OESP, Vida, p. A18
Autor: REINACH, Fernando
05 de Mar de 2009
O aumento da taxa de morte das árvores
Fernando Reinach*
Morte de floresta traz à mente motosserras e madeireiras ilegais, mas, mesmo em florestas preservadas, árvores morrem continuamente. Recentemente, ecologistas dos EUA descobriram que nas reservas florestais do país a taxa de mortalidade das árvores vem crescendo nos últimos 50 anos. A descoberta pode ser mais preocupante que o desmate na Amazônia, pois sugere que, mesmo que extingamos o desmatamento, florestas podem continuar a encolher.
Em qualquer população existe uma fração de seus membros que morrem a cada ano. Estão inclusos jovens que morrem desnutridos, idosos que morrem de velhice e mortes causadas por acidentes ou doenças. Enquanto a taxa de natalidade for superior à de mortalidade, a população cresce. Nas sociedades humanas dos últimos séculos, excluindo períodos de guerra e epidemias, a fração das pessoas que morrem vem caindo gradativamente.
Nas florestas, o fenômeno é mais complicado. O planeta vem perdendo suas florestas principalmente por causa da derrubada constante. A importância desse fenômeno é tão grande que poucos pesquisadores se preocuparam em estudar o que ocorre com a mortalidade e a expectativa de vida das árvores em florestas que não sofrem o impacto direto da ação humana. Foi estudando florestas intocadas que os ecologistas descobriram que no último século a taxa de mortalidade das árvores vem aumentando a cada década, o oposto do que ocorre com a humanidade.
Foram analisadas 76 florestas preservadas em sete Estados do oeste dos EUA. Para cada uma delas, os cientistas vêm medindo desde 1950 a fração das árvores que morrem a cada ano. Quando os dados foram tabulados veio o susto. A taxa de mortalidade subiu de 0,5% ao ano (cinco em cada mil morrem a cada ano) por volta de 1955 para 1,5% ao ano em 2005.
Para excluir a hipótese de que era um efeito esporádico, restrito a alguma espécie ou a árvores mais antigas, o estudo comparou florestas mantidas como reservas há muito tempo (250 anos) ou tempos menores (25), diferentes espécies, tamanhos ou altitudes das florestas. Em todos os casos, observou-se um aumento brutal na taxa de mortalidade. Esse aumento leva a uma duplicação da taxa de mortalidade a cada 17 ou 29 anos, dependendo da região.
É um resultado preocupante por três motivos. Primeiro: um fenômeno, mesmo isolado, pode levar a uma redução enorme no tamanho de árvores e florestas. Segundo: esse novo fenômeno, quando somado à destruição direta, aumenta significativamente a velocidade da perda de florestas. Terceiro: as causas desse aumento de mortalidade ainda são desconhecidas e não sabemos se será possível diminuir ou reverter esse fenômeno.
Os cientistas que fizeram a descoberta não são otimistas. Eles sugerem que as causas sejam as alterações no clima e na atmosfera do planeta. Se for verdade, talvez seja o primeiro sinal de que a Terra já não é um ambiente propício para a existência de grandes florestas.
*Biólogo - fernando@reinach.com
Mais informações em: Widespread increase of tree mortality rates in western United States. Science, vol. 323
OESP, 05/03/2009, Vida, p. A18
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