O Globo, Ciência, p. 34
19 de Ago de 2010
O Aedes redescobre a Europa
Aquecimento estaria por trás da volta do mosquito, afastado do continente há 50 anos
Renato Grandelle
Eterna dor de cabeça do verão carioca, o Aedes aegypti expandiu suas fronteiras. Uma colônia do mosquito, vetor da febre amarela e da dengue, foi descoberta na Holanda pelo entomólogo ErnstJan Scholte. Não eram feitos registros semelhantes há mais de 50 anos. O retorno do inseto seria um sinal de sua adaptação às temperaturas acima da média dos últimos meses no Hemisfério Norte. Segundo o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, uma das consequências da elevação das temperaturas do planeta seria a ampliação da área das doenças tropicais.
- É possível estabelecer uma relação entre a chegada do Aedes e as mudanças climáticas - admite o chefe do Laboratório de Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz, Ricardo Lourenço de Oliveira. - A temperatura média europeia é, hoje, mais elevada, mesmo neste verão. Mas pode ser que ele tenha vindo outras vezes nos últimos 50 anos e sido erradicado naturalmente, sem que qualquer pesquisa o tenha percebido.
Brasil chegou a erradicar inseto
De acordo com Scholte, o Aedes teria entrado na Europa ainda em ovos, acoplados a uma carga de pneus proveniente dos Estados Unidos. O entomólogo acredita que a existência do inseto não vingará na Holanda, devido ao rigor do inverno. O país, porém, pode servir de ponto de partida para sua difusão a localidades de clima mediterrâneo no continente, como a Itália e o sul da França.
Para Oliveira, o tráfego crescente de pessoas e mercadorias é vital para a difusão do inseto.
- É por este intercâmbio que o Aedes passa de regiões infestadas para outras onde ele normalmente não é registrado - alerta. - Foi assim que ele voltou ao Brasil. Conseguimos erradicálo na década de 50, mas, como nem todos os países vizinhos fizeram o mesmo, ele voltou para cá nos anos 70 e está presente até hoje.
O Aedes precisa de chuva e temperatura elevada para se desenvolver. Aproveitando-se das mesmas condições, um mosquito do mesmo gênero, conhecido como tigre asiático (Aedes albopictus), instalou-se na Europa há cerca de 20 anos.
- O mosquito tigre, porém, resiste a temperaturas baixas, o que garantiu sua permanência naquele continente nas estações frias - ressalta Lourenço. - Se a temperatura média permanecer muito tempo abaixo de 15 graus e não chover, o ovo do Aedes aegypti acaba secando e sua existência fica comprometida.
Segundo Oliveira, o vetor da dengue só seria capaz de sobreviver ao inverno europeu "em locais muito específicos", como abrigos em estruturas do metrô. O mais provável, porém, é que ele seja totalmente erradicado - o que não o impediria de voltar no próximo verão.
Não é apenas na Europa que o mosquito alerta as autoridades de saúde. Na Flórida, 29 ocorrências de dengue foram registradas desde o início do mês. Também foram detectados 67 casos "importados" - aqueles em que os infectados viajaram por áreas em que a doença é endêmica, como a América Latina. Foi um índice suficiente para que o governo local pedisse à população para usar repelentes e evitar o acúmulo de água parada. O estado americano não enfrenta surtos de dengue desde 1934.
Na Costa Rica, a dengue fez 15.916 vítimas até fim de julho - 615% a mais do que no mesmo período do ano passado. No dia 7 daquele mês, a Organização Pan-Americana de Saúde declarou estado de emergência no continente por causa da doença.
No Brasil, o Ministério da Saúde confirmou, na semana passada, três casos da dengue tipo 4, que não era registrada oficialmente no país desde 1982. Quase a totalidade da população do país não é imune ao vírus.
O clima e as doenças tropicais
As mudanças climáticas podem acelerar o ciclo de doenças tropicais e facilitar a dispersão de seus vetores.
O desmatamento, aliado à elevação da temperatura e da umidade, contribuiria para a proliferação de mosquitos em grandes centros urbanos. São eles os vetores de doenças como malária, dengue e febre amarela
Como o aquecimento global não é privilégio dos países tropicais, as doenças típicas desta região também acometeriam, com força crescente, as zonas temperadas.
As mudanças climáticas provocariam outros efeitos indiretos sobre a saúde. A maior incidência de eventos extremos, como inundações e secas, afetariam a produção de alimentos. Áreas em processo de desertificação teriam a qualidade da água comprometida e, portanto, maior incidência de enfermidades como cólera e diarreia.
O Globo, 19/08/2010, Ciência, p. 34
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