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O Brasil está no caminho certo

Isto É, Entrevista, p. 11-13
Autor: SACHS, Jeffrey
27 de Dez de 2006

"O Brasil está no caminho certo"
Maior crescimento da economia é inevitável, diz um dos mais influentes economistas em atuação nos países em desenvolvimento

Entrevista: Jeffrey Sachs

Por Milton Gamez

O economista americano Jeffrey Sachs já apareceu duas vezes na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time. Se houvesse um ranking dos mais otimistas, estaria no topo. O crescimento em todas as regiões do planeta indica que dias melhores virão, inclusive por aqui. "O Brasil está no caminho certo", diz. Diretor do Instituto Terra da Universidade Columbia e do Projeto Milênio das Nações Unidas, Sachs tem todos os motivos do mundo para desconfiar do futuro da espécie humana. Em viagens constantes aos países pobres, presencia cenas horripilantes, como crianças africanas morrendo de fome e malária. Mas o famoso assessor dos governos de países em desenvolvimento da América Latina, do Leste Europeu, da ex-União Soviética, da Ásia e da África acredita que é possível acabar com a miséria global em 20 anos. Seu livro O fim da pobreza (Companhia das Letras) dá o caminho das pedras. Em São Paulo, em meados de dezembro, ele exortou empresas americanas aqui instaladas a investir em projetos de responsabilidade social ligados à educação secundária e superior. Em seguida, conversou com a ISTOÉ:

Isto É - Quais são as perspectivas da economia mundial?

Jeffrey Sachs - Estou muito otimista. Apesar de estar lidando com os mais pobres e ter visto coisas horríveis, sou otimista porque esses problemas podem ser resolvidos. Nossa geração poderá ser aquela que acabou com a miséria no planeta. Para muitos, isso parece fantasia. Mas é possível, temos instrumentos poderosos para isso. Não sou adivinho, mas como economista treinado em desenvolvimento digo que há um caminho. Não há razão nenhuma para não vivermos em harmonia e, ao mesmo tempo, combater a pobreza extrema e ter desenvolvimento sustentável.

Isto É - A globalização funciona?

Sachs - Cada parte do mundo em desenvolvimento está alcançando progresso significativo. No leste asiático, o crescimento anual supera 8%. No sul da Ásia, a taxa é de 7% a 8%. Um bilhão de pessoas estão vendo esse progresso na Índia e 1,3 bilhão, na China. Estes dois países respondem por quase 40% da população mundial. Não deixem que ninguém diga que a globalização não funciona. A globalização é o motor desse forte crescimento na Ásia.

Isto É - E no Brasil?

Sachs - Digo o mesmo. Não há razão alguma para o Brasil não apresentar crescimento econômico acelerado. O Brasil está no caminho do desenvolvimento significativo. Sou otimista, mesmo com todos os problemas. O País ainda não decolou como precisa, mas está no caminho certo. Acredito que irá universalizar a acumulação do capital humano. Este país ainda não destravou o caminho do sucesso para todos os seus cidadãos. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso colocou a educação num nível político superior. É uma contribuição histórica, talvez até mais significativa que estabilidade econômica. O fato de o presidente Lula ter dado continuidade é sinal de que o Brasil tem sorte. Olhei as estatísticas e posso dizer que este país caminha para ser um dos grandes líderes do século XXI.

Isto É - A educação ainda é um ponto fraco.

Sachs - Há muitos problemas com a educação, mas os brasileiros descendentes de africanos e indígenas estão fazendo parte da corrente principal. Com um pouco de colaboração entre o governo e as empresas, há uma enorme chance de que ocorra nesta geração uma dramática melhora na capacidade de o Brasil competir e alcançar crescimento econômico. Durante séculos, as pessoas no Nordeste não tiveram oportunidade de fazer parte de uma sociedade movida pela ciência e tecnologia. Isso está mudando. Regiões isoladas geograficamente podem superar os obstáculos com a tecnologia se venderem informação, em vez de produtos físicos. É o que aconteceu na Índia. O que foi preciso? Uma boa universidade. O maior desafio para este país é a melhoria da educação.

Isto É - Por que o Brasil não foi citado em seu livro O fim da pobreza?

Sachs - Provavelmente, eu deveria ter escrito um livro mais abrangente. O Brasil tem pobreza, mas felizmente não apresenta a miséria dos lugares onde passei mais tempo, como a África. O Brasil teve muito progresso em índices de expectativa de vida, nutrição e sobrevivência das crianças. Isso não diminui os desafios das regiões pobres.

Isto É - O que o sr. considera pobreza extrema?

Sachs - É a pobreza que mata. É tão severa que as pessoas não conseguem contar com suas necessidades básicas. Não têm acesso a água potável, comida, tratamentos de saúde preventivos básicos. Não têm acesso a remédios, médicos. Este tipo de pobreza afeta um bilhão de pessoas no planeta. A África é o epicentro dessa miséria: metade da população luta para sobreviver diariamente nessas condições. Há também muitos pobres na China e na Índia, mas os números têm caído. Na América Latina, estima-se que 5% a 10% da população viva em pobreza. O Brasil tem muitas pessoas lutando não necessariamente pela sobrevivência diária, mas por um lugar ao sol na vida econômica, pela dignidade, pela oportunidade de educar seus filhos, por conforto e segurança. É a diferença entre a pobreza de US$ 1 dólar por dia, típica da África, e a de US$ 2 por dia. Infelizmente, há muitas pessoas no Brasil vivendo nesse nível.

Isto É - Como vê o Bolsa Família?

