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O desafio de ser índio

O Norte- João Pessoa-PB
Autor: Wagner Lima
18 de fev de 2002

Mas de 500 anos depois dos primeiros contatos dos seus ancestrais com os invasores, os índios ainda têm muitas lutas pela frente para manter a terra, as tradições e o bem-estar das futuras gerações

Através da estrada de barro, a proximidade do cantar dos pássaros e o cheiro que exala das frutas penduradas nas árvores nos dão a idéia de que o paraíso está bem próximo, o que de fato não é nenhum exagero. A poucos metros da entrada da cidade de Baía da Traição, 77 km de João Pessoa, capital paraibana, os famosos cajueiros anteriores à época da colonização, cederam lugar à construção de casas, que antecede o início da área das 26 tribos indígenas do povo Potiguara, que hoje bebe coca-cola, usa celulares, TV com antena parabólica e escuta axé-music.
Mesmo com a destruição de boa parte da vegetação costeira e a desestruturação de parte dos costumes, o que a cidade ainda mantém como característica é a história de seu povo, os índios Potiguara, que são responsáveis por 62% do eleitorado de Baía da Traição e que estão espalhados pelas ruas da cidade e nas 26 aldeias existentes - algumas distantes até 25km do Centro da cidade -, enquanto que, os 38% restantes corresponde à população de cor branca.
Com tanto poder, os índios ainda têm muitas lutas pela frente para manter a terra, as tradições e o bem-estar das futuras gerações. Os desafios - mais de 500 anos depois dos primeiros contatos dos seus ancestrais com os invasores europeus - não só continuam, como também aumentaram significativamente: destruição dos rios, luta pelas terras, divisões internas devido às influências políticas e religiosas e a convivência com as novas tecnologias na educação das futuras gerações e no trabalho manual.
Mas seria por isso que a comunidade indígena se tornou símbolo da Campanha da Fraternidade, realizada pela Igreja Católica, no decorrer do ano de 2002 com o tema Fraternidade e Povos ndígenas: Por uma Terra sem Males? O cacique geral da Baía da Traição, Antônio Pes-soa Gomes, conhecido como caboclinho Potiguara, defende que essa ação é apenas o reflexo do débito que a Igreja Católica tem com a comunidade indígena.
"Na verdade, eu costumo falar, e defendo isso, que é um dever deles que usurparam tudo dos índios, principalmente, no início da colonização, quando os missionários levavam uma cruz na frente e uma espada por trás do corpo. O que mudou é que hoje são as seitas como as igrejas Deus é Amor, Betel, Pentecostal, Batista, que têm feito com que muitos percam a noção de ser índio. A Igreja, por direito nosso, teria muito mais para nos oferecer", disse. O cacique caboclinho ressaltou que os impactos da colonização ainda causam desajustes nas comunidades indígenas na Baía da Traição. "Dentro da nossa comunidade existem seitas religiosas e, com isso, tem acarretado um certo descontrole para a comunidade indígena. A Igreja Católica, por exemplo, trouxe alguns transtornos dos anos 80 para cá, liderando um grupo de índios contra um projeto de agricultura proposto pelo governo do Estado, quando começou o processo de demarcação de nossas terras. De um lado um grupo era liderado pela Funai e do outro pela Igreja católica", disse.

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