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O degelo visto de perto

Veja, Ambiente, p. 120-121
07 de Nov de 2012

O degelo visto de perto
Um fotógrafo viaja cinco anos pelas geleiras ao redor do mundo registrando as transformações que elas sofrem com o aumento das temperaturas médias globais

Carolina Melo

Os cientistas já não têm dúvida de que as temperaturas médias estão subindo em toda a Terra. Se a atividade humana está por trás disso é uma questão ainda em aberto, mas as mais claras evidências do fenômeno estão no derretimento das geleiras. Nos últimos cinco anos, o fotógrafo americano James Balog acompanhou as consequências das mudanças climáticas nas grandes massas de gelo. Suas andanças lhe renderam um livro recém-lançado nos Estados Unidos, Ice: Portraits of Vanishing Glaciers (Gelo: Retratos do Sumiço dos Glaciares), que reúne 200 fotografias, entre elas as que ilustram esta reportagem.
Icebergs partidos ao meio e lagos recém-formados pela água derretida das calotas de gelo são exemplos do que Balog viu de perto. Esse derretimento é sazonal. O gelo volta nas estações frias - mas muitas vezes em quantidade menor, e por menos tempo. Também acontece de os cientistas se enganarem em seus cálculos e acabarem fazendo previsões infundadas e alarmistas. O caso mais famoso ocorreu em 2007, quando o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, anunciou que os glaciares do Himalaia poderiam desaparecer até 2035. No início deste ano, ficou provado que algumas das geleiras do Himalaia estão até ganhando volume. Disse a VEJA o glaciologista Graham Cogley, da Universidade Trent, no Canadá: "É certo que 98% das geleiras do mundo estão encolhendo, mas muito poucas, até hoje, desapareceram. Ainda temos um longo caminho antes de perdermos uma parte significativa delas".
Há três meses, um relatório da Nasa, feito a partir de imagens de satélite, mostrou que boa parte da superfície de gelo da Groenlândia foi parcialmente derretida - transformada em uma espécie de lama de neve - em um tempo recorde desde os primeiros registros, feitos trinta anos atrás. Em maio, foi registrada em alguns pontos na ilha a temperatura de 24,8 graus - 2,4 a mais do que o recorde anterior para esse mês, de 1991. O geólogo Thomas Mote, da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, declarou a VEJA: "Neste ano tivemos um padrão raro de temperatura no verão da Groenlândia. A temperatura de toda a região do Ártico está mais alta. Esses dois fatores resultaram nas imagens que vimos". Um outro relatório, elaborado pela National Snow and Ice Data Center, mostra que o gelo do Ártico, durante o verão do Hemisfério Norte, teve a maior taxa de derretimento da história, superando o recorde anterior, de 2007. Nem sempre menos gelo significa más noticias. A alta da temperatura na Groenlândia permitiu a volta da criação de gado leiteiro e o cultivo de vários tipos de vegetais, como batata e brócolis. Além disso, o derretimento do gelo no Ártico vai permitir a exploração de reservas de petróleo e abrir novas rotas de navegação. O que se vê nas fotos de James Balog é um mundo em transformação.

Veja, 07/12/2012, Ambiente, p. 120-121

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