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O boom do alcool

OESP, Notas e Informacoes, p.A3
14 de nov de 2005

O 'boom' do álcool
É mais do que figura de retórica a afirmação feita ao Estado pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, de que "o álcool é a única alternativa para o fim da era do petróleo". No Brasil, onde as lavouras de cana-de-açúcar ocupam cada vez mais áreas agricultáveis e voltam a predominar os carros a álcool, os motoristas têm o privilégio, único no mundo, de poder escolher entre abastecê-los com álcool, com gasolina ou com ambos os combustíveis.
Mas até chegarmos a esse estágio avançado em termos de oferta de energia - algo que era apenas vislumbrado por uns poucos especialistas no lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975 - houve uma longa série de percalços que fizeram com que o programa parecesse mais destinado à extinção do que à consolidação.
Na década em que o Proálcool foi lançado, o mundo passou por dois choques do petróleo - em 1973 e em 1979, seguidos de um choque das taxas de juros nos Estados Unidos e, por tabela, no mercado internacional. A elevação dos preços do petróleo nesse período foi de tal monta que passou a viabilizar os investimentos em álcool combustível. Multiplicaram-se, então, tanto as indústrias de equipamentos como as de caldeiras e de máquinas para as usinas de álcool, para as quais o governo federal destinou vultosos recursos. Quase meio milhão de automóveis e veículos comerciais leves movidos a álcool foram produzidos em 1980, número que passou de 1 milhão por ano, entre 1983 e 1986, superando em muito os movidos a gasolina.
Mas, quando os preços do petróleo começaram a despencar no mercado internacional, a gasolina voltou a ser imbatível. Na década de 90, o predomínio dos veículos movidos a gasolina foi absoluto, tornando irrisória a produção de unidades movidas a álcool até 2001.
Em síntese, a nova alta dos preços do petróleo devolveu competitividade ao álcool. E, em 2004, a crescente demanda da China reduziu os excedentes de petróleo. Em 2005, os preços dessa commodity bateram na casa dos US$ 70 o barril, estando, agora, em torno de US$ 60, o que abriu possibilidades para os combustíveis alternativos - como o carvão, o gás natural e o álcool.
No Brasil, a competitividade e a produtividade do parque sucroalcooleiro, desde as lavouras até a produção de açúcar e álcool, incluindo a energia renovável gerada pela biomassa e pela co-geração, são expressivas e as perspectivas continuam a ser muito favoráveis.
Na rica região de Ribeirão Preto, as lavouras de cana-de-açúcar que ocupavam uma área de 8,6 mil km2, em 1988, estenderam-se por 18,2 mil km2, em 2003, período em que sua participação no conjunto da área agrícola da região passou de 23,46% para 49,82%. O crescimento das áreas plantadas com cana nessa região supera, em muito, a média verificada no Estado de São Paulo, que foi de 18,5% entre as safras de 1999/2000 e 2004/2005.
E os usineiros estão investindo em novas áreas dado o crescimento da demanda interna e externa em países como os Estados Unidos e o Japão, preocupados em adicionar álcool à gasolina e atender às políticas voltadas para o meio ambiente.
A produção de veículos bicombustíveis ou movidos exclusivamente a álcool voltou, neste ano, a superar a dos veículos movidos a gasolina e esta tendência deverá se acentuar. Estima-se que, até 2009, sejam produzidos 5 milhões de veículos tipo flex-fuel.
Com uma política tributária mais razoável - o ICMS sobre o álcool, por exemplo, foi reduzido de 25% para 12%, em São Paulo - deverá aumentar o consumo desse combustível e diminuir o de petróleo. Isto poderá beneficiar a balança comercial brasileira, pois a necessidade de importar petróleo, que já vem se reduzindo, cairá ainda mais.
A ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, em seminário promovido pelo Estado, disse acreditar que o álcool tende a se tornar uma commodity disputada no mercado internacional. Tudo indica que é uma avaliação correta. Nesse caso, ao governo cabe investir em alcooldutos e criar uma política comercial e tributária adequada, que estimule os investimentos privados voltados para suprir os mercados interno e externo.

OESP, 14/11/2005, p. A3

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