CB, Brasil, p. 10
23 de Mai de 2010
O crime não compensa
Levantamento feito pelo Correio mostra que as 50 cidades que mais desmataram o cerrado entre 2002 e 2008 não obtiveram o crescimento esperado, como justificam os defensores da devastação
Vinicius Sassine
As fronteiras agrícolas que ocuparam o Centro-Oeste brasileiro, o norte de Minas Gerais, o oeste da Bahia e o sul do Maranhão e do Piauí sempre foram sinônimo de desenvolvimento econômico e de desmatamento do cerrado, o segundo maior bioma do país e o que sofre a devastação mais veloz e impiedosa. A chegada das plantações de soja a perder de vista - e do milho, do algodão e do gado, em menor escala - foi festejada como a razão do crescimento econômico na região, o que justificaria o desastre ambiental de quase metade do bioma já estar devastado.
Um levantamento do crescimento da produção econômica e da renda das famílias nos 50 municípios que mais desmataram o cerrado entre 2002 e 2008 mostra que, na verdade, o desmatamento empreendido nessas cidades não resultou no desenvolvimento esperado. Em alguns casos, a devastação e o modelo de monoculturas chegaram a provocar uma regressão no Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios.
O Correio analisou o movimento da economia em cada uma das 50 cidades que mais devastaram o cerrado em sete anos. Sozinhos, esses municípios desmataram 12,4 mil quilômetros quadrados de vegetação, o equivalente a mais de duas áreas do tamanho do Distrito Federal. A retirada da mata nativa para novas plantações de soja e milho e para novas áreas de pastagem não se traduziu em um desenvolvimento das economias locais acima da média registrada nos outros municípios dos estados, onde o desmatamento não chegou aos níveis detectados nesses 50 maiores desmatadores. Quando se analisa o desempenho dos ganhos individuais dos moradores desses municípios, a influência do desmatamento na geração de riqueza é ainda menor.
As cidades que mais desmataram o cerrado entre 2002 e 2008 estão em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, Maranhão, Bahia, Minas Gerais e Tocantins. Em 66% desses municípios, o PIB cresceu menos do que o aumento registrado nos estados entre 2003 e 2007, conforme dados atualizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o PIB per capita, que é o valor do PIB para cada morador do município, teve uma evolução inferior às médias dos estados em 68% das cidades que mais desmataram o cerrado no período.
Depois de a soja modificar os cenários em municípios antes inexpressivos no Maranhão, no Piauí e em Mato Grosso, a dependência exclusiva à monocultura - que substituiu grandes pedaços de mata nativa de Cerrado - gerou uma retração da economia. A evolução do PIB per capita chegou a ser negativa em Balsas, Tasso Fragoso e Alto Parnaíba, no Maranhão; Ipiranga do Norte e Tapurah, em Mato Grosso; e Ribeiro Gonçalves, no Piauí.
Parceria
Na grande maioria dos municípios que mais devastam o cerrado nesta década, o desmatamento gerou desenvolvimento econômico nos primeiros anos, mas ficou estagnado no atual momento. Isso significa que a supressão da vegetação para dar espaço à soja e ao gado alavancou os PIBs locais, mas já não tem força para garantir o mesmo vigor do crescimento da economia, nem para assegurar indicadores de desenvolvimento humano condizentes com as promessas de melhoria econômica.
"É esse o modelo de desenvolvimento nessas regiões: crescer e estagnar", afirma o pesquisador Laerte Guimarães Ferreira, coordenador do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás (UFG), que emite os alertas de desmatamento do cerrado (com a relação dos 50 maiores desmatadores) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente. "O desenvolvimento nos municípios diretamente envolvidos com o desmatamento está aquém. Basta ver que a contribuição do PIB agropecuário para o PIB total é muito baixa."
Por ser interpretado como uma vegetação de segunda categoria, o cerrado foi devastado sem cerimônias nas décadas de 1980 e de 1990. Fazia parte da política de governo ocupar o Centro-Oeste e o Nordeste brasileiros com o patrocínio do desmatamento do bioma. No fim da década de 90, depois de uma ocupação intensiva principalmente em Goiás e no Mato Grosso, as fronteiras agrícolas seguiram para o oeste da Bahia e o sul do Maranhão e do Piauí.
Três municípios baianos são os maiores desmatadores do cerrado: Formosa do Rio Preto, Correntina e São Desidério. Nos dois primeiros, o PIB ainda evolui num ritmo maior do que em todo o estado da Bahia. Em São Desidério, o PIB per capita aumentou três vezes menos entre 2003 e 2007.
Início promissor, mas estagnação no caminho
O caso mais emblemático da relação entre desmatamento e desenvolvimento econômico é o de Tasso Fragoso, no sul do Maranhão. Os produtores rurais da pequena cidade de 7 mil habitantes desmataram 263 quilômetros quadrados de vegetação nativa em sete anos, assumindo a 14ª posição no ranking dos 50 maiores desmatadores do cerrado.
A entrada da soja, do milho e do algodão pelas mãos de gaúchos e paranaenses levou desenvolvimento e diminuiu o isolamento do município. "Há 20 anos, não havia aqui estrada, energia, telefone fixo ou celular. Hoje a gente já tem tudo isso", afirma o prefeito de Tasso Fragoso, Antônio Carlos Rodrigues. Nesta década, porém, o recuo da soja em razão da oscilação dos preços já interfere na economia do município.
O PIB caiu pela metade. O PIB per capita foi reduzido de R$ 23,4 mil para R$ 11,1 mil. "Os pequenos produtores desistiram de plantar. Mas quem planta em grandes áreas está aumentando a produção", argumenta o prefeito.
Manter o cerrado em pé, além dos evidentes benefícios ambientais, tem vantagens econômicas. O extrativismo, os benefícios para a própria produtividade agrícola e o potencial de pesquisas científicas para identificar propriedades alimentícias, cosméticas e medicinais são tão lucrativos quanto a abertura de áreas para a soja e a pecuária, como mostram levantamentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A expansão das fronteiras agrícolas não depende de novos desmatamentos: pesquisadores defendem que a conversão de pastagens - pastos degradados são hoje o principal cenário no cerrado - é suficiente para abrigar as futuras plantações. "A estagnação já acontece. Onde a soja tinha de entrar, já entrou", afirma o pesquisador da Embrapa Cerrados, Edson Sano. "Hoje não há mais necessidade de desmatamento, pois é possível desenvolver uma região aproveitando as áreas degradadas, integrando a lavoura à pecuária e usando a tecnologia disponível para aumentar a produção." (VS)
CB, 23/05/2010, Brasil, p. 10
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.