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O Brasil na foto do clima

O Globo, Economia, p. 27
Autor: VIEIRA, Agostinho
13 de Nov de 2014

O Brasil na foto do clima

GOSTINHO VIEIRA oglobo.glob_o.com/blogs/economiaverde E-mail: economiaverde@oglobo.com.br

Os chineses não se comprometeram com nenhum índice de redução, e os republicanos no Congresso americano já falam em desemprego. Mesmo assim, não há dúvida de que o acordo assinado ontem entre os dois maiores países do mundo é histórico. Pela primeira vez, China e EUA fazem um movimento concreto para minimizar o maior problema enfrentado pela Humanidade: o aquecimento global.
Tão ou mais importante que os compromissos assumidos pelos presidentes Barack Obama e Xi Jinping é o sinal que os dois passam para o mundo um ano antes da conferência do clima de Paris. O tema é vital para o planeta e não dá mais para esperar. Em dezembro de 2015, na capital francesa, os líderes de todas as nações, sem exceção, precisarão assumir as suas responsabilidades. Em Pequim, Obama prometeu que até 2025 reduzirá as emissões de gases de efeito estufa em alguma coisa entre 26% e 28%. Tendo como base o ano de 2005.
Para quem gosta de comparações, em 1997, na cidade de Kioto, no Japão, a promessa das grandes potências, sem o aval dos EUA, era reduzir 5,2% em relação ao que se emitia em 1990. Quase nada aconteceu. Na verdade, nos últimos 24 anos, as emissões de carbono aumentaram 42%, puxadas exatamente pela China e pelos Estados Unidos. Juntos eles representam 45% de toda a sujeira que é lançada hoje na atmosfera.
Ontem, Xi Jinping garantiu que o teto das emissões chinesas será alcançado por volta de 2030. "Se possível um pouco antes". Até lá, o país cuidará para que pelo menos 20% da sua matriz energética venha de fontes limpas. Não parece grande coisa. E não é mesmo. Mas, em se tratando do maior emissor do mundo, que sempre se recusou a assumir compromissos públicos, já é um enorme avanço.
O problema é saber se a natureza está disposta a esperar. Para que os chineses continuem emitindo CO2 até 2030, alguém precisará cortar mais, e antes. Os cientistas seguem dizendo que o limite aceitável de aumento da temperatura é de 2 graus Celsius. Acima disso, ninguém sabe ao certo o que poderá acontecer com a agricultura, os animais e os outros seres do planeta, inclusive os humanos. Garantir esse limite significa chegar em 2050 emitindo 80% menos do que se emite hoje. Quase impossível. O pico de emissões deveria ser alcançado entre 2015 e 2020, e não em 2030.
E como fica o Brasil nessa história? Amanhã, o Ministério da Ciência e Tecnologia vai divulgar os dados mais recentes do inventário brasileiro de emissões. Em 2012, o país emitiu 1,2 bilhão de toneladas de CO2 equivalente, já incluindo outros gases de efeito estufa. O número é 52% menor do que emitíamos em 2004 e quase 15% abaixo do de 1990, ano-base de Kioto. Tudo por conta da redução no desmatamento da Amazônia, que chegou a ser de 27 mil km², em 2004, e hoje está em 5.591 km².
O professor Roberto Schaeffer, da Coppe e do IPCC, acredita que o nosso pico de emissões aconteceu em 2004, com 2,5 bilhões de toneladas. Mesmo nos piores cenários, com o país usando usinas térmicas a carvão a partir de 2020, não voltaríamos a emitir tanto. A volta do desmatamento nos últimos dois anos também não chega a preocupar. Ninguém acredita que os índices recordes que tivemos em 1995 e em 2004 voltem a ser registrados.
Isso não significa que não há mais o que fazer. Muito pelo contrário. Temos que continuar reduzindo o corte de árvores e, quem sabe, virar produtores de florestas. Inclusive em cidades como Rio e São Paulo, que enfrentam secas históricas. Certamente teríamos menos problemas com a quantidade e a qualidade da água. Mais de 80% dos brasileiros vivem em grandes centros urbanos. Portanto, eficiência energética e mobilidade urbana são temas que não podem jamais sair da pauta. Não dá mais para subsidiar o transporte individual cada vez que a crise econômica aperta.
Além disso, é importante lembrar que o aquecimento global é um jogo de equipe. Mesmo que o nosso dever de casa estivesse perfeito, e não está, ainda assim sofreríamos as consequências de um mundo 2, 3 ou 4 graus mais quente. Somos um país pobre e vulnerável, com uma região costeira enorme e uma economia baseada na agricultura e no petróleo. Precisamos investir cada vez mais em prevenção e controle de riscos. A única certeza que podemos ter hoje é a de que não se fazem mais futuros como antigamente.

O Globo, 13/11/2014, Economia, p. 27

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