CB, Economia, p. 20
Autor: MACHADO, Antônio
07 de Jul de 2007
Novo colonialismo
por Antônio Machado
cidadebiz@correioweb.com.
O presidente Lula fez o que deveria em seu giro a Portugal e à Bélgica, sede da União Européia: defendeu o álcool como a melhor opção ao petróleo caro, poluente e cada vez mais escasso, e contra o aquecimento global. A sua argumentação está correta e foi mais que oportuna já que o Brasil voltou à linha de tiro do mundo rico.
A firme posição contra o protecionismo agrícola, que é maior na Europa que nos EUA, e a defesa da produção do álcool como redenção dos países pobres, especialmente os da África e América Central, não foram absorvidos pela diplomacia européia. No caso da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio, EUA e UE atribuíram a Brasil e Índia, co-líderes do G20, o grupo dos países emergentes, as razões do fracasso dos esforços para a liberalização comercial.
Já a defesa do álcool, que encontrou no presidente George W. Bush um aliado, suscita hostilidades mais sutis entre os europeus. Os seus laços com os produtores árabes de petróleo são muito fortes, até pela enorme presença de imigrantes muçulmanos no continente, embora menos visíveis que os dos EUA. E o cartel da OPEP já exibiu os dentes contra o avanço do álcool como substituto do petróleo.
Os interesses internacionais emergentes pela África, na qual EUA e China batem cabeça na disputa pela exploração de seus recursos naturais, além de influência, enquanto o governo Lula belisca as sobras na margem, também preocupam a Europa - a antiga potência colonial de quase todos os países africanos. A eles a Europa dá acesso preferencial para a produção agrícola. Em troca, os votos desses países pobres alinham-se aos da UE em fóruns como da OMC.
E o governo Lula com isso? Sugere o plantio de cana-de-açúcar e outras culturas favoráveis à extração de álcool nas vastas áreas não cultivadas e férteis da África. Sozinho, e sem prejuízo das demais culturas, o Brasil pode segurar boa parte do abastecimento de álcool no mundo. Mas para que vire commodity, dando a segurança de fluxo contínuo, sua produção deveria estar espalhada e envolver uma miríade de produtores, assim como o petróleo.
Lula abre uma porta de saída para a miséria da África. A Europa quer manter a chave dessa porta, assim como de seu próprio mercado de etanol, protegido por tarifa de 55% (contra apenas 5% incidente sobre o petróleo), farto subsídio à produção local e a advertência de que tão cedo tais barreiras não serão derrubadas.
Coincidência o quê!
O instinto colonialista do "velho mundo" parece mais forte que a tradição humanitária dos europeus. Não deve ter sido coincidência, como suspeita a diplomacia brasileira, que dois relatórios muito críticos para os biocombustíveis tenham sido divulgados agora, com Lula em Bruxelas, por entidades multilaterais, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, e a OCDE, que reúne os países mais ricos do mundo. A burocracia das duas é fortemente influenciada pelos países europeus.
Ofensa ao governo
Tais estudos levantam dúvidas e preocupações pertinentes, mas os tratam como sem solução ao sugerir de modo ofensivo a inoperância do governo brasileiro para resolvê-las. Coisas como a agressão ao meio ambiente pelo plantio da cana-de-açúcar, o desrespeito aos direitos trabalhistas, o uso de mão-de-obra escrava nas lavouras, a ameaça à preservação da Amazônia e à ocupação de terras onde se plantam alimentos, elevando-os no mercado em valores que estimaram em 10% a 20%. Seria assim e ficaria pior com o etanol, argumentam.
Zoneamento agrícola
É semelhante ao que também acusa Fidel Castro, com os presidentes Hugo Chávez e Evo Morales no papel de papagaios. Com a monocultura da cana dominante em Cuba, Castro parece temer pressões do próprio regime para a conversão dessa produção ao álcool, e não só açúcar, visando o mercado dos EUA. Chávez receia a concorrência, como os produtores de petróleo. E Morales... Ora, copia os seus mestres.
Para a imagem ruim do setor alcooleiro, muito contribui a versão propagada pelas organizações não governamentais (ONGs) européias presentes no Brasil - que não é todo errada. Lula só vencerá essa batalha se o governo impuser normas rígidas à atividade, começando pelo zoneamento agrícola no país, e o empresariado expurgar as práticas medievais e denunciar quem as emprega. E mais: repetir os europeus e também sair fazendo lobby mundo afora.
Sem aliados na sociedade civil, na academia e no mundo político dos países ricos, será difícil ao Brasil assumir a liderança de um programa sobre o qual domina todo o processo e se revela um cavalo selado pronto para o desenvolvimento econômico e social montar.
O país já perdeu ao longo da história vários cavalos selados. Se não agir com astúcia, perderá mais este, e já há um caubói pronto para montar este cavalo: os EUA, maior consumidor de petróleo do mundo, engasgado com a dependência crescente de fornecedores cada vez mais agressivos e petulantes, e que investe bilhões de dólares em combustíveis alternativos. O diálogo entre os presidentes Lula e Bush converge para uma atuação conjunta, mas com Brasil à frente do processo no mundo. Bush sabe que já não convence ninguém.
Seria o cúmulo que o país perdesse tal oportunidade, que ocorrerá se faltar gerência e coordenação no governo, porque o resto já há.
CB, 07/07/2007, Economia, p. 20
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