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O Brasil precisa se aliar à Índia

O Globo, Razão Social, p. 4-5
Autor: SACHS, Ignacy
18 de Mai de 2010

O Brasil precisa se aliar à Índia
Para o economista, os dois países, juntos, podem liderar o nascimento de outro modelo de desenvolvimento

Entrevista; Ignacy Sachs

Camila Nobrega
camila.alves@oglobo.com.br

Na década de 70, Ignacy Sachs foi um dos primeiros teóricos a trabalhar com o conceito de ecodesenvolvimento, que mais tarde foi substituído pela expressão desenvolvimento sustentável. No início deste mês, ele esteve no Brasil, onde deu uma palestra para poucos jornalistas num auditório da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), marcada a seu pedido com auxílio da Agências de notícias online Envolverde. O motivo: Sachs está muito preocupado com o foco que a mídia vem dando às questões ambientais, em detrimento do social. Logo após a palestra, o economista deu esta entrevista ao Razão Social, na qual fala sobre os meios para se criar uma sociedade que possa aliar inclusão social, respeito às condições ambientais e viabilidade econômica. Com um jeito tranquilo e confiante de falar e um sorriso que não sai do rosto, Ignacy Sachs, com 83 anos, não é pessimista. Não há necessidade, segundo ele, de um crescimento negativo nos países emergentes, mas de se criar uma nova forma de crescer, reduzindo as desigualdades econômicas e explorando os potenciais naturais, planejando sua capacidade se renovar.

O Globo: Em seu livro "A terceira Margem", o senhor afirma que a expressão desenvolvimento sustentável seria pouco abrangente para designar o movimento. Qual é a melhor expressão?

Ignacy Sachs: A questão é que não gosto de me envolver em polêmicas semânticas. Um professor que tive na Polônia dizia: "coloquem nisso o nome de cocoricó, contanto que tenha uma nota de rodapé explicando" (risos). Houve uma profusão tão grande de adjetivos, que resolvi cortar todos. Acho mais saudável acharmos um conceito pluridimensional, que fale de uma economia socialmente includente, ambientalmente responsável e economicamente viável. O perigo é encararmos a questão sem olharmos esse tripé.

O Globo: Por isso o senhor se diz tão preocupado com a tendência mundial de se focar o problema nas questões ambientais?

Sachs: É uma grande armadilha pensar nos problemas ambientais como cerne da questão. Precisamos de um novo sistema econômico, que coloque o social e o ambiental juntos. O meio ambiente não pode varrer as urgências sociais para debaixo do tapete. É natural que a mídia privilegie a dimensão do momento, mas é necessário que nós, da academia, resistamos. Já chegamos à conclusão de que a viabilidade econômica deve ser apenas um meio para priorizarmos as melhores soluções sociais e ambientais, e não um fim em cima mesma. Esse sistema que maximiza os lucros é falido.

O Globo:E, se tanto o capitalismo que vivemos quanto as experiências de socialismo apresentaram seus fracassos, é possível construir uma nova economia dentro dos modelos que temos hoje?

Sachs: Não podemos nos deixar encurralar na dicotomia socialismo-capitalismo. Existem capitalismos diferentes, com diversos modelos de gestão. Pelo menos por enquanto, não existe condição de implantação de modelo algum de socialismo. Mas pode-se importar políticas socialistas dentro das economias capitalistas. A vida é sempre mais rica do que os sistemas teóricos, precisamos aprender com os erros passados. A chave central é uma economia público-privada, que já foi trabalhada nos anos 1950 e precisa ser revista hoje.

O Globo: O conceito de biocivilização se enquadraria em um novo modelo de gestão capitalista?

Sachs: Sim. A biocivilização seria uma sociedade mais includente, que respeitaria os limites ambientais, buscando sempre a viabilidade econômica. Não se faz de um dia para o outro, mas já temos opções para caminharmos até ela. Precisamos orquestrar uma saída ordenada da era do petróleo, pensando na questão da renovabilidade, que está diretamente ligada à orientação social do processo produtivo. Não adianta escolher um sistema que seja prejudicial ao meio ambiente ou às populações rurais, pois ele não vai se sustentar. E quando falo do fim da era do petróleo, não estou pregando a não utilização do pré-sal. Trata-se de fazer dele um capital para financiar a construção de uma estrutura energética sustentável. Estamos vivendo a terceira revolução mundial, quando será necessário pensar nos conceitos de pegada ecológica, biotecnologia e trabalho decente.

O Globo: Que benefícios a Rio+ 20 pode trazer, especialmente para os brasileiros?

