O Globo, Ciência, p. 17
25 de Dez de 2009
O desafio dos mares
Sede do Ano Mundial da Biodiversidade, em 2010, Japão insiste na caça à baleia
Claudia Sarmento
Correspondente Tóquio
A cidade japonesa de Nagoya será a sede da Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, em 2010, e o governo já divulgou o símbolo do encontro: animais, imitando o formato de origami, cercam um homem e uma criança - um retrato da vida humana em harmonia com a natureza. Mas pesa sobre essa imagem uma sombra que prejudica a meta do Japão de ser reconhecido como uma nação preocupada com o futuro da biodiversidade. A caça às baleias - uma tradição entre os japoneses desde a Idade Média - resiste a todas as pressões internacionais.
Esta semana o ministro das Relações Exteriores, Katsuya Okada, disse que o Japão não planeja mudar sua política sobre o assunto.
Noruega e Islândia também caçam
Ecologistas, porém, acreditam que o momento de suspender a matança pode estar mais perto. Eleito no final de agosto com a promessa de reduzir os gastos públicos - o Japão administra o maior déficit dos países industrializados - o primeiroministro Yukio Hatoyama formou um comitê para apontar as áreas sujeitas a cortes. Uma das recomendações do grupo foi suspender o repasse de fundos oficiais para o Instituto para Pesquisa de Cetáceos, o órgão que conduz o programa científico que permite a caçada das baleias no Japão. Grupos ambientalistas e governos como o dos EUA, Austrália e Inglaterra denunciam o programa como uma fachada para justificar a pesca comercial dos mamíferos, banida por uma moratória da Comissão Internacional de Caça à Baleia (IWC, na sigla em inglês) desde 1986.
Um dos símbolos mais conhecidos na luta contra a extinção, as baleias continuam a sofrer. E em 2010, quando a ONU celebra o Ano Mundial da Biodiversidade, sua preservação é uma das prioridades. Sete das 13 espécies de grandes baleias continuam ameaçadas de extinção e a comunidade internacional cobra do Japão explicações sobre o sacrifício de mais de nove mil baleias minke nos últimos 22 anos, por exemplo, apenas para as chamadas pesquisas científicas. O governo japonês não esconde que quer o fim da moratória, mas insiste estar fazendo tudo dentro da lei (as pesquisas são permitidas por uma cláusula do acordo com a IWC).
Sem subsídios, no entanto, afirma o WWF, a indústria baleeira não tem como sobreviver atualmente, já que a demanda pela carne do animal vem diminuindo ao longo dos anos.
No início de dezembro, o navio-fábrica Nisshin Maru, o maior da frota japonesa, partiu para mais uma temporada de caça que manchará de sangue o mar da Antártica. Segundo os ecologistas, essa missão vai custar US$ 8,8 milhões, que sairão do bolso dos contribuintes.
Estudo do WWF afirma que na Noruega a situação é semelhante e, desde 1992, o governo gastou mais de US$ 4,9 milhões em divulgação, relações públicas e lobby para defender essa indústria. "Além disso, os subsídios do governo para a indústria igualaram quase metade do valor bruto de todos os desembarques de carne de baleia feitos através da Rafisklaget, a Organização dos Pescadores da Noruega", informa relatório do WWF.
Segundo o mesmo estudo, na temporada de 2008-2009, a indústria baleeira japonesa precisou de ajuda de US$ 12 milhões para ter as finanças equilibradas. Desde 88, esses subsídios já teriam chegado a US$ 164 milhões. Uma das justificativas para a caça - a de que comer carne de baleia é uma tradição, isto é, uma questão cultural que não permite intervenções - fica enfraquecida diante dos números. O WWF informa que o preço do quilo do produto caiu quase à metade desde 1994, por falta de consumidores.
Apesar de toda a gritaria internacional, a Islândia, também mantém a pesca predatória dos cetáceos. No início do ano, em meio a uma crise econômica sem precedentes, o governo do país - pouco antes de renunciar - aumentou a cota de caça de baleias minke (100 por ano) e fin (150) para os próximos cinco anos.
A Islândia justifica a caça à baleia como uma forma de criar empregos e trazer mais recursos, exportando, por exemplo, a carne e a gordura (de onde se extrai óleo) para o Japão, que por sua vez já está com o mercado saturado.
- Essa indústria é mantida por um grupo pequeno e poderoso de burocratas, funcionários do governo e empresários que lucram com ela e que, portanto, têm interesse em manter a caça comercial enquanto for possível - diz Junichi Sato, ambientalista do Greenpeace Japão.
Assunto ainda é tabu para japoneses
Carne é oferecida em escolas
TÓQUIO. Em 2008, Junichi Sato e Toru Suzuki, seu colega no Greenpeace, viraram manchete. Eles comprovaram, pela primeira vez no Japão, o desvio de carne de baleia para venda pela tripulação do Nisshin Maru, ou seja, derrubaram a tese dos fins científicos. A dupla enviou para a Promotoria de Tóquio uma caixa com 23,5 quilos de carne já salgada. A promotoria prometeu investigar mas, um mês depois, os dois é que foram presos - acusados de ter desviado a carne. Sato e Suzuki estão em liberdade condicional, mas ainda podem voltar à prisão.
Enquanto o governo não decide que cortes aprovará para garantir o cumprimento da promessa eleitoral de redução do déficit, a imagem do Japão chega ao fim de 2009 ainda mais afetada na área ambiental. O filme "The cove" chocou plateias no mundo inteiro ao mostrar o massacre de golfinhos na cidade de Taiji, um dos bastiões da caça às baleias. Denunciada por Rick O'Barry - um ex-treinador que ganhou fama por ter adestrado os animais que fizeram o papel de Flipper na série de TV dos anos 70 - a matança foi filmada por Louie Psihoyos, ex-fotógrafo da "National Geographic". O documentário foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Tóquio e rendeu discussões na mídia local, quebrando um tabu.
Debater a pesca de golfinhos e baleias não é algo comum entre os japoneses, um povo naturalmente fechado, que foge de polêmicas sempre que possível.
- Apesar de ser um assunto explosivo, há pouco entendimento sobre a indústria baleeira no Japão - diz Sato. - Sempre que o problema é exposto, rapidamente é encoberto e os que o divulgaram são punidos.
A maioria dos japoneses não tem ideia dos custos reais da indústria para nosso meio ambiente, nossa economia e nossa reputação internacional. Como a maioria das pessoas desconhece a questão, há pouco protesto - explica.
Em Tóquio não se encontra carne de baleia com facilidade e as novas gerações não têm interesse pelo prato. Mas ainda há restaurantes que vendem o produto e, quem quiser, sabe como achá-lo. Em cidades menores é mais fácil comprar em supermercados e a carne de baleia é fornecida a escolas públicas.(C.S.)
O Globo, 25/12/2009, Ciência, p. 17
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