cruza variáveis meteorológicas, inclusive o conforto térmico humano, com os dados de internações.
- Quando a temperatura em Porto Alegre chega a 5 graus Celsius, a previsão é que depois de 3 dias ocorram em média 74 internações por doenças respiratórias. Em Florianópolis, com 8 graus, depois de 3 dias estima-se que 26 pessoas serão internadas.
Com 12 graus em Brasília é possível que ocorram 44 internações em 24 horas - diz a pesquisadora Micheline Coelho, especialista em biometeorologia pela USP e do Inmet.
Os primeiros testes foram feitos em São Paulo, mas cidades como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Vitória, Salvador, Goiânia, Manaus e Fortaleza estão sendo incluídas. O modelo precisa ser aprimorado continuamente.
Poluição por ozônio causa problemas respiratórios
Em São Paulo o programa conseguiu predizer internações a partir da análise biometeorológica e da poluição do ar. É clara a relação entre doenças respiratórias e cardíacas com as taxas de concentração de poluentes e o nível de conforto térmico.
No calor, quando aumenta o nível ozônio - esse poluente se forma quando a temperatura está mais elevada - também há mais problemas de saúde.
O programa consegue ainda prever internações por leptospirose com 10 dias de antecedência.(S.A.)
O Globo, 19/04/2009, Ciência, Saúde, p. 37
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.