Sachs: É raríssimo que as Nações Unidas concordem que uma conferência desse porte seja realizada pela segunda vez consecutiva no mesmo lugar. Isso mostra o prestígio do Brasil no cenário internacional. Mas o país precisa saber como se beneficiar dessa escolha, iniciando, por exemplo, um fórum especial para discutir o evento. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pode ser uma boa âncora para isso. Após esse ano eleitoral, será preciso correr para preparar a Cúpula. O ano de 2012 será muito propício para o evento, diferentemente do que aconteceu na ECO-92. Naquele momento, a Cúpula da Terra estava na contramão da história e as questões maiores eram outras. O movimento neoliberal estava em pleno crescimento, com Reagan e Thatcher.

O Globo: E como a sociedade civil pode participar?

Sachs: A sociedade civil precisa se organizar, tanto por meio de ONGs, como de universidades e centros de pesquisa. O importante é fazer fóruns antecipadamente, para fazer com que o resultado deles seja discutido pelos líderes participantes. Na ECO-92, isso foi um grande erro. Enquanto estávamos reunidos a portas fechadas na Barra da Tijuca, a sociedade civil realizava fóruns no Flamengo, com discussões importantíssimas e manifestações muito interessantes. Mas é necessário fazer com que isso chegue à mesa dos negociadores.

O Globo: Se em 1992 a questão central não era a sustentabilidade, agora os líderes mundiais encaram o tema como questão central?

Sachs: Estão tendo que encarar. A crise econômica que acabamos de viver derrubou o mito da autorregulação dos mercados. E as consequências não acabam. Hoje, vivemos três crises, a financeira, a da globalização e das mudanças climáticas. Mas a lição é que não podemos pensar uma sem relacioná-la a outra. Os governos sabem que terão que ampliar suas políticas, englobando necessidades econômicas, sociais e ambientais.

O Globo: O senhor também fez questão de enfatizar que o Brasil tem um papel maior do que parece a ser desempenhado na economia mundial. E a isso o senhor relaciona uma independência maior em relação aos países desenvolvidos. Falta caminhar com as próprias pernas?

Sachs: Sim, certamente. Porque os países desenvolvidos trabalham por metas e uma forma de crescimento baseadas nas suas limitações e necessidades. Mas essas não são as mesmas dos países emergentes. Esses, como o Brasil, precisam crescer para alimentar suas populações, dar acesso a uma boa qualidade de vida. E eles podem crescer, só é preciso pensar num novo modelo de desenvolvimento. O Brasil pode aceitar reduções em relação ao modelo de desenvolvimento apoiado em combustíveis fósseis, mas não de uma forma geral. O Brasil tem florestas e recursos para se apoiar em um novo capitalismo. Mas vai precisar ditar as regras, porque os países desenvolvidos não têm as mesmas possibilidades.

O Globo:O Brasil não deveria então se basear apenas nas negociações com os países desenvolvidos?

Sachs: Isso. A questão da responsabilidade histórica, em relação às emissões de carbono, precisa ser lembrada. E só os países emergentes podem fazer isso, especialmente Brasil e Índia. A revista "The Economist" publicou uma reportagem mostrando como os países chamados em desenvolvimento têm se tornado sede de inovações nos negócios. Países como China, Índia e Brasil não são mais celeiros de mão de obra barata, pois hoje chegam até a comprar peças nos países do Norte, para fabricarem um produto e então exportar. A China acredito que está em outro patamar, negociando com os Estados Unidos. Mas Brasil e Índia precisam se aliar, para formar um bloco dos emergentes.

O Globo:Não seria necessário então implantar o crescimento negativo nesses países?

Sachs: Não. A questão é decidir qual crescimento adotar. E o sistema precisa acompanhar a redução de desigualdades, necessária tanto no Brasil quanto na Índia. Estamos muito longe de esgotar, por exemplo, o potencial da agricultura familiar. Fazer com que as pessoas saiam do campo e vão viver em favelas nas cidades não é uma saída viável, mas, para que isso não aconteça, é necessário uma boa fonte de geração de renda no campo. O que se pode fazer, então, é sentar junto e pensar os problemas dos países emergentes. Isso os desenvolvidos não podem listar. O Brasil e a Índia precisam criar meios de intercâmbio, que podem ser iniciados pela academia. Pode-se fazer centros de estudos sobre a Índia também. Os países precisam se conhecer melhor, dividir problemas e experiências boas. Até porque há muito em comum. Eles precisam tomar consciência do poder político que os emergentes já têm hoje em dia.

O Globo, 18/05/2010, Razão Social, p. 4-5

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