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O custo Brasil e a biotecnologia

GM, Opinião, p. A3
Autor: SIMÃO, André
08 de Jun de 2004

O custo Brasil e a biotecnologia

Não é prudente encarar o desenvolvimento dos setores ligados à biotecnologia como uma nova "onda" de investimentos, assim como aconteceu com a tecnologia da informação na década de 90; principalmente os negócios ".com".
As diferenças entre estes dois fenômenos são inúmeras e vão desde o volume de investimentos requeridos - que é muito maior em setores ligados às chamadas ciências da vida - até o prazo para o retorno do capital.
Outra particularidade é o ambiente regulatório, que no caso da biotecnologia é muito mais impeditivo.
Se não bastassem todas estas variáveis, os investidores estão mais cautelosos ao analisar investimentos em novos setores/mercados após o colapso dos negócios ".com".
O que se observa, entretanto, é um entusiasmo mundial com os desenvolvimentos científicos obtidos principalmente no campo da genética humana e animal.
Esse clima geral de otimismo também contamina o Brasil. O sucesso do projeto Genoma firmou o Brasil como um competente centro de pesquisa e referência no cenário da biotecnologia internacional.
Contamos ainda com uma série de vantagens competitivas em relação às demais nações: com destaque para a diversidade racial e da fauna e flora, ativos de valor incomensurável.
Adicionalmente, verificamos que um número crescente de cientistas brasileiros - que buscaram qualificação profissional no exterior - está retornando para seu país natal.
Essa massa crítica altamente qualificada procura na iniciativa privada o capital necessário para viabilizar projetos e pesquisas.
Percebemos também que a criatividade do pesquisador nacional é outro diferencial. Geralmente esse profissional é capaz de elaborar projetos inovadores mesmo com parcos recursos.
É claro que o cenário não é perfeito, longe disso. A falta de uma legislação adequada para a proteção de patentes e a burocracia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) dificultam e encarecem o desenvolvimento da biotecnologia nacional.
Não é exagero afirmar que, em alguns casos, essas barreiras podem consumir entre 30% e 50 % do investimento que deveria ser canalizado para o negócio em si.
Além disso, existe a necessidade de aprovarmos e protegermos os ativos gerados em biotecnologia no exterior - principalmente no mercado norte-americano -, o que demanda um volume significativo de recursos adicionais.
Toda essa combinação de fatores tem como conseqüência a necessidade de somas expressivas de investimentos para os empreendedores interessados na área, mesmo quando a operação é considerada de capital de risco.
Esse fato leva o investidor a procurar co-investidores que garantam a continuidade do projeto.
O tempo de maturação dos negócios nas ciências da vida, que em geral levam de 5 a 15 anos, é outro incentivador para a formação de "sociedades" desse tipo.
Outra barreira é a distância entre as instituições de pesquisa (fundações, institutos ou universidades públicas) e o mercado.
Além dos entraves legais para que as instituições públicas transformem suas descobertas em empreendimentos, não parece existir, nessas entidades, uma política clara de investimentos em pesquisas direcionados à geração de produtos e negócios. A nova lei de inovação pode ser a resposta a esse entrave.
De forma geral, o cientista brasileiro não é educado para focar seu trabalho na geração de potenciais negócios e, assim, conseguir financiamento.
Ainda não existe um relacionamento estreito entre os pesquisadores e a iniciativa privada. Com essa falta, perdemos todos. É imprescindível que os governos federal, estadual e municipal criem reais condições para que as instituições de pesquisa e o mercado sejam, verdadeiramente, aliados. Em conseqüência disso, os centros públicos obteriam mais uma fonte de divisas.
A questão da Anvisa também é urgente. É imprescindível que os processos do órgão se tornem mais eficientes, profissionais e, por isso mesmo, mais baratos para as empresas e o poder público.
Nesse sentido, a Anvisa precisa dispor de um corpo técnico mais afinado com as particularidades do negócio que ela regula.
Os setores envolvidos em biotecnologia no Brasil irão receber cada vez mais investimentos maciços de fundos de capital de risco.
Em virtude das diversas vantagens que o País dispõe nessa área, as ciências da vida têm tudo para se transformar em uma alavanca para o crescimento nacional e para a geração de emprego.
Essa perspectiva, de certa forma, já é uma realidade. Vide o desempenho tão festejado do agronegócio.
Entretanto, é mister que a biotecnologia seja encarada com seriedade e não como apenas mais uma "onda". Também é mister que o governo faça o dever de casa.

André Simão - Diretor-financeiro da FIR Capital Partners.)

GM, 08/06/2004, Opinião, p. A3

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