Sachs - O Bolsa Família tem sido útil, mas não é um programa completo. Garantiu uma renda mínima para muitas famílias pobres, deu incentivos para elas conseguirem tratamento básico de saúde e matrículas nas escolas. Mas não resolve o problema do emprego para as pessoas pobres. Não ataca o problema da falta de infra-estrutura nas regiões pobres. E não garante que a criança que recebe o benefício terá capacidade de ir além da educação primária e completar a secundária. Parece que é parte de uma estratégia. Eu gostaria de ver mais.

Isto É - Que tipo de medidas poderiam ser adicionadas?

Sachs - O foco no desenvolvimento regional, especialmente o Nordeste. É preciso foco para entender que ripo de investimentos públicos - estradas, energia, portos, telecomunicações, internei - poderia ajudar a aumentar a produtividade e melhorar as possibilidades de sustento das pessoas nessas áreas. Também gostaria de ver um esforço sistemático maior para que todas as crianças completem a educação secundária.

Isto É - O sr. já conversou com Lula sobre isso?

Sachs - Sim. Há alguns meses, falei com ele sobre a necessidade de uma estratégia regional de combate à pobreza. Acredito que há interesse nesse tipo de abordagem. O Brasil já fez programas de desenvolvimento regional no passado, mas com resultados diversos. Se você tenta empurrar investimentos em locais não apropriados, como o meio da selva, pode ser problemático. Por outro lado, alguns investimentos públicos no Nordeste poderiam criar maiores oportunidades de empregos e atacar uma das causas da pobreza.

Isto É - O sr. não acredita em desenvolvimento na floresta?

Sachs - Não acho desejável. Vocês têm uma cidade como Manaus. Podemos ter desenvolvimento sustentável até certo ponto. Se continuarem a abrir a floresta e aumentarem a infra-estrutura com estradas, edifícios e centros regionais, o que tem de ser feito não será feito.

Isto É - Por que o sr. defende que o Brasil seja pago pelos outros países para preservar a Amazônia?

Sachs - Porque a Amazônia é um bem público global. É propriedade do Brasil, mas a biodiversidade da floresta tropical é uma herança global. É necessário evitar a queimada de grande parte da Amazônia, que solta enormes quantidades de gases que provocam o efeito estufa. Se o Brasil assumir a liderança e parar o caminho do desflorestamento, terá custos econômicos. Há oportunidades econômicas reais na terra desmaiada. Por isso, o mundo deveria ajudar a pagar o Brasil pelos serviços que irá prestar na conservação da biodiversidade e no seqüestro de carbono. Nos dois casos, deveria haver um preço. O Brasil propôs a criação de um fundo global para ajudar países a preservar suas florestas tropicais. Defendo esta idéia.

Isto É - E quanto vale a Amazônia?

Sachs - É uma boa pergunta. Não tenho resposta. Deve-se perguntar qual é o retorno privado, por exemplo, de se desmaiar e plantar soja no lugar para exportar à China. Isso está acontecendo. Não há nada de maligno nisso, são as poderosas forças de mercado. Não é desejável para o Brasil nem para o mundo simplesmente se submeterem a essas forças sem reconhecer os custos que vêm junto. Nessa questão, deveríamos ser muito realistas, e não sentimentalistas ou moralistas. O Brasil é soberano. Mas a soberania não quer dizer que o País não possa ter mecanismos sensatos para evitar o alto custo do desmatamento.

Isto É - Que cenas o marcaram mais na África?

Sachs - Crianças em coma, sem possibilidade de tratamento contra a malária porque chegaram tarde demais. Você não precisa ficar esperando do lado para saber o que vai acontecer. Já vi muitas pessoas com Aids bem próximas da morte, em condições que jamais poderia imaginar. É frustrante saber que, se elas recebessem remédios que custam US$ 0,30 por dia, iriam se recuperar e voltar às famílias, às suas plantações. Visitei uma mulher em Malauí, após uma forte seca que tinha destruído sua lavoura. Perguntei o que ela estava comendo no lugar. Ela respondeu que pegava as palhas de milho desprezadas pelo moinho, fervia e dava às crianças. Fiquei chocado e pedi para ver. Ela me respondeu: "Desculpe senhor, mas hoje é domingo. Hoje a gente não tem nada para comer, pois o moinho está fechado." Não há desculpas para isso acontecer em pleno século XXI, com tanta tecnologia disponível. É absurdo alguém morrer por ser pobre.

Isto É - De quem é a culpa?

Sachs - Não é uma questão de apontar culpados. Os países ricos tendem a culpar os pobres por serem corruptos, despóticos. Os pobres botam a culpa nos ricos por levarem suas commodities e interferirem no comércio internacional.
Prefiro ver o que podemos fazer.

Isto É - E o que podemos fazer?

Sachs - Levar soluções simples e de baixo custo. Podemos superar o isolamento das comunidades pobres, ajudar os agricultores a colher mais, ajudar a lutar contra as doenças com métodos muito práticos e baratos. Nós, no mundo mais desenvolvido, não estamos exercendo a nossa responsabilidade. Não por estarmos causando pobreza, mas por estarmos negligenciando a pobreza. Nem vemos os pobres. Os miseráveis são as pessoas mais invisíveis e sem voz no planeta. Diariamente, de 20 a 30 mil pessoas morrem por não conseguirem suprir suas necessidades básicas. Não vemos manchetes todos os dias dizendo: 30 mil pessoas morreram ontem. São invisíveis! Não aparecem nem nos obituários.

Isto É, 27/12/2006, Entrevista, p. 11-13

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