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Autor: Juliana Radler
20 de Jul de 2010
Em seu romance "O quinze", a escritora cearense Raquel de Queiroz narra a grande seca que assolou o sertão nordestino no ano de 1915, trazendo um cenário de fome, miséria e aridez à Caatinga. Quase 100 anos depois, no ano de 2005, a Amazônia também viveu sua seca épica. Em tempos de globalização e mudanças climáticas, fotos do rio Amazonas seco, com barcos encalhados, peixes mortos e ribeirinhos desolados, circularam pela mídia mundial, deixando pasmos os olhos do mundo.
A dramaticidade da imagem da seca em uma das regiões mais abastadas de água do planeta acabou ocultando outro fenômeno climático extremo que ocorreu na Amazônia no mesmo ano de 2005.
Uma intensa tempestade tropical com ventos de até 145 quilômetros por hora atravessou entre os dias 16 e 18 de janeiro a Bacia Amazônica inteira, de Sudoeste para Nordeste, deixando vítimas fatais, principalmente nas cidades de Manaus, Santarém e Manacapuru. Foi um fenômeno natural bastante incomum na região: uma tempestade vinda do Sul e não do Leste, como ocorre normalmente, explica o pesquisador do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas), Bruce Walker Nelson.
Agora, cinco anos depois, um estudo científico divulgado pela União Geofísica Americana (AGU), com apoio da Nasa (Agência Espacial Americana), e participação do INPA, traz à tona os impactos desse enorme temporal na floresta: "entre 441 milhões e 663 milhões de árvores foram destruídas em toda a Bacia Amazônica". Árvores grandes caíram e levaram junto outras ao redor, como um efeito dominó, mostrando a vulnerabilidade da floresta aos fenômenos climáticos extremos.
Esse estudo contesta pesquisa anterior, publicada na revista Science no ano passado, que atribuía apenas à seca o aumento da mortalidade de árvores em 2005. Os pesquisadores observaram, através de imagens de satélite e pesquisa de campo, que mesmo nas regiões não afetadas pela estiagem, como Manaus, houve uma mortalidade significativa, estimada entre 300 mil a 500 mil árvores, número superior inclusive ao de outras regiões prejudicadas pela seca.
Indo a campo, os cientistas identificaram a destruição causada por rajadas de vento, os chamados "downburst" pelos meteorologistas, que significa o "vento que desce e explode na superfície", como tornados. "Se uma árvore morre por causa da seca, ela geralmente morre de pé. São muito diferentes das árvores que morrem arrancadas por uma tempestade", observa um dos autores do estudo, o ecólogo Jeffrey Chambers, que analisa ciclos de carbono na Amazônia desde 1993.
Ciclo de carbono
Com tamanha perda de árvores, a pesquisa sugere que as tempestades tropicais extremas podem desempenhar um papel mais importante na vida da floresta do que se imaginava. O ciclo de carbono, por exemplo, pode ser bastante afetado nos casos mais drásticos, embora ainda seja prematuro concluir o tamanho do impacto. Tirando uma média de quanto cada árvore absorve de CO2 aproximadamente, os pesquisadores estimam que a floresta tenha retido 23% menos carbono em 2005 do que seria capaz em sua média anual devido à tempestade.
Teme-se que intempéries assim possam tornar-se mais freqüentes no futuro da Amazônia devido às mudanças climáticas, matando um número maior de árvores e liberando ainda mais carbono na atmosfera. "O desmatamento causado pelo homem, aliado aos fenômenos naturais extremos, podem acelerar e antecipar quadros de desequilíbrio da Amazônia, como a savanização da floresta, previstos em conseqüência do acirramento do aquecimento global", ressalta o climatologista e pesquisador do INPE, José Marengo, em entrevista a ((o))eco.
Marengo, que é um dos maiores especialistas em clima do Brasil, enfatiza a importância de se compreender melhor o impacto de um fenômeno climático extremo na vegetação e no ciclo de carbono. No entanto, ele coloca que ainda existem muitas incertezas pairando sobre o tema e que esse estudo não é conclusivo. A pesquisa utilizou uma modelagem para estimar o montante de árvores mortas em toda área afetada pela tempestade (cerca de 9 mil km2), tomando como base a análise feita na região de Manaus. Dessa forma, é possível ter uma margem de erro relativamente alta, como também salientou o pesquisador do INPA, Bruce Nelson.
De um lado, tempestades e secas. De outro, o ser humano, ainda o principal causador de desmatamento. Grandes fatores de pressão à sobrevivência da Amazônia. Porém, a capacidade de resiliência da natureza é enorme e a floresta pode se regenerar, desde que o ser humano colabore com a sua preservação. No romance de Raquel de Queiroz, a seca de 1915 suscitou o aparecimento de conflitos morais, fazendo com que os personagens, para superar seus problemas, deixassem de se enganar por fraquezas e ilusões. Será que a vida imitará a arte a tempo de evitarmos o pior?
http://oecoamazonia.com/br/reportagens/brasil/48-o-2005-seca-e-tempesta…
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