CAMPELO, Romildo, Dinheiro, p.B2
28 de Out de 2005
OPINIÃO ECONÔMICA
O desafio da produção mais limpa
ROMILDO CAMPELO
Até pouco tempo atrás, questões ambientais não faziam parte do cotidiano de grande parte das empresas, tanto no Brasil como no resto do mundo. A geração de resíduos provenientes do processo industrial não era encarada como um problema, e o controle sobre materiais despejados na água, no ar ou no solo praticamente não existia. Com o crescimento e a diversificação das atividades produtivas e o conseqüente aumento da geração de resíduos, os órgãos de controle ambiental passaram a exigir das empresas o licenciamento ambiental, bem como o controle e o tratamento de suas emissões atmosféricas, resíduos sólidos e efluentes líquidos. Foi aí que surgiu a figura do técnico em gestão ambiental, que atuava como um gerente-geral, único responsável pela relação entre a empresa e o ambiente.
Com o passar do tempo, e em razão de graves acidentes ambientais que ocorreram nas últimas décadas, a melhoria do desempenho ambiental deixou de ser uma simples preocupação e se transformou em meta de muitas empresas. Com isso, desaparece o responsável único pela área ambiental e tem início uma fase em que todos os trabalhadores da empresa são responsáveis pelo ambiente. A introdução das certificações de empresas pela ISO 14001 passou a garantir que as empresas, além de cumprirem a legislação ambiental, estão comprometidas com a melhoria contínua dos processos de controle do passivo ambiental.
Aconteceu, porém, que muitas empresas, mesmo obtendo todas as certificações possíveis e dedicando enorme esforço para garantir o mínimo de impacto sobre o ambiente, começaram a perceber que o custo ambiental aumentava na mesma proporção do crescimento da produção. Aumentar a produção significava gerar mais resíduos e gastar mais recursos para tratá-los ou dispô-los adequadamente. Os empresários viram-se então diante de um dilema: como produzir mais garantindo que os custos ambientais não inviabilizem a atividade da empresa? A resposta para essa questão é bastante simples. Deixando de gerar resíduos. Mas como isso é possível?
A aplicação dos conceitos da Produção mais Limpa, estratégia ambiental de prevenção da poluição na empresa com foco nos produtos e processos, permite otimizar o emprego de matérias-primas, de modo a não gerar ou minimizar a geração de resíduos, reduzindo os riscos ambientais para os seres vivos e trazendo benefícios econômicos para a empresa.
Com a realização de balanços de massa e de energia, é possível avaliar processos e produtos e, com isso, identificar oportunidades de melhoria que levam em conta aspectos técnicos e econômicos para a definição e a implementação de indicadores para o monitoramento do ambiente. Dessa forma, benefícios ambientais e econômicos são gerados para as empresas graças à redução do impacto ambiental e ao aumento da eficiência do processo de produção industrial.
Todas as matérias-primas, água e energia que entram na empresa são transformadas em produto, que vai ser vendido, ou saem da empresa como resíduos sólidos, efluentes líquidos ou emissões atmosféricas, que devem ser tratados. Então, quanto menos resíduos forem gerados, menores os custos de tratamento.
O conceito de Produção mais Limpa acrescenta aos custos ambientais de tratamento o valor que a empresa já pagou pelas matérias-primas e que, depois de empregadas no processo produtivo, foram transformadas em resíduos. Isso ajuda o empresário a lembrar que todos os resíduos gerados foram anteriormente adquiridos com preço de matéria-prima. Com isso, transformar todas as matérias-primas em produtos -e não em resíduos- passa a ser mais uma das metas da empresa.
A aplicação da Produção Mais Limpa evita a geração de passivo ambiental e de custos ambientais, o que é do interesse da empresa. Ao mesmo tempo, reduz o impacto ambiental proveniente da atividade industrial, o que interessa aos órgãos ambientais e à sociedade. Além disso, e talvez essa seja uma informação ainda não totalmente compreendida por muitas empresas, melhora a qualidade dos produtos, a saúde e a segurança dos trabalhadores. Para atingir esses objetivos, são fundamentais o comprometimento da direção da empresa, a colaboração dos funcionários e, principalmente, a curiosidade, a persistência e a vontade de romper paradigmas.
Romildo Campelo é diretor do Departamento de Meio Ambiente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo).
FSP, 28/10/2005, p. B2
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.