O Globo, Economia, p. 24
29 de Mai de 2012
O cálculo das riquezas naturais na Rio+20
Instituições financeiras se comprometeriam a adotar capital natural, que inclui os custos de ativos como solo e água
Cibelle Brito
cibelle.brito@oglobo.com.br
Entre as declarações e documentos propostos para serem debatidos em eventos paralelos à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), está prevista a Declaração do Capital Natural (NCD, na sigla original), no dia 20 de junho. O termo capital natural, desconhecido do grande público, é apontado por especialistas como uma das ferramentas cruciais para o desenvolvimento sustentável. A professora de Gestão Ambiental da FGV Susana Feichas explica que o conceito significa dar valor aos bens e serviços existentes nos sistemas naturais. Sol, ar, água, terra, flora, fauna, microrganismos e os processos de produção de energia e matéria neles existentes são alguns exemplos.
- É da natureza que retiramos tudo que nós, como seres humanos, consumimos para nosso bem-estar físico, social e espiritual, desde alimentos até cosméticos; passando por água, matérias-primas, combustíveis, medicamentos, somente para citar alguns - diz a especialista, que reforça as diferenças que a adoção destes parâmetros poderiam trazer ao mundo de hoje. - Com o conceito de capital natural, busca-se a incorporação do valor das riquezas naturais de um país ao seu produto interno, por exemplo. Esse novo índice poderia significar uma reclassificação dos países em desenvolvimento e aqueles considerados desenvolvidos.
A Declaração de Capital Natural foi desenvolvida por instituições financeiras após reuniões regionais, realizadas em 2010 e 2011, coordenadas pela Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (UNEP FI, da sigla em inglês), parceria entre o programa, o Global Canopy Programme (GCP) e a Fundação Getulio Vargas (FGV).
A Declaração de Capital Natural é liderada pelo governo britânico, junto com os governos de Botswana, Madagascar e Colômbia, e será realizada no dia 20 de junho, às 14h30min, no Riocentro. O objetivo é subscrever a Declaração Capital Natural das Instituições Financeiras e o Pacto de Liderança Natural Capital para empresas e negócios.
A proposta é fazer com que os líderes das empresas convocadas se comprometam com quatro metas: que as empresas operem dentro dos limites dos sistemas naturais; identifiquem e enfrentem os impactos que ainda não estão inclusos sobre as pessoas e o meio ambiente; que os consumidores possam fazer escolhas baseados em informações precisas e que sejam estabelecidos metas e planos rigorosos e realistas.
No início de maio, mais de 20 instituições financeiras assinaram antecipadamente, em Washington, a declaração. Bancos, empresas e instituições financeiras de Estados Unidos, Austrália, Equador, Itália, Grã-Bretanha, e México, entre outros, compõem a lista. O Internacional Financial Corporation (IFC), Global Canopy Programme e Robobank estão entre as empresas que se comprometeram com o cumprimento da declaração.
Susana explica que, na prática, isto significa que as instituições, por exemplo, agregarão aos custos de 1 kg de carne bovina o consumo de água, da utilização do solo e do sol:
- Nossos processos de produção e consumo primaram e ainda primam pela degradação. O setor empresarial é chamado, juntamente com a sociedade, a avançar seus olhares sobre os ecossistemas.
Na última semana, o Instituto Infraero de Seguridade Social (Infraev) anunciou ser a primeira empresa brasileira a seguir a declaração. De acordo com a Infraev, 17% do patrimônio da corporação já está alocado em ativos e setores econômicos que têm entre os princípios a governança corporativa e a responsabilidade socioambiental. Para Susana, à medida que outras empresas brasileiras começarem a aplicar o capital natural, haverá uma adesão em massa de outras corporações no país.
- (No Brasil) Acontecerá então um efeito dominó como tem ocorrido em inúmeras outras práticas - analisa Susana.
O Globo, 29/05/2012, Economia, p. 24
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